    O QUE SE DIZ E O QUE SE ENTENDE
    CECLIA MEIRELES
    *
    Orelha do livro:


    Como alguns outros poetas brasileiros - entre os quais se destacam
Drummond, Bandeira, Mrio Quintana - Ceclia Meireles no limitou seu trato
com a palavra  construo de versos. Autora de livros infantis, de artigos
at hoje importantes sobre educao, Ceclia dedicou-se com igual entusiasmo
 crnica. Sua produo, nesse setor,  quase to extensa quanto a potica,
e no se limitava a jornal: divulgava-a tambm pelo rdio.
    Ora, se ainda se precisa de uma'prova'a respeito do'senso de participao' de Ceclia (h quem
considere sua poesia excessivamente inefvel, desligada da realidade, exceto a
'exceo honrosa' de O Romanceiro da Inconfidncia), sua atividade de cronista
 mais do que suficiente para destruir qualquer dvida.
    O que se Diz e o que se Entende rene, nesse aspecto, a prosa mais incisiva
de Ceclia. Aquilo que em sua poesia assume, em geral e de modo inevitvel, um
sentido implcito, aqui se desdobra em testemunho da artista comprometida com
todas as dimenses da vida que a cerca: a social, a poltica, a cultural e,
quase profeticamente, a ecolgica. Textos sobre a destruio da natureza nas
grandes cidades em funo de um falso desenvolvimento urbano, ou sobre a
drstica reduo da linguagem na fala cotidiana sob pretexto de melhor'se
comunicar', adquirem sem abrir mo da elegncia e da delicadeza tpicas de seu
estilo, fora de manifesto. Assim tambm, a nostalgia, certo saudosismo, no
de todo isentos de amargura e desconsolo, funcionam como elementos de crtica
de situaes de injustia e opresso, tanto no plano individual quanto no
social, mas no se fechando na contemplao de um passado reduzido  sua intil
memria. Pelo contrrio, a 'recordao' , paradoxalmente, utpica. Serve como
parmetro para o que as pessoas deveriam ser.aqui e agora, caso se quisessem de
fato felizes e equnimes consigo e com os outros. Por outro. lado, fica mais
uma vez claro que a conscincia social de qualquer artista no depende da sua
ideologia, das suas crenas, das suas posies. Esta conscincia se concretiza
na linguagem que ele constri. No caso do escritor, isso se traduz no modo como
ele tenta desvendar, pela palavra, os mecanismos, ntimos ou coletivos, que
desfiguram o homem em sua liberdade. Ora denunciando, ora celebrando; agora em
jbilo, imediatamente depois atingindo as fronteiras de uma solitria
desesperana, esses textos de Ceclia esto entre os melhores momentos de
sua criao e de nossa literatura.

                   CECLIA MEIRELES

                    O QUE SE DIZ
                 E O QUE SE ENTENDE
                     (Crnicas)

               Editora Nova Fronteira


                      SUMRIO

Cotidiano, nostalgia e transcendencia 11

    O QUE SE DIZ E O QUE SE ENTENDE

Ano muito bom                         17
Carta para Andrmeda                  20
Patinao                             22
Lamento pela cidade perdida           25
Frias na Ilha do Nanja               27
A moa do Silogeu                     29
Contrabando e magia                   31
Sabis romnticos                     34
Meus "orientes"                       36
Os anjos de papel couch              39
Jantar  luz de vela                  42
Fantasmas                             44
Caligrafia potica e risonha          46
"Oi da prata e do ouro. .."           49
Descobrimento do anjo da guarda       52
Tunho antigo                          54
O que se diz e o que se entende       57
Luzes da terra e do cu               59
Antiguidades                          61
Splica por uma rvore                63
Inverno                               65
Semana Santa                          68
As vinte e duas horas                 71
Histria quase macabra                73
Lembrana de Abhay Khatau             76
A arte de no fazer nada              79
Carnaval do Rio                       82
Rabindranath,  pequeno  estudante     84
Dia de sol                            87
No creias nos teus olhos             90
Festa                                 93
Escola de bem-te-vis                  95
Centenrio de Okakura Kakuzo          98
Chegada da Primavera                  100
Querida msica                        102
Canes  de  Tagore                   105
Tdio de comprar                      107
Da gula bem temperada                 109
Os saltimbancos                       112
Jardins                               115
O tempo e os relgios                 118
Aragem do Oriente                     121
Flores da Caulinha                   124
O estranho festim                     127
A cor da inveja                       130
Oradores e ces danados               133
Figuras de  Marken                    136
Curso completo                        139
Por falarmos de ch...                142
A propsito de Vila-Lobos             144
Consideraes  acerca da goiaba       146
Trs livrinhos antigos                148
O  aniversrio de Gandhi              150
Lies de botnica                    154
Juvenal                               157
Marine Drive                          160
O  Gurudev                            163
Hora japonesa                         166
Outro Natal                           169
Conversas antigas de fim de ano       172

    COTIDIANO, NOSTALGIA
      E TRANSCENDNCIA




    Numa primeira impresso, o mundo visto por Cecilia Meireles  exemplo de
incompreenso, transtorno e desacerto. O trato humano  de dificil realizao:
o que se diz no  o que se entende; a avaliao das coisas e de nosso
comportamento se faz por parmetros no coincidentes; divergem as pessoas no
grau de sensibilizao aos matizes afetivos. Vrias crnicas deste livro
registram, s vezes sob leve ironia, a inquietao de Cecilia Meireles em face
da dificuldade de se conciliarem os mecanismos da compreenso no mundo moderno.
Na alegoria de "Os Saltimbancos", em que o fantstico do relato dramaticamente
acentua a convulso da ordem social, ou numa parbola como "Escola de Bem-te-
vis" em que a economia da linguagem,  medida que se sucedem as geraes,
atinge o extremo da usura, percebemos, sob a inquietao de um texto ou sob a
ironia de outro, o espirito do cronista sensivel aos problemas de transtorno
da ordem social e desentendimento dos homens em suas diferentes escalas de
relacionamento.
    A ruptura com o bom senso, a aderncia s coisas de um musgo nocivo que
lhes corrompe antigos valores, levam o cronista  reflexo sobre um tempo
superado, ou em mudana, em que essas mesmas coisas guardavam entre si outra
relao e os seres humanos conviviam segundo uma ordem que no excluia
impregnao afetiva. Certo saudosismo, assim, aflora da mirada retrospectiva,
acentuando a oposio presente/passado: a cidade antiga, imagem de graa e
crdialidade, s se recupera nos espelhos da memria; a esttua sobranceira
aos jardins e ao mar nos d, mesmo  vspera de sua demolio, o derradeiro
ensinamento, iluminando, com o archote que levanta nuina das mos, o mundo
sobre o qual a outra pousa, protetora. E houve um tempo em que mesmo a prtica
do comrcio envolvia, em sua comunicao amistosa, uma Iio de cordialidade e
ensinava a admirar as coisas tambm pelo lado esttico e venervel, belas e
antigas que eram.
    A confrontao entre certa instabilidade moderna e a afetividade de outrora
leva o cronista a um recuo maior no tempo, e faz aflorar na memria o instante
lirico da infncia, na qual simbolicamente se insere a imagem da bab Pedrina.
Da boca da pajem negra lhe viriam  criana no s as lies do mundo, sob
forma sincrtica de supersties, tabus e encantamentos, como a descoberta do
sistema de dualidades que rege todas as coisas: vida/morte, realidade/fantasia,
terrenal/transcendente. O espao do entendimento infantil ser magicamente
ocupado por bandas e coretos, fantasmas. bbados noturnos, e figuras que deixam
na vida da criana a marca de sua presena lirica ou afetuosa.
    A evocao nostlgica de outros instantes ou a comparao de costumes de
hoje e de ontem no abafam, entretanto, no cronista, a capacidade de apreender
fatos, circunstncias e situaes do cotidiano, alternando-se ironia e ternura
nos registros. No processo de seleo das crnicas deste livro, houve uma firme
inteno de se mostrar o interesse de Cecilia Meireles tanto pelos episdios
midos do dia-a-dia quanto pelas questes de natureza tica ou pelos problemas
que tangenciassem os limites extremos do humano. Esses episdios - experincias
vividas ou sabidas -, ora grotescos, ora densamente humanos, exemplares alguns,
outros cercsurveis, tecem a rede do cotidiano de todos ns,  qual o cronista,
por condio, no poderia estar alheio.
    Em meio ao registro de circunstncias que fazem o recheio da vida; junto 
considerao nostlgica de antigas impresses ou ao fluxo lirico do discurso,
levanta-se neste livro outra ordem de textos: a daqueles em que Cecilia
Meireles fixou a tendncia orientalistica de seu espirito, a natureza
contemplativa de seu ser e, de certo modo, a leve inquietao de
transcendncia, permanente motivo de sua vida e de sua arte. Da exaltao dessa
cultura oriental - da indiana, especialmente, com que afinava por natureza -
recolhem-se, pois, alguns textos que ho de servir como pontos de referncia no
roteiro espiritual de Cecilia: uma 'aragem' que sintetiza os seus vrios
"orientes" e se faz Iio de vida.

                                 Darcy Damasceno

    13
    ANO MUITO BOM

Certa noite de 31 de dezembro, ramos um grupo de pessoas mais ou menos
estranhas umas s outras, que vovamos juntas para a india. Nossas relaes
de conhecimento, muito vagas, datavam apenas de horas. Nossa histria comum
limitava-se  contemplao de algumas imagens inesquecveis: o Mediterrneo,
as pirmides, imensos desertos plidos, golfos que o sol coloria com tintas
orientais e, finalmente, o cu que fora to grande e parecia pouco a pouco
reduzir-se em sombra, e ficar do nosso tamanho, do tamanho das nossas pequenas
vidas ali suspensas, com seus mistrios, esperanas e medos.
    Eramos pessoas de variados lugares, viajando por variados motivos. Algumas,
imersas em leituras edificantes; outras, distradas com livros fteis. Umas
dormitavam cansadas; outras, que se aferravam ao noticirio de seus jornais,
embora esses jornais e essas notcias fossem ficando a cada instante muito mais
longe e como sem efeito para os viajantes do cu. E algumas que se entregavam
sossegadas ao seu destino, mascando esses gros e sementes com que os dentes
vo entretendo, resignados, a passagem do tempo.
    ramos tambm pessoas de sonhos aparentemente diversos: bons indianos que
regressavam, a seus lares; europeus preocupados com pesquisas de arte e
cincia; gente que ruminava negcios muito complexos; gente que refletia sobre
a maneira de tornar o Oriente e o Ocidente reciprocamente inteligveis. Havia
de tudo: como convm a uma viagem mais ou menos mitolgica. A minha rsea
vizinha americana, de sandlias douradas, quando algum Ihe perguntou o que
ia fazer por aqueles lados, respondeu com naturalidade que ia passar a noite
danando em Bombaim. E a aeromoa, com seus trajes de anjo, passava por entre
esses sonhos to desencontrados distribuindo equitativamente sementes e balas,
enquanto a rsea americana comeava a perfumar-se toda, porque Bombaim era uma
realidade cada vez mais prxima.
  O ano, porm, chegava ainda mais depressa que Bombaim. E em dado momento
soubemos todos que, malgrado as extravagncias dos relgios, era meia-noite,
entre as estrelas e o mar.
    Para os que tinham deixado sua casa no Ocidente; essa meia-noite se enchia
de repente de recordaes e saudades. Estrondos de bombas, cascatas cintilantes
de fogos de artifcio, ondas de msica, repiques de sinos, rostos amados,
cartes de Boas restas, e, em redor das ceias tradicionais, vozes antigas,
vozes recentes, vozes graves, vozes humildes, dizendo frases de amizade que na
terra, de to repetidas, parecem banais, mas, naquela altura, inesperadamente
se tornavam miraculosas, com toda a sua potncia de felicidada.
    Com pequenas alteraes, todos levvamos no corao essa velha herana
romana de doces ofertas de tmaras; figos, mel, a antigos deuses que
desejaramos eternamente propcios. Com o mesmo gesto das mos contemporneas,
entrevamos em sonho mos antiqssimas trocando presentes amistosos. E sobre
as festividades pags, o Menino Jesus, num outro plano, recebia a Circunciso.
Tudo isso levvamos conosco: incio da vida, incio das eras: uma unio total,
uma infinita alegria.
    E a aeromoa, de belssimos olhos, abria e fechava as asas do seu sri
azul servindo-nos suas pequeninas oferendas. E o comandante vinha participar
da festa, que era ao mesmo tempo de comeo e de fim.
    E de repente vimos que estvamos todos de mos dadas, e todos formulvamos
nossos votos mtuos, cada um na sua lngua, todos num idioma comum de esperana
e ternura.
    Foi assim que, entre um ano e outro, uma noite, entre o cu e a terra, o
Oriente e o Ocidente estiveram unidos simbolicamente, num fervoroso abrao.
    O dia seguinte foi belo, colorido, bizarro, como so todos os dias da
India. Mas l o ano no comea em janeiro em todos os calendrios. O primeiro
dia do ano lunar, o Gudi Parwa,  na primavera. H grandes festas, e quem
mastigar folhas de nim, nesse dia, ter sade o ano inteiro. Mas a coisa mais
bela  que nesse dia ningum pode falar com violncia e so proibidas todas as
manifestaes de clera. Ano bom, verdadeiramente! Quem o pudesse conservar
assim, recomeando-o do mesmo modo todos os dias!

    19
    CARTA PARA ANDRMEDA


Acabo de ouvir que na via-lctea, prximo a Andrmeda, ou nessa mesma nebulosa,
existe um povo sobrenatural que deseja ardentemente entrar em comunicao com
os habitantes da Terra. Esse povo  dotado de uma civilizao adiantadssima,
e v (e compreende e perdoa, naturalmente) o que estamos fazendo, neste triste
cho, ns, subdesenvolvidos mortais. No  preciso, pois, mandar contar para
Andrmeda o que vamos curtindo neste mundo, no s por sermos os pobres mortais
que somos, mas sobretudo por nos estarmos tornando muito piores do que devamos
ser. Tudo isso de Andrmeda  limpidamente visvel: de l, somos vistos como
uns pequenos monstros, por essas gaiolas de vidro dos arranha-cus.
Desconfio mesmo que sejamos vistos tambm por dentro, malgrado as vidraas
opacas dos nossos corpos. E os habitantes da via-lctea, magnnimos como
certamente saio, devem sentir tanta pena de ns, como ns devamos sentir
vergonha, ante os seus olhos, ou a sua sensibilidade, ou os meios de que dispem
para nos perceberem de to longe. (Creio que muitos sculos-luz.)
    Ora, eu queria escrever esta carta para Andrmeda, embora, na sua
sabedoria, esse povo seja capaz de surpreender todas as intenes nossas,
porque a Terra  to grande, e eu sou to pequena que  natural que os de
Andrmeda estejam mais interessados nos condutores do mundo, nos chefes, nos
poderosos, e no nos cronistas como ns..
    O que eu queria dizer aos de Andrmeda  que passo a dirigir toda a minha
ateno aos seus apelos, que acredito na possibilidade do sobrenatural, que no
me resigno a esta presente condio humana, que peo todo o auxlio desses
anjos da via-lctea para que nos venham salvar, como Perseu, um dia, salvou
aquela que, exposta a um monstro marinho, teve afinal seu nome escrito nesses
caminhos brancos do cu.
    Por serem mais perfeitos que ns, os de Andrmeda devem estar mais
prximos de Deus. E estamos com tamanha falta de Deus, e tanta dificuldade de
encontr-lo que os de Andrmeda devem procurar chegar imediatamente a todos
ns, seno em veculos espaciais, em veculos espirituais e invisveis, que
cheguem a cada um em particular e acordem o que anda existe de divino neste
caos em que a humanidade foi precipitada.
    Entre a beleza de sua me, Cassiopia, e a coragem de seu esposo, Perseu,
Andrmeda  um smbolo de salvao do martrio.  vs, os de Andrmeda, vede
como estamos sendo martirizados por estes sculos duros, por estes sculos
impiedosos, em que a cincia e a riqueza no podem lutar contra a ferocidade!
Apressai-vos, que vos necessitamos muito! Trazei-nos o vosso exemplo, a vossa
inspirao, dai um estmulo aos que se inclinam para a decadncia, e redobrai
a fora dos que no se querem abandonar a um destino inferior ao do homem!
Povos da via-lctea, tende pena dos que ficaram neste mundo perpetuando as
atrocidades dos velhos mitos!

    21
    PATINAO


O  admirvel no  apenas que as roupas sejam to belas, que os movimentos se
desenvolvam com tanta harmonia: o admirvel, principalmente,  que tudo isso
deslize sobre patins. As figuras vm de longe, velozmente, mas numa velocidade
suave, silenciosa e feliz. Devamos andar assim no mundo. Nossos trajetos
deviam cruzar-se desse modo: sem choques nem pausas, com um desenho de
cortesias que se entrelaam delicadamente. E vem a ser justamente a mais
adequada ao conjunto, como se a submisso  lei no lhe diminusse o valor
prprio mas, ao contrrio, o salientasse e lhe revelasse imprevistos aspectos.
    Alguma coisa fugidia, apaixonada de distncia e mistrio existe no nosso
corao, pela delcia que nos causam os movimentos dos patinadores retirando-se
implacvel e sutilmente, como um som que gradativamente se apaga, uma estrela
que, inexorvel, desaparece. Os patinadores vo sendo levados, num tempo mais
profundo que o do seu bailado, absorvidos pelo m do horizonte, inalcanveis
e ntegros como deuses.
    Alguma coisa tambm deve existir em ns atrada pela resposta do eco,
ansiosa de repercusses e espelhos, para nos encantarmos com os patinadores
que se acercam e reconhecem e combinam seus abraos com esse perfeito ritmo
em que confundem e recuperam sua unidade, aproximando-se e separando-se, livres
e prisioneiros, deixando que se cumpra com rigor e graa a parbola de seus
encontros e desencontros.
    Pensa-se gue isto  uma distrao frvola, e est-se diante da verdade do
mundo, iluminado de outro modo, com algumas pessoas interpretando esta vida de
cada dia, apenas alegoricamente.
    Alguma coisa deve existir em ns que se recusa a andar levitando entre as
douradas estrelas: que ainda no se desprendeu totalmente da selva, da burla,
do rido ensinamento do cho. Porque deste modo nos regozijamos com as presenas
grotescas, e as formas inseguxas, e o medo e o risco, a aventura talvez inbil
do gesto incerto... Pode ser que no sejamos sempre desmesuradamente lricos:
um prosasmo pesado, espesso, talvez compense em banalidades rasteiras o mpeto
com que, outras vezes, nos atiramos a altas e inquietantes expedies. . .
    Mas  tudo sobre patins, num abrir e fechar de olhos, sem que mais nada nos
detenha, porque j partimos, seguimos, continuamos, estamos sendo levados, pela
nossa vontade e pela fatalidade deste escorregar por uma superfcie gelada.
    Alguma coisa em ns deseja a solido, a companhia da prpria sombra,
apenas, para assim nos emocionarmos com o danarino isolado que se debrua
para o seu reflexo, que em si mesmo se encontra, seus ps unidos
perpendicularmente a seus ps, e assim vai, e volta, e no volta, fazendo o seu
caminho no vazio, inventando um itinerrio e uma direo.
    Mas alguma coisa nos atrai para o convvio e o colquio, pois assim nos
alegramos com a multido festiva que se rene e desdobra numa infinita
coreografia, toda cintilante e entusistica, depois de tantas provas
acrobticas, de tantas evolues e tantos e to variados arabescos.
    Sobre patins. Com essa rapidez que desejaramos ter, que o nosso
pensamento, o nosso corao desejam, e este nosso corpo fatigado no consegue
possuir. Sobre patins. Num mundo sem esquinas, sem acidentes, comtis spaos
oferecendo-se  nossa passagem, e todos ns, cordiais e puros, realizando em
sua plenitude o ideograma da nossa vida na clara pgina da existncia. Sobre
patins. Com a disciplina fluida de cada instante, de horizonte a horizonte,
sem erro, temor nem desfalecimento!

    24
    LAMENTO PELA CIDADE PERDIDA


Minha querida cidade, que te aconteceu, que j no te reconheo? Procuro-te em
todas as tuas estenses e no te encontro. Para ver-te, preciso alcanar os
espelhos da memria. Da saudade. E ento sinto que deixaste de ser, que ests
perdida.
    Ah! cidade querida, edificada entre gua e montanha, com tuas matas ainda
repletas de pssaros; com teus bairros cercados de jardins e pianos; com tuas
casas sobrevoadas por pombos, eras o exemplo da beleza simples e gentil. De
janela a janela, cumprimentavam-se os vizinhos; os vendedores, pelas ruas,
passavam a cantar ; as crianas eram felizes em seus quintais, entre as
grandes rvores; tudo eram cortesias, pelas caladas, pelos bondes, ao entrar
uma porta, ao sentar a uma mesa.
    Bons tempos, minha querida cidade, em que ramos pobres e amveis! Sabamos
ser alegres, mas no tanto que ofendssemos os tristes; e em nossa tristeza
havia suavidade, porque ramos pacientes e compreensivos. Acreditvamos nos
valores do esprito: e neles fundvamos a nossa grandeza e o nosso respeito.
Mesmo quando no tnhamos muito, sabamos partilhar o que tivssemos com amor
e delicadeza. Passvamos pelo povo mais hospitaleiro do mundo, mas esquecamos
a fama, para no nos envaidecermos com ela.
    Ah! cidade querida, tinhas festas realmente festivas, com sinos e foguetes,
procisses e prstitos, comidas e doces tradicionais. Continuvamos o passado,
embora caminhando para o futuro. Tnhamos carinho pela nossa bagagem de
lembranas, pela experincia dos nossos mortos, que desejvamos honrar.
Prezvamos tanto os nossos avs como desejvamos que viessem a ser prezados os
nossos filhos. ramos elos de uma corrente que no queramos, de modo algum,
obscurecer. ramos modestos e cordiais, sensveis e discretos.
    E eis que tudo isso, que era a tua virtude e o teu encanto, desapareceu de
sbito, porque uma ambio de grandeza e riqueza toldou a tua beleza tranqila.
Como resistiriam os pssaros e as flores aos teus agressivos muros de cimento
armado? E os jovens, bruscamente desorientados? Ah! no se pensou nisso...
    E assim, minha querida cidade, a juventude tem perdido a generosidade, a
maturidade tem  esquecido sua prudncia, e a velhice sua sabedoria: todos aqui
tm ficado menores, e meio pobres,  medida que aumentam a tua riqueza e a tua
grandeza. E ento eu me pergunto que grandeza, que riqueza so essas que fazem
diminuir e empobrecer os teus habitantes. Que fundamento funesto existe nessa
riqueza e nessa grandeza que,  sua sombra, os homens se tornam mesquinhos,
perversos, ardilosos de pensamento e ferozes de corao.
    Ah! cidade querida, bem sei que tudo isto foi feito por aqueles que no
te amaram: os que no te entenderam nem protegeram. Mas, prisioneira agora de
tantas emboscadas - poderemos ainda salvar-te? arrancar-te s falsidades em que
te enredaram? restituir-te o antigo rosto, simples e natural, onde beleza e
bondade se confundiam? Poderemos tornar a ver-te, cordial e afetuosa como
foste, sem pecados e crimes em cada esquina - sem este peso de egosmo e
vaidade, de cobia e de dio que hoje toldam e enegrecem a tua verdadeira
imagem?

    26
    FRIAS NA ILHA DO NANJA


Meus amigos esto fazendo as malas, arrumando as malas nos seus carros, olhando
o cu para verem que tempo faz, pensando nas suas estradas - barreiras, pedras
soltas, fissuras - sem falar em bandidos, milhes de bandidos entre as
fissuras, as pedras soltas e as barreiras... Meus amigos partem para as suas
frias, cansados de tanto trabalho; de tanta chuva e tanto sol; de tantas
notcias ruins; de tantos colegas, chefes e  subalternos incompetentes;
de tanta luta com os motoristas da contramo; de tanta esperana, de tantas
decepes; enfim, cansados, cansados de serem obrigados a viver, numa grande
cidade, isto que j est sendo a negao da prpria vida.
    Pois meus amigos l se vo, de camisa nova, muito cuidadosos e escanhoados,
fazendo todos os sinais possveis e adequados para no receberem nenhuma
pancada que detenha o seu plano de viagem antes do primeiro cruzamento.
    E eu vou para a Ilha do Nanja.
    Termas? Pois as termas so ao ar livre, com emanaes vulcnicas a subirem
do cho por mil furinhos invisveis, enquanto se ouve a grossa voz do fogo
subterrneo contar histrias do princpio do mundo. O ar est cheio de nuvens
sulfurosas; e as crianas brincam de fazer comida nas pocinhas do cho. onde a
gua ferve.
    Sossego? A beira das lagoas verds e azuis, o silncio cresce como um
bosque. Pelos caminhos, passam carros de bois, carros de vime, como cestos
enormes; o carreiro vai andando tranqilamente, como em sonho, ao lento ritmo
dos animais: -  - um desenho - cissico bojo da tarde lmpida.
    Poesia? As moas cantam em seus teares, em suas casas de pedra; danam e
cantam nos terreiros e ptios, danas e cantigas de outras pocas, sem saberem
que aquilo se chama folclore. Os homens tocam e cantam pelas ruas, em dias de
festa; e em dias de festa as ruas so atapetadas de flores por onde passam
procisses que cantam.
    A Ilha do Nanja amanhece toda azul com sol claro e passarinhos no ar; de
repente, tudo desaparece, uma nvoa cinzenta envolve montes e praias; saltam
gotas de chuva por todos os lados, como um sbito brinquedo de cristal. A nvoa
j no existe. Existem nuvens brancas cobrindo e descobrindo o sol. Ento, vem
o vento, desce das nuvens, passa pelas rvores, sobe para as nuvens, e nesses
jogos se passa o dia inteiro: no h maior distrao, na Ilha do Nanja, que
contemplar as inconstncias do cu.
    Eu vou para a Ilha do Nanja para sair daqui. Passarei as frias l. Nem
preciso fechar os olhos: j estou vendo os pescadores com suas barcas de
sardinhas, e a moa  janela a namorar um moo na outra janela de outra ilha!

    28
    A MOA DO SILOGEU


Quando os senhores passarem ali pelo Passeio Pblico, no deixem de olhar -
a certa distncia - para o alto do Silogeu, e de dizer adeus  moa que ainda
est sentada l em cima, protegendo com a mo esquerda o globo terrestre, e
levantando, na direita, uma pequena chama - que parece uma rosa.
    Enquanto Teixeira de Freitas recolhe em sua toga o vento que vem das guas
e Deodoro sada o horizonte republicanamente, a moa do Silogeu espera que a
retirem dali, que a derrubem, que a destruam! - e  por isso que os senhores
lhe devem dizer adeus, com a possvel ternura.
    Sua casa era aquela, de uma cor violeta, que o sol s vezes tornava rsea,
que a sombra s vezes tornava azul. Nessa manso tornassolada, de arquitetura
tranqila e maternal, reuniram-se academias, institutos, pessoas ilustres,
dedicadas aos mais nobres estudos literarios e cientficos: que outro nome lhe
podiam dar seno o de Silogeu?
    E ento, no alto, puseram aquela moa, com a mo esquerda sobre o mundo e
a direita segurando um archote: uma pequena chama, que parece uma rosa.
    A princpio, ela avistava apenas o mar, as montanhas, a copa das rvores.
(Issa foi h cerca de meio sculo.) Depois, a praia foi mudando de aspecto,
surgiram construes novas, esttuas, monumentos. E uma grande velocidade se
desenvolveu pelas ruas em redor. A moa, porm, continuava, acima de todas as
mudanas, a proteger a imagem do mundo com uma das mos e a ilumin-lo com a
outra.
    Mas, como os senhores podem ver, a manso tornassolada j no  mais
violeta nem azul nem cor-de-rosa...  uma triste runa cinzenta, toda
escoriada, em frente ao jardinzinho de Dom Lus de Vasconcelos, que podia ser
o mais belo recanto de sonho, no corao da cidade!
    A moa do Silogeu, com sua atitude de rainha protetora das letras e das
cincias, vai desaparecer qualquer dia, na derrubada iminente, sem carro de
triunfo que a arrebate pelas nuvens, sem fitas desnastradas que espalhem pelos
ares mensagens to gentis como as das pirmides do jardim vizinho: "Saudade do
Rio!" "Amor do Pblico! ".
    No, a moa do Silogeu vai desaparecer obscuramente, com seu mundo e sua
chama - que parece uma rosa. E tudo ser poeira, e ningum pensar na alegoria
que ali esteve presente, por tanto tempo, e na moa que, sem falar, dizia com
o seu gesto: Coragem! F! Perseverana! e fazia crer num mundo iluminado pelas
letras e pelas cincias.
    Quando os  senhores passarem por ali, digam adeus  moa! Digam-lhe adeus
com a possvel ternura. E guardem no fundo dos olhos e do corao a sua imagem.
(A mo esquerda pousava no mundo e a direita levantava uma luz.) Digam adeus 
moa do Silogeu! Pensem naquele mundo. Pensem naquela chama - to discreta, que
parecia apenas uma rosa.

    30
    CONTRABANDO E MAGIA


A alfndega mais sugestiva do mundo  essa cidade de Trs-os-Montes que se
chama Alfndega-da-F, nome que pode inspirar ao viajante imaginativo
aventuras sobrenaturais, com anjos e demnios a verificarem nas suas balanas,
lindamente aferidas, a alma de cada um, como em auto de Gil Vicente. J andei
perto, mas nunca tive a sorte de passar por essa cidade: fica-me sempre no
mapa e nas setas da sinalizao - e no entanto ela  que certamente me
consolaria dos desgostos que me tm causado (com duas ou, trs excees)
essas alfndegas realmente alfndegas, no s no nome, mas em funo, que cada
pas coloca nos lugares que Ihes parecem mais adequados e com as quais, alm da
finalidade a que se destinam, conseguem alcanar outra: a irritao do viajante
honesto submetido a seus sdicos rigores.
    Parece-me, s vezes, que esses senhores que ofendem as nossas malas e as
nossas pessoas com a sua deconfiana - e alguns com seu sarcasmo - devem ser
escolhidos em concursos de grande interesse pblico, assim como os concursos
de beleza, graa, elegncia, inteligncia, que hoje consagram por toda parte
donas e donzelas favorecidas pela natureza e pela educao. Mas, evidentemente,
concursos s avessas. Deve haver um acordo internacional, nesse sentido, para
eleger as caras mais selvagens, com mais sobrancelhas e narinas mais
resfolegantes, e mos mais bruscas, de unhas mais ameaadoras. Ns, ignorantes,
no o sabemos. Mas verificamo-lo  nossa custa.
    Tenho encontrado alfndegas que me desarrumam as malas,  procura de qu?
Pois de caf, de acar, de cigarros, de arroz... Enfim, sente-se uma pessoa,
sem mais nem menos, confundida com os senhores comerciantes, em geral muito
honrados, desta praa ou de qualquer outra - o que no  (longe de ns!)
nenhuma diminuio, quanto  atividade em si, malgrado alguns mtodos e
tcnicas de tal atividade no se coadunarem propriamente com a vocao de
qualquer viajante.
    Estuda-se nos tratados a arte de arrumar as roupas em camadas, e depois de
tudo muito bem disposto nos seus respectivos lugares, lugares exclusivos e
intransferveis, com seu catlogo e cdigo, o Crbero aparece, vido de
contrabandos, desloca toda aquela paciente obra-prima,  procura de qualquer
dos itens referidos, e at de outros, que desconhecemos, mas que lhe podem
ocorrer, em privilegiada inspirao. Se depois a mala no se ajusta, o fecho
enguia, no se pode dar volta  chave, se alguma coisa fica torta ou quebrada,
com a pressa do exame, como se vai responsabilizar aquele malfeitor, brutal
intrprete da lei?
    Certa vez, indo dar (por inocncia) um curso de folclore no estrangeiro, e
como levasse alguns discos para ilustr-lo, fui solicitada, entre muitos lpis,
carimbos e olhares de raio-X a traduzir para a lngua local (traduzir mesmo,
no explicar, apenas) palavras como "batuque", "cateret", "jongo", etc...
(Desta vez, achei absolutamente intil dar qualquer curso sobre qualquer
assunto em qualquer lugar.)
    Mas, tempos depois, encontrei um Crbero eruditd e irnico. No queria
revolver todas as minhas malas, oh, no. Com um gesto circense, apontou apenas
uma delas. Somente aquela! (E exultava!) Queria saber se eu levava... barras
de ouro! Porque o Brasil, explicou-me,  o pas das minas. Logo,
silogisticamente... (Por onde vi que o Brasil est com duzentos anos de atraso
nas informaes aduaneiras. E pareceu-me necessrio dar imediatamente, no
estrangeiro, todos os cursos sobre os nossos assuntos.)
    Houve outro que no me mexeu nas malas. Esse tinha mais confiana no seu
faro. Fitou-me com olhos hipnticos, e levantando na mo um objeto que parecia
um simples lpis mas devia ser um radar, perguntou-me com voz hiertica: "No
leva nenhum quadro clebre?" (Enfim, essa pergunta me agradou mais. J no se
tratava de feijo nem lombo. E o homem no me desarrumava a roupa. Pode ser
at que estivesse brincando.. As criaturas so to misteriosas...)
    Mas quando leio nos jornais que h contrabandos de bebidas, de aparelhos
de rdio, de ar condicionado, de... - que sei eu! - fico muito impressionada.
Porque  difcil confundir uma camisa com uma caixa de metal, e esses objetos
grandes - e grandiosos - no cabem nem se agentam nessas pobres malas que
com qualquer pequeno choque logo se recusam a funcionar. Bem sei que h malas
de todas as grandezas. Mas quanto maiores mais se vem. A no ser que se trate
de processo mgico de narcotizar o Crbero, ou de tornar invisveis as coisas,
ou de desincorpor-las do lado de c da alfndega e reincorpor-las do lado de
l - processo muito antigo e bem exposto em qualquer manual prtico de
feitiaria. Talvez seja preciso estudar melhor a situao atual dos bruxos,
organizar um congresso para debater o assunto, criar, talvez, um departamento
especializado...

    33
    SABIS ROMNTICOS


Se eu disser que o ms de agosto chega no bico dos sabis - quem me vai
entender? Quem me vai entender, se eu disser que entre as nvoas da manh,
sabis invisiveis - nas mangueiras? nos ips? - anunciam o cu azul e o dia
mesmo? Ningum sabe mais o nome das aves. As aves desapareceram com as muralhas
de cimento armado, com os fios que cruzam os ares, com a fumaa e os rudos da
cidade hostil.
    s velhos cronistas que viram uma terra diferente, puderam anotar com
minuciosas palavras: "... criam-se em rvores baixas, em ninhos, outros
pssaros, a que o gentio chama sabi-oca, que so todos aleonados, muito
formosos, os quais cantam muito bem ... " O ouvido do segundo cronista era
mais apurado - e ele escrevia: "Outro pssaro se acha, chamado sabi, da
feio do melro de Espanha - e antes cuido que  o prprio, porque canta como
eles, sem lhe  faltar mais que um dobrete..: " Um terceiro cronista
opinava:"... sabis que chamam "das praias", por andarem smpre nas ribanceiras
(onde s cantam), mais que todos suaves."
    No me lembro de ter ouvido esses cantos "mais que todos suaves" entre os
versos do sculo XVIII. Nesse tempo, andavam os poetas ainda muito lembrados
dos rouxinis europeus, e a paisagem brasileira facilmente se confundia com os
bosques da Arcdia.
    Foi preciso que viessem os romnticos, j num Brasil independente, para
que, na culta Coiznbra, uma voz recordasse os bosques e as vrzeas da ptria
distanter e escrevesse a "Cano do Exlio":
    "Minha terra tem palmeiras
     onde canta o sbi..."
    Os jovens poetas que se seguiram, todos se lembraram do pssaro de voz
suave:
    " um pas majestoso
     Essa terra de Tup,
     Desd' o Amazonas ao Prata
     Do Rio Grande ao Par!
     - Tem serranias gigantes
     E tem bosques verdejantes
     Que repetem incessantes
     Os cantos do sabi!"
    O sabi sugeria vozes de anjos mortos, de almas errantes, de gnios da
tarde. ("So os sabis que cantam /Nas mangueiras do pomar...")
    Chamavam-no "formoso","sonoro","poeta da solido"... Chamaram-no mesmo
"alado Anacreonte"...
    Isso foi num tempo de manses, varandas, laranjeiras, mangueiras, quando
os poetas conversvam com donzelas lricas e muito frgeis, que lhes diziam:
"Nunca mais eu virei, risonh e louca/Roubar o ninho ao sabi choroso"...
(Falavam assim, as moas de ento!)
    Agora vem agosto, nas asas dos sabis suaves. E eu penso nos velhos
cronistas que os descreveram e nos poetas que prestaram ateno ao seu canto:
um Gonalves Dias, um Bernardo Guimares, um Casirniro de Abreu, um Fagundes
Varela, um Castro Alves:... E  como se estivessem comigo, esses poetas, para
ouvir, entre mangueiras e ips, os "chorosos sabis".

    36
    MEUS "ORIENTES"


O Oriente tem sido uma paixo constante na minha vida: no, porm, pelo seu
chamado "exotismo" - que  atrao e curiosidade de turistas - mas pela sua
profundidade potica, que  uma outra maneira de ser da sabedoria. Como se
cristalizou em mim esse sentimento de admirao emocionada por esses povos
distantes, no  fcil de explicar em poucas linhas. Mas foi uma cristalizao
muito lenta, dos primeiros tempos da infncia. E lembro-me nitidamente desses
antigos encontros, que me deixavam to pensativa e interessada, antes que eu
pudesse adivinhar, sequer, a sua significao.
    Minha Av, que falava uma linguagem camoniana, costumava dizer, em certas
oportunidades: "Cata, cata, que  viagem da India!" Eu ainda no sabia do
sentido nutico do verbo "catar": mas parecia-me que, com aquele estribilho,
tudo andava mais depressa, como para uma urgente partida.
    Eu ainda nem sabia ler, e a bab Pedrina mostrava-me as figuras dos livros.
Foi assim que conheci o touro alado dos assrios; e durante muito tempo aquele
poderoso animal com face humana habitou a minha imaginao infantil, mais
sugestivo e misterioso que os prncipes e princesas das histrias de fadas.
    Havia tambm a cozinheira com a velha bandeja decharo para as compras do
quitandeiro. Ela me explicava  sua moda aqueles pavilhes, aqueles barcos
dourados, aquelas figurinhas j meio desfeitas pelo tempo... E no dia em que,
diante dos cestos do quitandeiro eu a ouvi pronunciar a palavra "quingomb",
que era como chamava ao quiabo, instalou-se na minha fantasia a idia que
aquilo devia ser chins: que assim deviam falar as pessoas representadas na
antiga bandeja de charo.
    A bab Pedrina sabia muito do Oriente, de tanto fazer ch, cujas folhas
vinham numa caixa maravilhosa da India ou da China. Ela tratava tambm de uns
pobres restos de louas, sobreviventes a muitas catstrofes domsticas, e
contava-me histrias que iam sendo ilustradas pelas pontes, pelos pagodes,
pelas rvores azuis pintados nos pratos e nas xcaras. Mas as suas intuies
orientais se concentravam numa cano que me parece andava na moda, por aquele
tempo, e que comeava assim: "No s tu quem eu amo, no s! Nem Teresa,/ nem
mesmo Ciprina,/nem Nlercedes, a loura, nem mesmo/a travessa, gentil
Valentina..." A cantiga continuava com a descrio da mulher amada: "Quem eu
amo, te digo, est longe,/l nas terras do imprio chins,/num palcio de
loua vermelha,/sob um teto de azul japons."
    Essa mistura da China com o Japo acrescentava indizvel mistrio 
lnguida cano. Mas a mim o que verdadeiramente me encantava era poder-se
habitar um "palcio de loua vermelha", moradia que se me afigurava
extremamente aprazvel, pela beleza da cor, pela frescura e sonoridade da
loua.
    Eu tambm gostaria de morar numa habitao dessas. E foi por isso que
tentei entrar num jarro, semelhante, no meu sonho, ao palcio da cantiga, e
foi por isso que, para salvar o jarro da sua pequena inquilina, o puseram num
lugar to acautelado, to inacessvel, to escondido, que um cabide caiu por
cima dele e o desbeiou.
    Esses foram os meus "orientes" mais remotos, enfeitados por algumas sedas
estampadas com a palma indiana - motivo que perdura nos mais modernos tecidos
- e por uma infinidade de mveis de junco, de aparelhos de ch, de bibels que
se acumulavam nas casas das pessoas amigas, e que iam de suntuosas esculturas
em marfim a pequenos objetos de papel colorido. As senhoras usavam quimonos,
as mocinhas se abanavam com ventarolas de seda, leques de marfim rendado,
comia-se tanto arroz, tantas "fatias chinesas", falava-se de tanto cetim de
Macau e de outras fazendas orientais que era como se as naus dos bisavs
continuassem a trafegar por esses mares, e delas recebssemos diretamente a
canela e o cravo dos nossos doces de cada dia.
    Uma velhota; que chamavam de "turca", ia pedir  minha Av folhas de
videira para fazer sua comida; e o mascate que vendia de porta em porta
alfinetes e pentes, rendas de linho e fitas, sabonetes e cosmticos,
conversava; na sua lngua atravessada, sobre coisas de sua terra, a mais bela
terra do mundo ...
    Havia as noites de febre. E ento minha Av comeava a contar-me a histria
da princesinha que tinha uma estrela de ouro na testa. A histria nunca foi
alm do ttulo, j por si to lindo que comeava por me fazer sonhar, e logo
me fazia dormir. E no dia em que me encontrei, na India, com tantas moas
maravilhosas, tendo na testa aquele sinal que foi indicao de casta e hoje 
simples adorno, sinal que pode ser de tinta vermelha ou de diamante, percebi
que eram aquelas as minhas antigas princesinhas, que eu ia encontrar to longe,
quando o Oriente se abriu, claro e amorvel,
sobre os meus remotos "orientes".

    38
    OS ANJOS DE PAPEL COUCH


Quando os olhos se abrem sobre estas mansas meninas dos hospitais, tem-se
vontade de exclamar: "Oh! os anjos de papel couch!..." - vendo-as to alvas
e reluzentes, to aladas e fora dos assuntos terrenos. Mas no seria prudente
uma exclamao assim: pois quanto a anjos elas esto muito bem-informadas,
conhecem-nos pelos seus nomes, certamente passeiam com eles de brao dado; mas
papel couch  coisa de que jamais ouviram falar, e poderiam achar depreciativa
tal citao. No devemos, de forma alguma, deixar pairar a sombra da mais leve
suspeita de ofensa sobre as mansas meninas dos hospitais. Pois, na verdade,
elas no so apenas encantadoras, mas mesmo sobrenaturais: sem rumor de passos,
vo e vm, atravessam as paredes, suspendem no ar, graciosamente, baldes e
vassouras, bandejas e lenis como se tudo fossem ramos de flores.
    A essas meninas nada se deve perguntar: nem como se chamam, nem que horas
so, nem se chove ou faz bom tempo, porque elas no existem para responder a
tais coisas. Sua existncia transcorre em outros planos: seus espanadores e
vassouras limpam as estrelas; as nuvens, asas de pssaros que ns no
avistamos. No se pode dizer que transportem nada nas mos: tudo  muito
improvvel, em relao a essas reluzentes meninas. Elas andam assim soltas como
plumas, simbolicamente: no para fazerem coisas concretas e objetivas, mas para
recordarem aos olhos vagos dos doentes que h um mundo material onde essas
coisas tm seu peso e seu valor, pois a tendncia dos doentes  irem ficando
muito mais irreais do que elas, e aproveitarem o descanso dos lentos dias para
serem puro sonho, por mapas sobrenaturais. Esses anjos de papel couch esvoaam
como folhas brancas e nelas podemos ir mentalmente escrevendo recordaes,
imagens amadas, pensamentos que a solido sugere, versos que algum dia lemos,
desenhos remotos de cenas que poderiam ter um dia existido. Mas as meninas
jamais desconfiariam dessas imaginaes que as podem cercar e enlaar to
sutilmente, acrescentando outros smbolos aos seus smbolos. Flutuam annimas,
dissolvem-se, evaporam-se, voam das varandas, alongam nas mos misteriosas
remdios que oferecem sem rumor, como flores gotejando orvalhos.
    As vezes, dir-se-ia que sorriem, mas deve ser engano da nossa parte: elas
no tm razo nenhuma para sorrir, elas esto alheias ao sofrimento e 
felicidade, pairam sobre essas iluses humanas, equilibradas nessa eqidistante
indiferena com que circulam as distantes maravilhas do universo.
    Poder-se-ia pensar que, por vezes, nos amassem, que se comovessem com a
nossa docilidade e a nossa obedincia, to entregues que ficamos  sua
contemplao, to confiantes no poder musical do seu giro todo branco, pelas
paredes azuis, pelos ares luminosos, pelas noites imveis. Mas, certamente, 
puro engano da nossa parte, tambm. O mundo do amor  do outro lado destes
muros: l onde as criaturas inventaram dependncias, coerncias, conseqncias.
E aqui tudo  livre, de uma total fluidez, sem princpio nem fim, sem
sobressaltos passados ou futuros, tudo est fora dessas leis da gravidade que
apegam o homem ao mundo e aos seus inmeros elementos.
    Assim, os anjos de papel couch, em cujas brilhantes asas vamos imprimindo
tantas lembranas e sentimentos, no conservam nada disso permanentemente em
sua lustrosa brancura.
    Todas essas coisas que ns supomos grandiosas caem como um tnue plen, 
dispersam-se pelas solides que reinam entre o que somos e o que no somos, 
perdem-se no silncio que fecha em suas abbadas eternas a efmera paisagem 
das noites e dos dias.
    Os anjos de papel couch deslizam com suas bandejas, seus espanadores, 
seus medicamentos como as estrelas no seu curso: prximos, distantes, sem 
saberem quem somos e sem que saibamos quem sejam...

    41
    JANTAR  LUZ DE VELA


A luz das velas  cheia de delicadezas. O adamascado das toalhas 
transfigura-se em brocado precioso; qualquer pequeno desenho dos talheres ou  
dos cristais adquire primores novos: a mesa resplandece, concentrada no halo 
dessa claridade ao mesmo tempo intensa e discreta, simples e sobrenatural.
     ento que se pode verdadeiramente ver o que h de veludo nas rosas, e de 
semeaduras e searas na crosta dourada do po. Caminhos brancos de seda e 
quartzo se abrem nos peixes, desfolhados como malmequeres. Festas muito 
antigas  estacionam  espelhadas nos claros vinhos.
    As mos passam a ter outro sentido, com suas cores e suas linhas,  luz 
das velas, muito macia, porm maravilhosamente exata. As unhas rseas desmaiam, 
com suas meias-luas alvas, e os gestos e as suas sombras tm outra eloqncia, 
imperceptvel ao claro das grandes lmpadas. Qualquer pequena jia desabrocha 
sua riqueza oculta: o ouro  muita mais lmpido e os sons da prata parecem no 
apenas audveis, mas visveis.
    E os rostos deixam de ser umas mscaras: seus contornos autnticos 
apresentam modelaes de cera e transparncias de alabastro. A luz das velas 
insinua-se com muita suavidade pelo desenho dos lbios, pela curva das narinas, 
passa pelas pestanas, fio a fio, para, enfim, descansar nos olhos, pequenos 
mares convexos, lquidos e mveis como se fossem mesmo um aglomerado de 
lgrimas. E avista-se o horizonte das  almas.
    Louras, negras, prateadas, esfumam-se as cabeas, fora do halo das velas.  
Palavras e sorrisos vm de jardins submarinos, com arbustos de coral, som de 
gua, lembranas de prolas. As paredes esto muita longe; no fim do mundo.
    A pequena chama ondulante mostra o que raramente se v: as voltas que do 
os fios, na inveno das rendas; a textura das sedas e dos linhos; a irisao 
do ncar dos botes. Nas uvas translcidas, descobrem-se tnues fibras, em 
torno das sementes baas, como nublosas pupilas.
    A luz da vela vai descendo verticalmente, imperceptivelmente: silenciosa e 
morna. Parece uma pequenina pluma, azul, negra e dourada. E na noite redonda 
de cada xcara de caf, reflete-se como lua minscula, incerta, oscilante, 
fragmentada. At que dessa luz e de sua lmpida coluna reste apenas um pouco 
de pavio; um pedacinho de carvo cado na cera quente, como um inseto afogado.

    43
    FANTASMAS


No tempo da bab Pedrina, havia tantos fantasmas que at as crianas, mesmo
sem os verem, sabiam como eram e por onde andavam. Andavam pelos pores, pelos
corredores, pelos stos, atravessavam certos quintais, paravam pelas
encruzilhadas. Havia fantasmas de escravos e de seus antigos donos em tal
abundncia que se faziam mais dignos de louvores os velhos abolicionistas: que
enorme quantidade de fantasmas produzira a escravido!
    Mas, terminado o cativeiro, no terminaram os fantasmas - talvez menos
sofredores, menos desesperados, menos vingativos, agora: monarquistas,
republicanos, conselheiros, oradores misturados a toda casta de ofcios e de
todos os nveis sociais. H quem negue os fantasmas: mas entre a negao e a
inexistncia de coisas, fenmenos ou fatos h uma distncia considervel. E
talvez o nmero dos que os negam seja inferior ao dos que os afirmam.
    Outro dia, li nos jornais que uns fantasmas, em So Paulo, mudavam de
lugar os objetos de uma casa, traziam a cafeteira do fogo para a mesa,
espalhavam os mantimentos da despensa, enfim, desarrumavam, quanto encontravam
e parece que tudo isso foi testemunhado por jornalistas, que costumam ser
espritos fortes, de tanto lidarem com os mais estranhos acontecimentos, todos
os dias.
    Este meu bairro das Laranjeiras parece ter sido outrora muito povoado de
fantasmas, especialmente a Ladeira do Ascurra, segundo nos informa o caro
Vieira Fazenda, que tanto se interessou por esta nossa querida cidade.
    H pouco tempo, soube que os sentinelas do Monumento aos Pracinhas, em
lugar to moderno e arejado, tinham ouvido vozes estranhas, em redor de si:
mas procurou-se explicar que seria o vento batendo ali, e tudo foi vento e
nada mais, como no poema de Edgar Poe.
    Na Inglaterra, os fantasmas no causam tanta estranheza: creio que existem
por toda parte, e so extremamente intelectualizados. No existe um que
escreve peas teatrais, e se acha to identificado com a senhora que o recebe
que esta, com exemplar comportamento, se separou de seu marido por se sentir
mais casada com o seu fantasma?
    No h, na Inglaterra, casas onde se pode ouvir boa msica, sem haver
dentro delas instrumento de espcie alguma? Dizem-me que os fantasmas ingleses
at se deixam  fotografar!
    No falo destas coisas por brincadeira: ao contrrio, elas me inspiram
curiosidade e respeito. Se ns no sabemos nem o que se passa em nossa prpria
casa, do outro lado de qualquer parede, como podemos saber o que se passa nos
misteriosos lugares onde os fantasmas vivem? A nossa "v filosofia", como disse
Shakespeare, no alcana muitas coisas deste mundo. E o mundo dos fantasmas 
mais alm. Os homens habituaram-se a falar de tudo superficialmente; e o
torvelinho da vida de hoje quase no permite a ningum deter-se para pensar.
E adquirimos o hbito de sorrir com frivolidade para o que desconhecemos.
    No entanto, no entanto, as velhas Escrituras esto cheias de exemplos que
nos deixam perplexos. A tecnologia descartou a contemplao, a intuio, o
desejo srio de penetrar os profundos mistrios do mundo e da vida. O suprfluo
tornou-se to imprescindvel que se perdeu de vista o verdadeiramente
essencial.

    45
    CALIGRAFIA  POTICA
             E  RISONHA

Todos os dias nos servimos do alfabeto sem prestarmos ateno  forma de. cada 
letra; sem nos recordarmos, portanto, de sua origein, quando cada trao rio 
estava apenas em funo, de um determinado som, como hoje acontece; ms 
representava ainda, bem vvida, uma determinada imagem: Bem prximo do nosso 
est o alfabeto hebraico, para servir de exemplo, com o nome de cada letra 
significando algum objeto ou parte do corpo. (Isto sem falar na prpria 
histria da inveno das letras, quando Deus as apreciou segundo as palavras 
boas ou ms que indicavam, como iniciais.)
    Na verdade, escrevemos muito depressa para nos atermos a esses antecedentes, 
e j ningum aprende a ler de letra em letra, de modo que a rapidez do mtodo
inutiliza, como sempre acontece, a profundidade do estudo.
    Eu tambm me encontro na ingrata situao dos que no dispem de muito 
tempo: Jamais poderei ficar diante de um tinteiro para, com destro pincel, ir 
debuxando caracteres sino-japoneses de um s trao, sequer, quanto mais de 
cinco, de dez, de vinte... Ai de ns!  vida humna no permite tanto.  
preciso saber renunciar s ambies, mesmo as mais nobres:
    Mas, se no pode a minha mo delinear esses caracteres que aparentemente 
se julgaria serem obra de estontante imaginao, podem os meus olhos, 
orientados por um bom guia; descobrir nessas estilizaes o antigo desenho 
realista destinado a exprimir o que, nosso tempo prprio, se desejou comunicar. 
Essa tentativa humana de comunicao (ai, neste mundo impenetrvel!)  sezzi 
pre comovente. Mas os meios de realiz-la, a busca e o valor emprestado a cada 
elemento mostram-nos a simpatia, a boa vontade e, constantemente, o sentido 
potico dos velhos mestres calgrafos. Muitas dessas concepes pertencem, 
realmente, ao domnio da expresso universal, o que no deixa de ser uma 
demonstrao da identidade humana, a despeito do espao e do tmpo: Que o 
desenho da mo sobre o corao signifique sem falta, "certamente"; que o 
smbolo do centro aliado ao do corao exprima "lealdade", parece-nos natural  
e familiar, e to oriental como ocidental, pois estamos acostumados a 
associaes idnticas, e fazemos do corao nossa testemunha, e os nossos 
sentimentos profundos (como o da lealdade) residem no fundo (ou centro) do 
nosso corao.
    Que a imagem de uma rvore cercada por uma moldura signifique "sofrer" 
lembra-nos as velhas relaes do homem com a natureza e a sua sensibilidade 
diante de uma rvore impedida de crescer.
    Outros caracteres do uma idia da honrosa opinio que os velhos calgrafos 
tinham a respeito da humanidade. Assim, o smbolo de homem unido ao de palavra
exprimindo "confiar" mostra que a "palavra de homem" era, naqueles tempos, 
coisa verdadeiramente digna de crdito. E o smbolo de homem unido a traos 
numerais indicando "bondade", "simpatia",  uma afirmao da f no convvio 
humano, da possibilidade de se ser melhor (ou de poder mostr-lo) em sociedade 
que na solido.
    Alguns caracteres nos fazem refletir sobre a diferena dos tempos: 
poderemos, nos dias de hoje, aceitar sem vacilao que o smbolo de um velho 
associado ao de um moo possa exprimir "mudar", "transformar", pela ao dos 
conhecimentos e experincias que o primeiro possa exercer sobre o segundo?
    Mas o belo smbolo das mos estendidas para significar "amigo", mas o 
porto fechado sobre o corao, para dizer "agonizar", mas a mulher e a 
criana exprimindo "gostar" so caracteres que comovem por sua delicadeza 
potica.
    Mas os velhos calgrafos tinham tambm fino sentido realista: na 
representao de "pai" v-se a mo que segura um cacete; para exprimir
"barulho de vozes", parecia-lhes bastante desenhar trs mulheres; e o smbolo 
da mulher aliado ao de mal, doena, significava, para eles, claramente,
"ter cimes". (E ns hoje sorrimos desses velhos calgrafos, que com certeza 
sorriam tambm, ao inventarem esses caracteres...)

    48
    "OI, DA PRATA E DO OURO ..."

O que sabemos dos Reis Magos, pelo Evangelho,  o que nos conta So Mateus: 
Tendo, pois, nascido Jesus em Belm de Jud, em tempo do Rei Herodes, eis que
vieram do Oriente uns magos a Jerusalm, dizendo:"Onde est o rei dos judeus 
que  nascido? - porque ns vimos no Oriente a sua estrela e viemos ador-lo."
Muito perturbado, Herodes teria pedido aos magos, no sem malcia, que, se
acaso encontrassem o menino profetizado, o viessem avisar, para ele o adorar
tambm. Os magos, no entanto, encontraram-no, fizeram-lhe suas oferendas de
ouro, incenso e mirra, "e havida resposta em sonho que no tornassem a Herodes,
voltaram por outro caminho para a sua terra".
    Mais tarde, as festas da Epifania celebrariam o Natal, a Adorao dos Magos
e outros fatos relacionados com os primrdios do cristianismo, e, no domnio
popular, reminiscncias vrias se iriam aproximando, reunindo danas, cantigas,
cortejos, banquetes, formando, sob, diversos nomes, outros folguedos.
    J no se ouvem, pelas grandes cidades, aquelas vozes de pastorinhas
visitadoras de prespios:
    "O de casa, nobre gente, escutai e ouvireis que das bandas do Oriente so
chegados os trs Reis."
    Mas nas cidades pequenas, por esse vasto Brasil, continua a tradio, mais
ou menos conservada, das antigas cheganas, do bumba-meu-boi, dos "ternos" de 
Reis, com seus tiradores de versos e seus msicos, cantando, tocando, danando, 
pedindo dinheiro e donativos para as alegrias da data.
    Como o folclore  um fato vivo, a imaginao popular enriquece a tradio 
com suas invenes novas. Uma ressonncia muito remota de festivais agrcolas 
faz as pastorinhas cantarem como em sonho:
    "Nosso trigo est maduro, Vamos para o campo ceifar.. "
    H quadras de vivo sentido jornalstico, que registram os fatos com 
adorvel preciso: "Os trs Reis quando souberam que era nascido o Messias,
montaram em seus cavalos todos cheios de alegria."
    E assim vo os festeiros pedindo vinho e doces, misturando versos antigos 
e modernos, paganismo e cristianismo, coisas ainda de Portugal, coisas j do  
Brasil, pobreza e alegria, ignorncia e perspiccia.
    Para explicar essa mistura do Evangelho com o peditrio e o rancho de Reis, 
uns festeiros de Guaxup contaram a uma aluna do Centro de Pesquisas de So
Paulo "que os Reis, nessa caminhada pelo deserto, fizeram-se acompanhar de  
guardas e dois palhaos que cantavam e danavam a troco de dinheiro". Assim  
a ingenuidade do povo.
    Muito mais engenhosa, porm,  a histria de Reis narrada pelo mestre 
violeiro Caetano Avelino da Silveira, de So Paulo, ao folclorista Joo Batista 
Conti: "Diziam os antigos, e  por conta deles, porque eu no vi, que quando 
nasceu o Menino Jesuis, na Terra
    Santa, havia treis reis: um branco, um preto e um caboclo. Os reis branco, 
querendo logr o preto, disseram: "perciso d uma volta muito grande" e 
ensinaram um caminho errado pro preto fic logrado. E assim forum os treis v 
o Senhor Menino. Mais o preto peg o caminho errado. Quando os branco chegaram 
na cocheira, onde tava o Menino Jesuis, derum cum o preto j na frente do 
Menino, que entonces o Senhor Menino peg uma coroa, pois na cabea do rei 
preto e disse: "vassumec  o reis dos Congo". Foi ento que o preto foi cham 
uma poro de negros e vieram dan na frente do Menino. Da em diante fic a 
Congada."
    Alm de ser um pequeno espelho das trapaas deste mundo e da esperana na 
justia divina, a pequena histria, com a sua verso nova do tradicional 
episdio, oferece-nos tambm uma curiosa sugesto sobre a origem de outra festa 
da poca: a dos Congos.
    E uma alegria, afinal, pensar que tudo isso ainda existe no mundo: que o 
homem ainda  feito de recordaes, infncia, imaginao, sensibilidade, sonho.  
Que no somos ainda autmatos. (Por quanto tempo?) E que em algum ponto do 
Brasil vozes alegres estaro cantando a esta hora:
    "Oi! da prata e do ouro se faz o metal!
     Oi! a vspera de Reis  pra ns festejar!"

    51
    DESCOBRIMENTO DO
    ANJO DA GUARDA

A moa disse-me que estava longe da famlia, na grande cidade onde chegara 
para trabalhar e estudar. A imponncia dos edifcios, a pressa da multido, o 
tumulto das ruas, a agitao das noites, tudo a atordoava: e mal tinha tempo 
para fazer amizades.
    Antes, sua paisagem era uma praa, uma igreja, um pequeno rio, ladeiras 
tranqilas, jardins antigos, casas agradveis onde, aqui e ali, algum 
praticava exerccios de piano. As pessoas visitavam-se, contavam suas histrias 
familiares, aconselhavam-se. Havia pequenas festas, um pouco de dana, a msica 
da filarmnica local, um grupo de teatro.
    As moas sabiam muitas coisas, eram muito dotadas: bordavam, cosiam, 
confeitavam bolos, faziam flores. Ultimamente aprendiam at a executar objetos 
domsticos de matria plstica. (Disso ela no gostava muito.)
    Seus estudos chegaram a um ponto que despertaram a ateno dos professores.  
(Estudava musica.) Todos acharam que era uma pena ficar ali, ajudando a cantar
na igreja, ensinando solfejo s crianas: devia ir para um centro maior, 
receber outros estmulos, dedicar-se completamente  sua vocao. E ela foi.
    Mas a grande cidade era assim, com tanta gente,
ningum prestava ateno a nada, havia msica por toda parte, nos edifcios,  
pelas  ruas,  nas  casas  comerciais,
nos  mercados,  nos  restaurantes,  e  ela  mesma  j nem
sentia a sua msica, j no se ouvia, no se achava
necessria.
 O  ambiente  era  desatento.  Tudo  entrava  por  um
 ouvido e saa pelo outro. E o que acontecia com a pro-
 fisso acontecia tambm com a vida: prometiam coisas
 que no cumpriam, marcavam encontros que no se efe-
 tivavam,  as  colegas  pareciam-lhe  muito  sofisticadas,  e
 depois de ter observado um pouco, com a sua bem-orga-
 nizada  cabea  disciplinada  por  bemis  e  sustenidos,
 chegara  concluso de que (pelo menos por enquanto)
 no valia a pena namorar.
 A moa, ento, sentiu-se muito sozinha, desencoraja-
 da - e ali, com seus papis de solfa na mo, parecia
 mesmo a prpria musa Euterpe, exausta de modernida-
 de e saudosa do Olimpo.
 O que mais a assombrava era a ausncia de apoio
 social:  as moas de sua idade falavam de penteados;
 os  professores,  de  taxas,  reivindicaes,  abonos,  e  os
 rapazes discorriam sobre esporte - ou eram grandes
 mestres em toda categoria de arte, ou grandes conduto-
 res da humanidade, oradores e grevistas. Meio gangsters,
 meio lderes, desesperados de ambio.
 Foi assim que, uma tarde, a moa pensou no Anjo
 da Guarda. Deus era grande demais, para atingi-lo: no
 tinha  coragem.  Chamou  baixinho  o  Anjo  da  Guarda,
 para  experimentar.  Ao  contrrio,  porm,  do  que  ela
 esperava, o Anjo da Guarda respondeu. Passou a con-
 versar com ele todos os dias. Todos os rudos em redor
 se dissolveram:  os barulhos do mundo e as conversas
 frvolas. Sozinha, ela fala com o seu Anjo da Guarda
 que,  solcito, responde  s  suas  dvidas e  resolve os
 seus problemas.
 Voltada  para  esse  paraso  interior,  disse-me  que  
 outra pessoa:  tudo Ihe parece claro, certo, com outro
 sentido. Seu mundo de msica  o mesmo do Anjo da
 Guarda. E acha admirvel que esse mundo possa existir
 dentro do outro, veloz e ruidoso, sem ser atingido em
 sua harmonia, livre de qualquer vulgaridade e aflio.

    53
    JUNHO ANTIGO

Naquele  tempo   existia  a  bab  Pedrina,  (Digo  bab,
como agora se usa, mas naquele tempo se dizia paje,m
ou ama-seca:) A bab Pedrina era uma jovem mulatinha,
xtremarnente gentil, que conhecia um.. mundo de coisas:
sabia as ladainhas e cnticos reiigiosos de sua terra, as
msicas  ds  coretos,  histrias  de  bichos,  lobisomem,
mula-sem-cabea, fantasmas, e de prncipes e princesas
que;  depois  de  muitas  vicissitudes,  acabavam  felizes,
com casamentos muito festivos, sob uma linda chuva de
arroz: (Ela no dizia prncipe, mas princs: o que sempre
me pareceu palavra muito elegante, e de sua particular inveno.)
 Ora; Pedrina, como se v pelo nome, nascera no ms
de junho, e pertencia ao calendrio das festas de Santo
Antnio, So Joo e So Pedro. Era especialmente versada
em toda classe de  adivinhaes e . `sortes' e por
muito tempo me perguntou qual era a dierena entre
mdico e gua, sem que . eu pudesse resolver problema
to srio, para a minha idade. A diferena - revelou-me
um  dia,  confidencialmente,  como  quem transmite
um  conhecimento  secreto -   que  "a  gua mata  a
secura e o  mdico, se cura, no  mata". Esse jogo  de
palavras me pareceu to engenhoso que me apliquei a
inventax trocadilhos, sem chegar, riaturalmente, a resultados
perfeitos.
 Em matria de parlendas, Pedrina era muito competente:
imterpretava o barulho dos trens, as vozes  dos
sinos, dos galos, dos sapos; sabia a linguagem das flores,
muito usada pelas donas e donzelas da poca; tinha o
seu repertrio de canes de bero; de roda, de brinquedos
infantis; tocava msca em papel fino esticado num
pente, e ensinou-me que as meninas bem-educadas deviam
saber fazer reverncias e dizer merci e pas de guoi.
 O ms de junho era, naquele tempo, muito mais do
que hoje, um perodo mgico. Todas as crianas sonhavam
com  barraquinhas  de  fogos,  ou  para  compr-los
ou para vend-los. E havia j naquele tempa ndcios
de corrupo at nesses pequenos negociantes, que cometiam
suas fraudes e no aceitavam reclamaes. Os meninos
gostavam de coisas ruidosas como "bichas chinesas",
bombas, ou coisas um pouco humorsticas, como
os busca-ps, que faziam as pessoas correr, assustadas.
Mas as meninas queriam estrelinhas, fsforos coloridos,
foguetes de lgrimas e no compreendiam que So Joo
no acordasse com tanto rudo. Mas era assim,  conforme
Pedrina e outras autoridades:  So  Joo  queria
descer   Terra, no  seu  dia, para folgar:  mas  acordava
sempre antes ou depois da data. Parece que isso era
bom, pois, se acontecesse acertar, creio que o mundo
acabava.
 Assim, com fogos e fogueiras, aipim e batata-doce a
assar nas brasas, cantigas a Santo  Antnio e a So Joo,
o ms ia passando, com o  cu  coberto  de estrelas  e
bales,  e as donas e  donzelas  dedicadas  a interpretar
o futuro, inclinadas como pitonisas sobre copos, pratos
cheios  d'gua,  facas  manchadas  pela  seiva  das  bananeiras...
 As  crianas  bem educadas  (aquelas  que at sabiam
dizer merci e pas de quoi) podiam ficar pelas imediaes,
muito quietinhas, observando aquele ritual mgico.
Dentro  dos  copos,  o  ovo  quebrado  na  gua  formava
cortinados,  velas  de  navios,  altares . . .  Olhos  ansiosos
espreitavam ali casamentos, viagens, mortes, e aceitavam
os prognsticos assim desenhados. As agulhas nadavam
no prato d'gua, iam, vinham,  aproximavam-se, afastavam-se,
desencontravam-se, mas s vezes aderiam uma
 outra, e as donas e donzelas suspiravam aliviadas:
parece que se tratava de novos encontros, voltas, fim
das separaes...
 Pedrina passava sonhadoramente ao longo desses mistrios.
Sob a sua doura e gentileza morava,  decerto,
uma espcie de saudosa melancolia. Acreditava no que
a seiva da bananeira escrevia na lmina da faca, se a
cravavam na planta  meia-noite em ponto, e a traziam
de volta sem olhar para trs. Tambm acreditava que
no chegaria ao ano seguinte quem no divisasse o prprio
rosto  na  gua  de  uma bacia  ao  relento,  quela
hora da noite. Mas nunca nos disse por que acreditava
nisso.  Falava mais  sria,  com uma  sombra  nos  olhos
que de repente se tornavam estrbicos. Mas os bales
subiam, as lgrimas dos foguetes cascateavam  ela noite
as rodinhas giravam sob as rvores do quintal, as crianas
cantavam, as trepadeiras abriam flores perfumosas,
So Joo continuava a dormir, e So Pedro tinha nas
mos a chave com que certamente abriu as portas do
cu para Pedrina.

    56
    O QUE SE DIZ E O QUE
    SE ENTENDE

H tempos, descobri numa vitrine um objeto azul que
me interessava. Entrei na loja, dirigi-me ao balconista
com a maior cortesia, pedi-lhe aquele objeto azul. Antes
de me atender, o moo observou com a maior seriedade:
"A senhora quer dizer...  verde?" Como no houvesse
no lugar indicado nenhum objeto verde nem mesmo
vermelho,  que  explicasse  um  possvel  daltonismo,
fiquei  um  pouco  surpreendida,  mas  insisti:  "No,  eu
quero dizer... azul."  O  moo teve essa expresso resignada
de quem tem de aturar por obrigao a impertinncia
dos fregueses, mas foi buscar o objeto indicado.
Enquanto se dedicava  delicada operao, tive um momento
de dvida - talvez eu me tivesse enganado. Um
objeto de cristal, descoberto numa vitrine, pode sofrer
uma  inconstncia  no  colorido,  o  verde  pode  parecer
azul...  E, na verdade, o moo devia conhecer melhor
do que eu os objetos que se encontravam ali em exposio.
Mas, ao voltar, com um vago olhar triunfante de
quem acaba de ganhar uma pequena batalha, ao colocar
no balco o que ele acreditava ser um objeto verde,
verifiquei que o triunfo era meu. E enquanto acertvamos
as contas, pensei: fazem falta as mes que ensinavam
navam  as  cores  aos  filhos;  fazem falta os  jardins de
infncia; por onde anda o disco de Newton? e ser que
os arranha-cus j no deixam mais ningum conhecer
o arco-ris?
 De outra vez, entro numa loja de brinquedos, e com
o maior respeito e venerao dirijo-me  vendedora, que
era a prpria Clepatra, com olhos distendidos at as
orelhas, e peruca negra a imobilizar-lhe o pescoo: "Eu
desejava um caleidoscpio..." Clepatra mirou-me com
um desdm milenar, e como um generoso favor, e por
ateno aos seus deuses, balbuciou: "No temos." Como
no tinham? Pois se eu da rua avistara uma prateleira
toda  de  caleidoscpio!  Ento,  com  o  mais  humilde
gesto, ousei apontar para a referida prateleira. Clepatra,
com visvel contrariedade, corrigiu minha ignorncia:
 "A senhora quer dizer...  tubo?" Mas eu, sabendo
bem a distncia que vai da minha pessoa  sedutora
rainha, insisti, por amor  verdade, e  etimologia: "No
eu  quer .dizer...  caleidoscpio."  Certamente,  Clepatra
tra j no  se lembrava mais . dos  gregos, e, com um
desdm muito maior que o anterior, dignou-se vender-me
me um caleidoscpio, na verdade to sem graa que bem
merecia ser tratado como desprezvel tubo.
  Mas outro dia precisei de papel impermevel, dirigi-me
a uma seo de papelaria, falei com um jovem esportivo,
limpo, atualizado, realizado, e pedi-lhe o que que
ria, certa de que seria rapidamente atendida. Ele porm,
com  o  seu  belo  sorriso  profissional,  tambm  me  respondeu:
"A senhora quer dizer papel metlico?" "No
eu quero dizer papel iircperinevel, mesmo." Ele fechou
o  seu  claro  sorriso,  como  quem  recebe  uma  notcia
triste, e murmurou-me inconsolvel:  "No temos." Mas
como  no  tinha?  Pois  estava  ali  mesmo,  muito  bem
enroladinho! E o moo ficou to admirado como se ele
fosse o comprador e eu o dono do negcio.
  Mas o que me assombra no  que as pessoas ignorem
o que vendem: o meu assombro  pensarem que eu
sempre quero dizer outra coisa. No! eu sempre quero
dizer o que digo.

    58
    LUZES DA TERRA E DO CU


Coincidiu este ano com a data de Santa Luzia - a de
luminoso nome - o 25 de Kislev do calendrio judaico,
que  marca  o  incio  da  festa  do  Hanuc.  Embora  se
possa atribuir a esse "festival das  luzes" alguma longnqua
raiz entre as remotas celebraes . do solstcio de
inverno, tambm  certo que sua instituio vem claramente
assinalada no Livro dos Macabeus. Derrotado o
invasor  que  havia  saqueado,  e  profanado  o  Templo,
Judas restaura, com os seus, o Lugar Santo, purificando-o
e  preparando-o  para  o  servio  religioso,  que se
inaugura,  afinal,  entre  cnticos  e  msica  de  ctaras,
cmbalos e harpas, no vigsimo quinto dia do nono ms
do ano de 164 antes de Cristo. Duram oito dias essas
festas de inaugurao, e estabelece-se que todos os anos,
na mesma poca, oito dias de festa recordem para sempre
a famosa vitria.
  Diz-se que no Templo invadido o candelabro derrubado
bado conservara acesa  apenas uma ltima e vacilante
luz.  Os  judeus  partiram  em  busca  de  leo  para  lhe
acenderem todos os braos. Assim, na festa do Hanuc,
durante oito dias, vo sendo acesas sucessivamente oito
luzes, por uma lmpada auxiliar que tem o nome de
Shamosh, ou "servidor".
  A festa caracteriza-se ainda pela distribuio de presentes
s crianas, o costume de se servir certa iguaria,
semelhante a uma pequena panqueca, a leviv, e a utilizao
de uma pitorra ou pio, o svivon, com que as
crianas  tiram    sorte  confeitos  e  chocolates  que  se
encontram na mesa da festa.
 As luzes do candelabro do  Hanuc fazem-nos logo
pensar na rvore do Natal, com seus brilhantes adorIios.
Os  presentes  dedicados  exclusivamente  ou  principalmente
s crianas aproximam ainda mais as duas festas.
A utilizao  do  svivon    mais  um  curioso  pormenor
para os estudiosos de fatos tradicionais. Pois, embora
no Brasil se v perdendo rapidamente a memria desse
pio do Natal, o folclore portugus assinala sempre a
sua presena no jogo do `rapa' com que os rapazes sE
entr tm,  tirando    sorte  nozes,  avels,  confeitos  ou
pinhes, nas festas de 25  de dezembro, Esse pio de
quatro faces tem em cada uma a inicial de quatro palavras:
rapa, tira, deixa e pe, e conforme a letra que
fique voltada para cima, o jogador rapa o que foi apostado,
ou tira apenas uma parte, ou deixa tudo na mesa,
ou ainda pe alguma coisa mais.
  No caso do svivon tambm h quatro letras assinaladas
nas  quatro  faces:  as  iniciais  da  frase  hebraica:
"Aconteceu aqui um grande milagre."
  A presena, em ambas as festas, desse pequeno pio
que gira misterioso entre as luzes acesas do Antigo e do
Novo Testamento, na mesma poca do ano,  uma seduo
para os que se lembram de antiqssimos ritos solares
associados  a  rotaes,  crculos  de  fogo,  circulao
da vida em luz, entre o cu e a terra:  de um plo a
outro, nascimento do mundo e nascimento  do esprito
- luminoso enigma.
	
          ANTIGUIDADES



O dono da loja est sentado, sonolento, num cadeiro
de couro lavrado. Pode ser que me engane: mas tenho
a impresso de que no entende nada dos objetos que
o cercam. Parece mesmo que lhe inspiram mais do que
profunda indiferena, um vasto desamor.
  Em redor dele h oratrios vazios, saudosos de santos.
(ele nem sabe disso.)  H quadros com moas mitolgicas,
envoltas em vus, a danarem entre nuvens e espumas.
(No olha para elas.) H estatuetas de bronze que
representam a Justia, a Vitria, a Juventude, Diana e
Cupido, Napoleo e Pasteur. (O dono da loja no deve
ter lido jamais as etiquetas de cada bronze.)
  Entra-se na loja, apenas para ver, e ele continua sentado,
sonolento, num torpor de quem se desligou completamente
deste mundo.
  Ali  esto  as  garrafas  de  cristal  dos  banquetes  dos
nossos avs: garrafas sem tampas e tampas sem garrafas,
pobres  destinos  desencontrados  e  inocentes.  Ali  esto
belas maanetas venezianas que deviam servir a portas
maravilhosas de sales que no existiro mais. Pratos e
xcaras, lampies e jarras perfilam-se com serena dignidade
nas prateleiras poeirentas.  Pequenas jias quebradas,
com falta de pedras. Trinchantes de lmina enferrujada.
Molhos e molhos de talheres com melanclicos
monogramas  entrelaados.  (Amorosos  tempos  de  casamentos
indissolveis, de iniciais abraadas, de lares que
pretendiam ser a imagem da Eternidade!)
  O  dono da loja continua tranqilo no seu cadeiro
de couro, sem dar a menor ateno aos visitantes. Por
um lado,  comovente a sua confiana nos estranhos
que entram e saem. Mas leva-me a crer que apenas est
seu corpanzil naquela enorme cadeira:  que seu esprito
(isto , aquilo que no seja propriamente o corpo) ronda,
vigilante, os infinitos objetos que jazem na sua loja, sob
e sobre poeira. Pois se algum se lembra de perguntar:
Qual  o preo daquela jarra? Quanto custa aquele
prato?", imediatamente aquilo que no  apenas o seu
corpo vem  tona da poeira e exala nmeros um pouco
fantsticos:  "Vinte mil cruzeiros ... Trinta mil... " E
tudo continua a ser sonolncia e p.
 Ah!  compoteiras  gloriosas,  que  um  dia  brilhastes
com o topzio e o rubi dos doces de carambola e goiaba!
Ah!  taas lapidadas erguidas entre discursos, bordadas
de  sussurrante  espuma!  Ah!  vulto  de  alabastro  que
fostes como um raio de luar entre remotas sedas drapeadas!
...Tivestes os vossos donos, que vos amaram,
que  vos  admiraram,  que  vos  protegeram  para  que  a
vossa beleza no sofresse nenhum agravo. E agora sois
objetos  desparelhados,  que  uns  acham  velhos  demais
que outros no acham suficientemente velhos, e assim
habitais  esse  mundo  de  poeira;  e  representais  apenas
um certo  preo:  o  preo  consignado  nos  catlogos,  e
que a memria de um homem sonolento  diz em voz
alta, como se vos batesse com uma vara e vos partisse.

    62
    SPLICA  POR  UMA  RVORE


Um dia, um professor comovido falava-me de rvores.
Seu  av  conhecera  Andersen-Andersen,  esse  pequeno
deus  que  encantou  para  sempre  a  infricia,  todas  as
infncias,  com  suas  maravilhosas  histrias.  Mas,  alm
de conhecer Andersen, o av desse comovido professor
legara a seus descendentes uma recordao extremamente
terna: ao sentir que se aproximava o fim de sua vida,
pediu que o transportassem aos lugares  amados, onde
brincara  em   menino,  para  abraar  e  beijar  as .rvores
daquele mundo antigo - mundo de sonho, pureza, poesia
- povoado de crianas, ramos, flores, pssaros . . .
O professor comovido transportava-se a esse tempo de
ternura, pensava nesse av to sensvel, e continuava a
participar, com ele, dessa cordialidade geral, desse agradecido
decido  amor   Natureza que, em silncio, nos rodeia
com a sua proteo, mesmo obscura e enigmtca.
  Lembrei-me de tudo isso ao contemplar uma rvore
que no esqueo, e cujo tronco h quinze dias se encontra
todo ferido, lascado pelo choque de um txi desgorvenado.
Segundo  os  tcnicos,  se no  for  socorrida,
essa rvore dever morrer dentro em breve: pois a pancada
que  a  atingiu  afetou-a  na  profundidade  da  sua
vida.
  Uma  testemunha  realista,  meramente  interessada  na
descrio dos fatos aparentes, contaria que, uma destas
tardes, um  pobre txi obscuro, rodando dentro da quilometragem
regular,  foi  abalroado  por  um  poderoso
furgo, de maneira to jeitosa que o motorista foi cuspido
do seu lugar; e o carro, em movimento, dirigiu-se,
desgovernado, para cima, para baixo, para a direita e
para  a esquerda,  at  se  amassar contra uma  rvore.
Apenas  isso:  sem falar que  o  txi levava passageiro,
que, no seu lugar, aguardava o desfecho desse jogo de
foras cumprindo-se inexorveis dentro das leis da fsica.
 Mas um observador mais sensvel, mais dedicado ao
que mora alm das aparncias - sem divergir da descrio
grfica do fato -, veria, no instante mais agudo
da situao, a bondosa, a caridosa, a dadivosa rvore
enfrentar o  desastre  com  a sua solidez  estica, deter  o
desvario da mquina, embora expondo ao risco a sua
vida.
 Com  que  abrao  se pode  agradecer  o  herosmo  de
uma rvore? Num tempo em que os homens se destroem
com pensamentos, palavras e atos,  de que maneira se
pode louvar uma rvore que protege e salva, embora
annima e em silncio? A quem se deve pedir que venha,
com os recursos  de que os homens  dispem, impedir
que se extinga a vida vegetal que salvou uma vida humana?
Vinde, senhores da cidade!, tratai desta rvore
smbolo! Tratai-a com amor, porque est sofrendo,
por que est ferida, porque no se queixa - e para que
no se diga que os homens so menos generosos  que
as  plantas.

    64
    INVERNO


Com este frio que faz, Petronilha, devamos ter uma
boa lareira. Estaramos sentadas uma diante da outra,
e talvez eu me animasse a reaprender a tcnica de tric.
Na Europa, minha amiga Eva, mesmo sem lareira, senta-se
no cantinho mais abrigado da sua casa e, com uma
velocidade impressionante, faz meias, casaquinhos, toucas,
xales, que manda distribuir pelos pobres sem que
eles  jamais  tenham  visto  ou  venham  a  conhecer  as
suas . mos. Os  pobres pensam que tudo isso lhes cai
do cu, ficam muito felizes, pois o celestial  infinitamente
superior ao terreno,  e agradecem a Deus tamanha
nha  ventura  como  a  de  envolver  as  criancinhas  em
lindas  complicaes  de  l.  Mas  aqui,  Petronilha,  no
sei  se  existem  as  mesmas  disposies  para  o  maravilhoso.
Os pobres parece que no gostam tanto de receber
ber essas coisas tecidas com amor e aparecidas nas suas
mos  como  presentes  de  fadas:  preferem  comprar  os
grosseiros produtos  da indstria expostos  nos  bazares.
No, Petronilha, no voltarei ao tric. Voltarei, sim, 
lareira, onde, ao excitante calor das chamas, inventare-
mos meios e modos de aquecer os friorentos sem ser
por esse sistema quase sobrenatural.
 Tenho visto lareiras, Petronilha. Alguma coisa muito
antiga deve haver no fundo da nossa alma, para assim
nos alegrarmos com o crepitar da madeira, com o flutuar
tuar das labaredas amarelas e vermelhas, com o cheiro
da  lenha  queimada,  com  o  prazer  de  revolvermos  as
ltimas brasas na cinza. Tudo isso  primitivo e . alado,
ao mesmo tempo. No me faz pensar no Inferno dos
doutores da Igreja, mas no nascimento do mundo, em
franjas  do  Sol  a  brincarem  na  Terra,  em  pequenos
recados de luz, apenas balbuciantes. Tudo isso  lindo,
Petronilha, e eu insisto em sonhar - dado o frio que
faz -  com  uma  lareira  bem  alta,  bem  larga,  bem
luminosa.
 Mas quando me lembro que essa lenha vem das florestas,
que  esto  sendo  queimadas  belas  rvores  para
o nosso prazer, entra-me no corao uma tristeza igual
a uma leve mas  penetrante seta. Mereceremos  ns o
sacrifcio de uma s rvore?
 Um dia,  margem de um rio, vi homens a fazerem
um barco. A madeira recendia, cor de marfim, aberta
ao sol. Os homens aparelhavam-na destramente,  e eu
contemplava a distncia aquela transformao da rvore.
Senti a mesma pena, mas pensei que no era to grande
a ofensa, pois a rvore poderia envelhecer, apodrecer,
ignorada, na mata, se no a aproveitassem com aquela
habilidade e aquele amor.  Porque havia amor naquele
trabalho  de  tal  metamorfose.  E  a  rvore,  despregada
do solo, dessa fixao a que est condenada, iria navegar,
deslizar pelo rio, conhecer outros aspectos daquele
lugar onde nascera, ver as colinas, ver os penedos,
ver os peixes, ver muitas coisas - pois certamente lhe
pintariam dois grandes olhos, na proa, como j faziam
os antigos, e ainda lhe dariam um bonito nome protetor,
como  de uso com os prprios humanos.
 Assim me consolei, Petronilha, da rvore transformada
em barco. Era, de certo modo, engrandec-la, arranc-la
  obscuridade  e  oferecer-lhe  um  mundo  novo,
onde seria amada e feliz.
 Mas com a lareira  diferente,  Petronilha. As belas
rvores  despedaadas transformam-se em fogo e cinza.
Desaparecem. A glria efmera das labaredas  glria
apenas para os nossos olhos. Mas, para a madeira, alm
de efmera  cruel. A rvore arde na sua prpria chama,
 o sacrifcio e a vtima, a um s tempo. No,
Petronilha,  creio  que  no  quero  mais  a  lareira.  No
faremos  tric  para  os  friorentos,  nem  estaremos  "ao
p  do  fogo  dobando  e fiando"   , e  a  dizer  versos  de
Ronsard, que no escreveu para ns... J passaram  os
sculos sobre Ronsard e Helena . . .  Creio que as lareiras
devem ficar tambm no horizonte dos sculos. No
Petronilha, no vamos consentir nessa morte das rvores
para o nosso conforto. Vamos vestir todos os nossos
agasalhos e contemplar a linda, embora fria chuva que
continua
a cair pelo jardim, pela montanha, pela terra. . .

    67
    SEMANA SANTA


Penso agora numa Semana Santa de Ouro Preto, recordo
do a melancolia das igrejas, na cidade contrita. Posso
ver  a  multido  comprimir-se  para  assistir    Procisso
do Encontro:  no alto dos andores, o rosto da Virgem
  uma  plida  flor,  e  a  cabea  do  Cristo,  inclinada,
balana os cachos do cabelo ao sabor da marcha, com
um ar dolente de quem vai por um caminho inevitvel.
O pregador comea a falar explicando aquela passagem
do  Evangelho,  exorta  os  fiis    contemplao  daquela
cena, cuja significao mais profunda procura traduzir.
Mas o povo j est todo muito comovido: as velhinhas
choram, as crianas fazem um beicinho medroso e triste
e  as  moas  ficam  pensativas,  porque  -  embora  em
plano divino - os fatos se reduzem  desgraa cotidiana,
que elas conhecem bem, de um Filho que vai morrer,
e cuja Me no o pode salvar, e que ali se despedem,
uma com o peito atravessado  de punhais, outro
com a sua prpria cruz s costas. 'O  povo  bom, o
povo quereria que todas as Mes e todos os Filhos fossem
felizes, e se pudessem socorrer, e no morressem
nunca, e principalmente no morressem dessa maneira,
pregados  a  cruzes  transportadas  nos  prprios  ombros.
  O povo  bom, e sabe que o Cristo ressuscitar, o
povo  confia  na  Ressurreio,  mas  sua  tristeza  no  
menor, por isso, e h lgrimas sinceras nos rostos simples
que levantam o perfil para os andores parados na
encruzilhada.
  A  descida  da  Cruz,  novamente  a  aflio  dos  fis,
com o rosto banhado em lgrimas. Tudo foi h muito
tempo,  rii  termos  sobre-humanos,  eles  o  sabem:  dizia
como se pode ver Nossa Senhora com seu terno Filho   ,
assim despregado e em chagas, a resvalar para os seus
braos consternados? Ah! o povo  bom e no pode
deixar de comover-se com a Santa Tragdia, que, em
termos humildes,  a sua tragdia de cada dia, com os
braos  infelizes  estendidos para filhos  martirizados.
 Depois,   luz  dos  crios, na interminvel procisso
que sobe e desce pelas ladeiras, o povo, de olhos lutuosos,
experimenta em seu corao aquele acontecimento
duplamente emocionante, conhecendo-o tambm no plano
terrenal, na angstia e no mistrio da morte, a cada
instante observada e sofrida. Pelas ruas, o povo bom
acompanha o enterro do Justo, agentando com fortaleza
o cansao do ngreme caminho;  e pelas janelas,
como pelas ruas, o povo bom participa daquela amargura,
morre  em  seu  corao  daquela morte,  aceita  a
sua condio humana, naquele lance final, depois de
se ter preparado para ele atravs das provaes anteriores,
 graves e acerbas.
 Tudo isso enquanto as matracas fazem um acompanhamento
surdo,  tenebroso,  ameaador,  e  os  cabelos
da Madalena exibem sua amorosa beleza, e a voz que
canta  o  O  vos  Omnes  se  eleva,  pungente,  na  noite,
fazendo chorar o povo  bom, que tera suas  dores to
grandes, to grandes, mas decerto menores do que a
daquela  que  pergunta:  "Conheceis  uma  dor  igual  
minha?" - e expe a Santa Vernica.
  Oh, a dor dos pais pelos filhos! Abrao vai no cortejo,
querendo descarregar a espada sobre  Isaac, para
provar a Deus sua devoo. Mas o Anjo compadecido
puxa-lhe a espada para cima. No, no  preciso que
ele sacrifique o menino que tambm vai carregando s
costas  o  pequeno  feixe  de  lenha  do  seu  sacrifcio:
"Abrao, Abrao, no estendas a tua mo sobre o menino,
e no lhe faas mal algum..." Deus  bom, o
povo  bom, uma onda de bondade comove a noite inteira,
das estrelas do cu at o tundo dos crregos ...
  Depois,  aquele amanhecer festivo de coisas claras
e douradas, de cnticos felizes, de sinos, com todas as
lgrimas enxutas, porque um dia todos os Filhos sero
felizes, nem Isaac ser queimado no alto do monte nem
Jesus crucificado;  um dia todas as Mes sero definitivamente
jubilosas, e as velhinhas  agradecem a  Deus
- h  dois zizil  anos  as velhinhas  agradecem  a Deus
tanta bondade - e as moas sentem o corao dilatado
de esperanas, e os anjinhos de procisso, que agora
mal podem andar com suas grandes asas de penas brancas,
os anjinhos que um dia vo ser crescidos, adultos
e  vo  saber  destes  difceis  problemas  de  viver,  de
serem filhos  e  de  serem pais,  esses  anjinhos,  de  ps
cansados  e  carinhas  alegres,  comem  os  seus  confeitos
de Pscoa, ainda de asas e tnica,  beira das caladas,
no degrau das portas, em alguma ponta de muro . . .
  O  povo bom sofre uma vez por ano, intensamente,
seu compromisso de ser bom, de ser melhor, cada dia
mais, para sempre. O destino do homem  ser bom. Sua
felicidade est em consegui-lo, mesmo-ou principalmente-sofrendo.

    70
    S VINTE E DUAS HORAS

s vinte e duas horas devamos todos estar dormindo,
para vivermos um sculo, se acreditssemos no provrbio
que "acordar s seis, almoar s dez, jantar s seis,
deitar s dez, faz o homem viver dez vezes  dez..."
Mas ai! quem acredita mais em provrbios? quem sabe
provrbios?  que so  provrbios?  A  vida  mudou  quase
de repente, e os hbitos tornaram-se outros, e  outra
a moderna rotina. (E ser bom viver um sculo?)
 As vinte e duas horas, se dormssemos, talvez tivssemos
belos sonhos, talvez nos despertasse alguma serenata.
Mas  a  provncia  do  Rio  de  Janeiro  ainda  no
perdeu  seu  estilo  de  grande  cidade:  nem  as  crianas
querem deitar-se a esta hora! e mesmo os ancios e os
doentes  acham  que  a  esta  hora  ainda  se  pode  estar
acordado, ainda  tempo de ver, ouvir, pensar, falar...
Todos  queremos  prolongar  o  tempo,  viv-lo  mais:  a
cada instante pode sobrevir uma revelao importante!
Cada minuto  um mistrio.  E o  que amamos,  acima
de tudo,    o mistrio:  dele viemos,  nele perduramos,
para ele nos dirigimos.
 As vinte e duas horas, cada um est vivendo um instante
diferente, como a qualquer outra hora do dia ou
da noite: algum pode estar nascendo, algum pode estar
morrendo.  Algum  pode  estar  pedindo  socorro,  e
no sabemos.  Algum pode estar sendo feliz, at sem
o saber.
 As vinte e duas horas, h luz no gabinete dos que
estudam, na sala dos que conversam, nos aposentos dos
que sofrem, dos que esperam, dos que amam.  Vemos
#essa sucesso de luzes, vidraas sobre vidraas, ao longo
das imensas ruas. Cada luz pertence a um instante diferente.
A distncia unifica tudo em silncio:  mas h
palavras muito diversas, na rbita de cada lmpada. Se
pudssemos  ouvi-las  todas,  veramos  de  que  surpreendentes
contrastes  feita essa aparente identidade.
 s vinte e duas horas, as ruas esto desertas, de um
lado;  repletas, de outro:  h beldades, como flores noturnas,
que s depois das vinte e duas horas exibem o
seu esplendor:  uma hora mais escura para os pobres,
nas suas tocas - mas  uma hora mais clara para as
sedas e os diamantes. As sombras da noite so assim
caprichosas.
 Mas tudo  enganoso, estas vinte e duas horas so
tambm uma iluso, porque em outros lugares amanhece,
em outros  pleno dia, e em cada ponto da Terra um
momento  diferente  marca uma outra  atividade  e  um
outro sonho. E tudo isto que pesa nos nossos ombros
e na nossa alma se vai tornando aladQ, leve, livre, e a
prpria Terra vai deixando de ser este cenrio prximo
e  aflitivo:  recuperando  suas  velhas  asas,  reafirmando-se
Planeta, no vo do universo!
  E que quer dizer "vinte e duas horas"?

    72
    HISTRIA  QUASE MACABRA


Aquele senhor contou-me que conhece um lugar cujas
condies  climticas  mumificam  os  cadveres  enterrados,
sem necessidade de qualquer embalsamamento. Ele
esteve  nesse  lugar,  como  turista,  quando  se  podia  j
visitar um museu subterrneo onde os antigos mortos
se  apresentavam  intactos  em  seus  corpos  e  em  seus
vestidos.
  Sucedeu  que,  na  poca  das  exumaes,  comearam
a encontrar esses corpos assim admiravelmente conservados.
Pensaram,  a  princpio,  que  fossem  casos  especias,
quem  sabe,  mesmo,  casos  de  santidade.  Mas  
medida que iam sendo feitas as sucessivas exumaes,
no prazo que a cada uma correspondia, notou-se que o
fenmeno era geral. Foi quando algum, com forte vocao
turstica, sugeriu que se organizasse o tal museu
subterrneo. No sei de pormenores a respeito, porque
aquele senhor me contava essas coisas com certo constrangimento,
dada  a  sua  reverncia  pelos  mortos  e  o
que  se  seguiu,  na  conversao.  Parece  que levantaram
uma parede de vidro, para se poder ver aquela exibio
fnebre, e que os mortos, embora em seus atades,
foram colocados em posio vertical. Era o que se podia
deduzir dos gestos com que aquele senhor fazia a
sua respeitosa descrio.
  Todos  os  museus  tm,  naturalmente,  seus  conservadores
dores e seus guardas. E seus guias. O guia deste museu
no  podia  limitar-se  a  acompanhar  os  visitantes  para
lhes oferecer esse singular espetculo. Estudou a histria
de cada morto: essa parte da histria de cada um
que  se supe suficiente para retratar qualquer pessoa,
e  que, em  geral, consta apenas de uns  mseros  dados
superficiais - datas, lugares, vagos pontos de referncia.
Ainda h muitos homens antropfagos, quero dizer,
vidos  de  devorar  a  vida  do  prximo,  de  saber  pormenores,
de  penetrar  em  intimidades,  d  colecionar
anedotas,  pequenos  fatos  sem  importncia,  mas  que
sejam parte da histria de algum, que muitas vezes nem
conheceram, mas que lhes d prazer saborear, assimilar.
 muito triste este mundo.
 Ento o guia do cemitrio,  no  desconhecendo essa
vocao antropofgica, sobretudo dos turistas, que nem
mastigam as vtimas - vo absorvendo tudo, contanto
que sintam encher-se com o verdico e o inverdico os
celeiros estreis da sua imaginao -, o guia comeou
a  fazer  suas  divagaes  sobre  os  pobres  mortos  ali
expostos como se lhes no bastasse a infelicidade dessa
pstuma exibio, e ainda tivessem de servir de pasto
 fome dos  visitantes  com biografias  que no  correspondiam  verdade.
 Mas  a verdade  mesmo muito  difcil de  discernir.
Que saberiam os mortos das suas verdades de vivos?
Os mortos tm outras verdades, devem ter os seus monlogos
e  dilogos, e o que foram  uma coisa  sem
sentido, em face do que passam a ser. Talvez o guia,
obscuramente, pensasse desse modo: e ia fabricando os
seus romances, segundo a prpria aparncia dos personages.
Os mortos no tm todos  a mesma aparncia,
Uns  tornam-se  amarelos;  outros, verdes,  azuis,  cinzentos,
com placas acobreadas; e alguns ficam meio trans-
lcidos, como alabastro, e h os que parecem de prola,
com um vago luar iluminando-os.
  Disse-me  aquele  senhor  que  nem  todos  os  mortos
do cemitrio estavam exatamente bem-conservados. Mas
alguns  podiam  ser  considerados  perfeitos. ,Um  homem
de  uns  quarenta  anos,  extrem,mente  bem-vestido,  era
o exemplar mais  admirvel  da exposio.  Tinha finas
mos,  muito  alvas,  e  uma  fisionomia  romntica  de
grande  expresso.  Seus  cabelos  negros  mantinham-se
bem penteados, com o brilho natural dos cabelos vivos
e uma grande onda descia-lhe um pouco pela testa, ampla
e serena, e perdia-se por detrs da orelha. Todos os
visitantes se interessavam por aquela figura, e queriam
conhecer a sua vida, a sua profisso e tudo mais que
neste mundo se usa querer saber pela curiosidade antropofgica.
 A princpio, o guia dava os pormenores que constavam
vam do prprio livro do cemitrio. Mas um dia, sob a
excitante influncia dos turistas, comeou a divagar, a
contar fatos da sua imaginao, a atribuir ao morto o
que  Ihe  parecia  corresponder    sua  romntica  figura.
Mas, disse-me aquele senhor que a certa altura parou,
e perdeu  para  sempre  a  voz.  Os  turistas  no  viram:
mas o guia deixou escrito que o morto abrira os olhos
fitara-o muito  srio,  e  dissera-Ihe,  num, suspiro:  "Deixa-
-me em paz. Por que mentes assim?"

    75
    LEMBRANA DE
    ABHAY KHATAU


Quando visitei, na lndia, o pintor Abhay Khatau, ele
era um jovem de vinte e poucos anos, e morava num
desses  prodigiosos  palcios  de  complicada  construo,
com  inmeras  escadas,  sucessivos  terraos,  mltiplas
varandas,  que  resumem  o  sentido  patriarcal  de  uma
poca,  em  aconchegar,  verdadeiramente  como  numa
rvore, os vrios  ramos  da famlia que se vai multiplicando.
  A medida que subamos para o seu apartamento, o
palcio ia-se oferecendo  vista sob os mais inesperados
aspectos: e era como se fssemos percorrendo uma
galeria de miniaturas clssicas: numa sala, meninas cantavam
e danavam, esbeltas e transcendentes, apoiando
seus exerccios em pensativas msicas; noutra sala, um
homem,  acocorado    maneira  oriental,  ocupava-se  em
passar  a  ferro  um  sri  que  serpeava  em  cores  pelo
assoalho; mais adiante estavam sendo socadas as especiarias
que do   cozinha indiana esse aroma clido,
acre,  picante,  delcia  dos  que  a  apreciam,  pavor  dos
que a detestam. Tudo isso entrecortado de cu azul,
de frondes,  de paredes brancas,  de roupas  de muitas
cores.
  Depois do ch com bolinhos de arroz e pasteizinhos
muito  quentes e  gordurosos (entre  pessoas  no  apenas
amveis e cultas, mas para as quais a arte ainda  uma
coisa  sagrada, um dom de transmitir mensagens entre
o cu e a terra, entre a eternidade do esprito e a volubilidade
do momento) comearam a aparecer os desenhos
e pinturas do jovem Abhay Khatau.
  Afinal, quem era ele, e que nos tinha a dizer, com
seus quadros? As primeiras aluses eram  sua riqueza:
uma riqueza que nos transportaria a panoramas lendrios,
colocando-o numa situao mpar, com inteira liberdade
para consagrar-se exclusivamente  sua vida artstica.
Havia  tambm  a  sua  precocidade.  Ele  nascera
pintor:  s se entendia com tintas, cores, smbolos grficos.
Essa era a sua comunicao com o mundo, e o
que o mundo lhe dizia chegava tambm traduzido nessa
linguagem. Essa linguagem e essa comunicao; alm de
cores, tinham ritmo. Esse nimo danante que a India
sente palpitar na Criao, e que vivifica suas tradies
e se reflete na imagem de seus deuses, apoderava-se tambm
da inspirao de Abhay Khatau, tornando sua pintura
implicitamente musical.
  Entre os quadros que iam aparecendo, surgiram tambm
os sris do enxoval de sua noiva, executados sobre
desenhos por ele amorosamente sonhados: a esse desdobrar
de sedas coloridas, em fabulosas combinaes  de
tonalidades  e  desenhos  entremeados  de  ouro,  desatou
de repente pequenas  cascatas cintilantes  em redor da
sala que a cada instante se ia tornando mais fantstica.
  Os pintores atuais da India no obedecem exclusivamente
aos  temas  e  tcnicas  tradicionais:  h  curiosas
fuses do Oriente com o Ocidente, em seus trabalhos,
e acentuaes, ora no assunto, ora no estilo, que revelam
as inquietudes e buscas desses jovens.
  Abhay Khatau tinha viajado pela Europa, conhecera
a   Itlia, cujos museus visitara e cujo teatro de pera
particularmente  havia  impressionado  sua  sensibilidade
de pintor. A movimentao e o colorido do espetculo,
a estranheza da indumentria fantasiosa refletiam-se em
seus quadros com aquela fisionomia febril das esculturas
amontoadas nas paredes dos velhos templos indianos.
  Mas Abhay Khatau observara tambm certos aspectos
da vida social  do  Ocidente.  E  comearam  a aparecer
desenhos realistas de senhoras rubicundas, com grandes
decotes, extravagantes vestidos,  que ele,  sem nenhuma
inteno caricatural, antes com a mais respeitosa seriedade,
ia sobrepondo diante de ns, em telas e cartes.
 Ns  que vamos, com pungente melancolia, a finalidade
deste mundo nosso, agitado e superficial, de modas
vs, de exibicionismo sem sentido, de reunies sem finalidade
sria, de vida falsa, oca, demonaca.
 As mulheres veladas, a cortesia da palavra e do gesto,
o recato da alma preocupada com os seus temas, tudo
quanto em redor de ns, na India, seduzia e deslumbrava,
parecia-nos pertencer a outra idade, a outro tempo
humano.  O  Ocidente  era  um  grito  brutal,  no  meio
daquela msica.
 Mas Abhay Khatau ia mostrando seus quadros com
a mais  suave naturalidade.  Como um professor isento
de paixes, que expe a sua lio. E ele mesmo no
pensava em lio nenhuma. Pensava em cores, figuras,
ritmo, essas vagas invenes.

    78
    A ARTE DE NO FAZER NADA


Dizem-me que mais de metade da humanidade se dedica
 prtica dessa arte;  mas eu, que apenas recente e
provisoriamente  a  estou  experimentando,  discordo  um
pouco da afirmativa. No existe tal quantidade de gente
completamente  inativa:  o  que  acontece    estar  essa
gente interessada em atividades exclusivamente pessoais,
sem conseqncias teis para o resto do mundo.
  Aqui me encontro num excelente ponto  de observao:
o lago, em frente  janela, est sendo percorrido
pelos botes vermelhos em que mesmo a pessoa que vai
remando parece no estar fazendo nada. Mas o que verdadeiramente
est  acontecendo,  ns,  espectadores,  no
sabemos: cada um pode estar vivendo o seu drama ou
o seu romance, o que j  fazer alguma coisa, embora
tais vivncias em nada nos afetem.
 E  no  posso  dizer que  no  estejam fazendo  nada
aqueles que passam a cavalo, subindo e descendo ladeiras,
atentos ao trote ou ao galope do animal.
 H homens longamente parados a olhar os patos na
gua.  Esses,  dir-se-ia  que  no  fazem mesmo  absolutamente
nada: chapeuzinho de palha, cigarro na boca, ali
se deixam ficar, como sem passado nem futuro, unicamente
reduzidos quela contemplao.  Mas  quem sabe
a lio que esto recebendo dos patos, desse viver anfbio,
desse destino de navegar com remos prprios, dessa
obedincia  de  seguirem  todos  juntos,  enfileirados,  cl
obediente, para a noite que conhecem, no pequeno bosque
arredondado?  Pode  ser um grande  trabalho  interior,
o desses homens simples, aparentemente desocupados,
 beira de um lago tranguilo.De muitas experiencias
contemplativas  se  constri  a  sabedoria,  como  a
poesia. E no sabemos - nem eles mesmos sabem -
se este homem no vai aplicar um dia o que neste momento
aprende, calado e quieto, como se no estivesse
fazendo nada.
  Assim os rapazinhos que se divertem em luta violenta,
derrubando-se uns aos outros, procedem a uma avaliao
de  foras,  de  golpes  de  habilidade:  lies  de
assalto  e  defesa,  postas  em  prtica  espontaneamente.
Pode . algum  curso  ser  mais  interessante  do  que  este,
que encontra j os alunos vivamente dispostos a segui-lo?
 E aqui pelo salo fala-se de coisas que muitos julgariam
fteis: de jogos de cartas, do valor convencional
de ases e coringas . . . Mas os que assim conversam esto
de  tal  modo  necessitados  desses  conhecimentos  como
outros, neste mundo, de uma leitura filosfica ou cientfica.
No se pode, em s conscincia, dizer que no
estejam fazendo nada.
  Mesmo estas mocinhas que trouxeram para a vitrola
seus ruidosos discos americanos e ainda recomendam:
"Ponha bem alto!  Ponha bem alto!" -, embora conversem
de outra coisa e no prestem nenhuma ateno
 msica, esto escravizadas ao seu ritmo, que vo acompanhando
com os ombros, com as mos, com requebros
da cabea. No esto fazendo nada? Mas esto  disciplinando
a sua prpria cadncia;  esto  acertando pelo
compasso da poca (se  pior ou melhor esse compasso,
quem  o  ousar dizer?)  a  sua  prpria vida,  como  o
colegial que acerta, em pauta dupla, sua caligrafia.
  No, no;  estou desconfiadssima de que a tal arte
de no fazer nada no existe. Pois estas senhoras, certamente,
vieram para aqui a fim, de no se dedicarem
a coisa nenhuma: e eis que encontram trabalhos dobrados,
pois  a  cada hora do  dia  pensam em mudar  de
roupa e em se fazerem mais originais e mais bonitas. E
os  cavalheiros  que  as  acompanham,  com tanto  tempo
que gora tm  sua disposio, dedicam-se a gentilezas
e  solicitudes  que  representam  um  trabalho  meritrio,
sem dvida, mas  delicado e ininterrupto.  Quem falou
em frias, em descanso, em arte de no fazer nada?
As pessoas mais disponveis so as que vm tratar
da sade. Pois de manh cedinho j esto vestidas, a
caminho do balnerio, onde lutam com os seus clculos
e  alergias, em vigorosos  banhos, em duchas  e massagens.
E atravessam a manh ocupadas com o relgio, a
controlarem os goles d'gua de seus copinhos. E atravessam
o dia ocupadas com a sua dieta e o seu descanso,
de modo que seria grande injustia imaginar que
no estejam fazendo nada.
At as crianas, que gozam da fama de uma existncia
de contnua gratuidade, tentam,  tardinha, brincar
de roda, recitar versos, danar e cantar, o que lhes
custa um enorme esforo, pois as tradies vo desaparecendo.
E  tudo assim.  No vejo  nada inativo:  nem estas
nuvens  que  parecem  paradas,  nem  estes  passarinhos
que voam para o norte, nem o cavalo abandonado 
margem  da  estrada,  que  meneia  a  cauda  indolentemente.
Apenas, talvez haja um valor e uma hierarquia
nessas atividades. Mas quem sou eu, para defini-las e
recomend-las?

    81
    CARNAVAL DO  RIO


O  Carnaval   comea  a  borbulhar,  aqui,  certa  noite,
obscuramente,  no  negrume  dos  morros.    apenas  um
ritmo surdo, um movimento de arrulho que embala o
sono  dos  vales.  Prossegue,  prossegue,  palpitante,  na
sombra,  na  distncia,  como  um  corao  cansado  e
opaco num vasto corpo de silncio.
 Pouco a pouco, esse ritmo noturno se vai despojando
de suas franjas secretas, seu contorno vai sendo mais
forte e mais ntido, como se, deixando seus esconderijos
rasteiros,  se fosse libertando  da  pesada poeira  do
seu  nascimento.  E  ento  j  se  pode  acompanhar,  de
muito longe, aquele andamento invisvel e que adquire
ressonncia, que j no  uma simples cadncia montona,
mas uma construo de sons  que de repente se
entrelaam,  vo  baixando  e  recomeam,  no  alto  da
noite,  pelos  seus  densos  muros,  longas  inscries  gravadas
como essas que perduram nas edificaes muulmanas.
  Pouco a pouco,  tambm, vozes muito esguias  comeam
a elevar-se, como letras compridas e vistosas, nessas
prolongadas e fluentes inscries. So vozes vrias, que
tambm se enlaam, e chamam e respondem, e se dis-
persam na vastido da noite. De to longe, no se pode
entender o que dizem, mas sente-se o apelo, a ternura   ,
a melancolia do grico. E esse instante humano faz sonhar
com  tempos  passados,  com  a  envolvente  presena  de
uma boa gente negra, sria e generosa, ainda no desprendida
de seus compromissos  de ritos, de mitos, de
lendas, de fbulas.
Com a sucesso das noites,tudo vai ficando mais
claro: o ar adquire transparncia e os sons se aproximam
do  nosso  ouvido,  com  todas  as  suas  mltiplas
riquezas.  No  apenas  o  bater dos  tambores, o  ranger
das cucas, o martelar abafado das madeiras,  mas vibraes
de  metal, oscilaes, interferncias  de  vidro;  desenhos
agudos,  estridentes,  redondos,  prateados,  veludosos:
pssaros, sinos, insetos, comandados por um vigoroso
apito  que  atravessa,  repentino  e  imperativo,  a
compacta parede musical, porta de muralha que se abre
e logo se torna a fechar.
 Finalmente,  o  Carnaval  instala-se no  seu  dia.  Todo
ess  trabalho  preparatrio,  no  alto  dos  morros,  vem
fundir-se. nas  ondas  da  multido  exultante  que  transborda
pelas. ruas. Vemos os grupos, os blocos, os ranchos,
os grandes desfiles, os bailes. . .  Vemos de perto
as  roupas  de  seda  e  arminho;  escutamos  as  canes;
contemplamos estandartes, carros complicados;  ouvimos
narrativas de . enredos, explicaes, erudies . . .
 E  assim  o  Carnaval  transcorre,  entre  serpentinas  e
luzes, palmas de turistas, alegrias e tristezas de prmios:
uma grande festa desigual, onde o melhor e o pior se
misturam s.. cegas, num demorado delria monstruoso.
Mas o que fica no ar  uma cadncia, a pulsao de
um mundo e de. um tempo subterrneos, um sentimento
de vida surda procurando encontrar-se, desde um remoto
passado a um futuro muito vago, atravs de esfinges e
enigmas.

    83
    RABINDRANATH,
    PEQUENO ESTUDANTE


Ao longo da sua vasta e importante obra literria,
Rabindranath Tagore, sempre que pode, faz uma refernCIA
aos seus primeiros tempos de estudante. Partindo de
quem  partem,  essas  lembranas  deviam  ser meditadas
por pais  e professores, pois  representam a experincia
de uma criana maravilhosamente dotada, esforando-se
por libertar-se da rotina escolar, da memorizao e do
acLmulo  de  disciplinas  que  os  professores,  embora
zelosos, se esforavam por incutir-lhe.
 Quando um dia o menino chorou para ir  escola,
houve  quem Ihe dissesse:  "Hoje choras para ir,  amanh
chorars para no ir." E ele nunca esqueceu esse
prognstico, que mais  tarde consideraria acertadssimo.
A  escola  causou-lhe  muita  decepo.  Como  em  The
Parrot s Training, em que os sbios, para educarem um
pssaro,  a  primeira  coisa  que  acharam  necessria  foi
uma gaiola, tambm o menino se sentia infeliz no mundo
dos deveres escolares, longe de todas as belas coisas
da vida: o grito dos vendedores ambulantes, as meninas
felizes (que no iam  escola) brincando com caramujos
e conchinhas, as imagens familiares vistas da alta varanda:
os que fumavam, os que se penteavam, os que costuravam . . .
 Entre as histrias de bandidos, de animais ferozes, de
almas  do  outro  mundo,  e  os  cadernos  com  letras  e
nmeros,  o  pequeno  estudante  se  sentia  terrivelmente
dividido:  de um lado, era a vida, com todas as suas
peripcias, belas e tremendas; do outro, .o ensino: pginas
nas  devoradas,  como na histria  do papagaio,  nutrido
de  folhas  e  folhas  de  livros,  at  morrer  sufocado
enquanto l fora a brisa passava pelas rvores em flor.
  A histria do colegial Rabindranath Tagore no foi
propriamente brilhante, no que  se refere a essa capacidade
de absorver noe e armazen-las. Ao contrrio,
 pela sua resistncia  ao dos professores (que ele,
com to pouca idade, j sentia nociva e irracional) que
se caracterizam os seus primeiros tempos de estudo. Em
relao a um dos mestres, sua atitude chegou mesmo
a ser a de um grevista em puro estilo "gandhiano", pois   ,
sentindo-o  agressivo  e  injustamente  autoritrio,  passou
a no responder jamais s suas perguntas, mesmo quando
possusse  as  respostas  certas.
  Essas confisses de Tagore deviam ser meditadas por
pais  e  professores,  porque  suas  experincias  infantis
continuam a ser repetidas por toda parte. Por isto ou
por aquilo, ainda que nos sobrem conhecimentos pedaggicos,
falta-nos,  freqentemente,  o  sentido  "humano"
da criana. Que desejam as escolas? Transmitir conhecimentos?
Promover alunos? Praticar (ainda que com as
melhores  intenes)  o  comrcio  da  instruo?  Desenvolver
as  crianas para a vida, mediante o  aprimoramento
de suas faculdades, de sua vocao, de seu gosto?
  Que  esperam  os  pais  da  escola?  Algum  descanso?
Uma partilha de responsabilidades? Diplomas?
  So os adultos que decidem. A criana est entre as
suas decises, geralmente sem foras para se defender,
mas sentindo-se ameaada. E quando se fala de maus
estudantes    sempre  culpada  a  criana.  Preguia.  Vadiao.
Falta  de  inteligncia.  Distrao.  Desinteresse. Etc.
  Rabindranath Tagore, homem extraordinrio,  que  se
fez educador por amar as crianas, anotou suas amarguras
de  pequeno  colegial.  Falou-nos  de  seu  mundo
encantado, de sua vida potica ainda incomunicvel
em contraste com os mtodos e as finalidades do ensino,
no seu tempo. Isso foi h um sculo, e, por incrvel que
parea,  continua  a  ser mais  ou menos  como  era,  at
agora. As escolas so poucas, os alunos so muitos, os
professores no tm grande pacincia, o dever cumprido
calcula-se mais pelo horrio do que pelo devotamento
e a compreenso do  `fato humano',  as  crianas  esto
transtornadas por esses horrores do cinema, da televiso   ,
das histrias em quadrinhos   ue substituem a vida
que so a sua melanclica experincia, fora da mediocridade
cridade do ensino comum, e chegam a ser a sua libertao,
a sua poesia, o seu contentamento.
 Ah, meu pequeno Rabindra, como tudo piorou tanto!
O progresso cresceu, os livros  aumentaram, os programas
ficaram imensos, e a criana est muito mais engaiolada
na sua solido, cercada de muito mais problemas,
com a. voz do esprito abafada por muitas inutilidades.
Foi assim que o papagaio morreu. E em volta dele
disseram: "Que ingrato! To bem tratado!.  .   "

    86
    DIA DE SOL


Apareceu o sol, e eis-nos todos felizes, no porque os
dias de chuva no tenham seu encanto, mas porque j
eram muitas chuvas seguidas, e nem sempre  agrad-
vel andar pelas ruas molhadas, com os ps desgovernados
pela lama.
  Mas  bela a chuva a cair das goteiras, a pender das
folhas das rvores, a derrubar com o seu peso as campnulas
que  escorregam pelos  muros  e  que  tm  pingentes
gentes como um trancelim de ouro sustentando um diamante dgua.
  Amanheceu  o  sol novo:  um espetculo  diferente,  o
primeiro  dia luminoso  do  mundo. O  cu limpo,  uma
seda azul estendida de horizonte a horizonte. As rvores
muito bem lavadas,  com a folhagem polida,  mais
verdes do que antes, mais saudveis, com frondes mais
abundantes. (Tudo isso aconteceu enquanto chovia?)
  E  comeam  a  passar  muitas  borboletas  novas  tambm,
com seus vestidinhos de veludo;  oh , to lindas,
to  lindas,  para  to  pouco  tempo . . .  Vem  uma  toda
preta com listras amarelas e pousa no jasmineiro. Pousa
mesmo no nico jasmim que a chuva deixou ficar no
ramo, e  como se o estivesse lendo atentamente, lendo
aquelas  seis pequenas pginas  brancas  onde no  sabemos
o que estar escrito.
  S porque o  sol  apareceu,  tudo  se modificou.  Vieram
os meninos para a rua e comearam a brincar nas
caladas, e a moa descobriu at que os grilos saram
das suas tocas, e deu-me uma explicao a respeito dos
seus hbitos, das suas conversas, e as minhas ignorncias
sorriam tambm felizes com as alegres notcias do
mundo dos bichos.
 Continuaram a passar outras borboletas, e os pombos
que viviam escondidos  ali no beiral do vizinho alisaram
as  penas,  experimentaram  as  asas  e  romperam  a
voar por cima dos telhados, e foram bem longe, l para
os lados das palmeiras.
 Fiquei  muito  contente  com  esse  despertar  do  que
antes estivera refugiado, com medo da chuva.
 Os ces  que h tanto tempo no se faziam ouvir
comearam a ladrar para o sol, como se quisessem cantar.
Mas quem cantava mesmo eram as meninas que subiam
no bonde que leva ao Corcovado. Cantavam e batiam
palmas, e era uma festa por todo o vale. Descobri no
jardim flores que nunca tinham desabrochado, que no
sei como se chamam nem de onde vieram. E uma estava
sendo lentamente percorrida por uma abelha, e outras
continuavam libertando-se do peso da gua que em suas
corolas se acumulara.
  tardinha, visto que o mundo todo estava em ordem   ,
e at as coisas tinham aparncia feliz, resolvi ser feliz
 minha maneira, que  pr uma folha de papel na
mquina e comear a trabalhar.
 E assim me achava posta em sossego,  quando um
bem-te-vi galhofeiro de algum Iugar soltou o seu grito,
que parecia dirigido expressamente a mim, como uma
delicada provocao. E no tive mais tranqilidade, pois
a famlia dos bem-te-vis  muito numerosa e ruidosa, e
quando um comea a falar todos respondem, cada um
no seu tom, como se no concordassem uns com os
outros, o que  muito prprio das famlias mesmo no
numerosas. E foi assim, que, sem que eu os pudesse
avistar,  os  bem-te-vis  interromperam  o  meu  trabalho   ,
tanto gritavam as senhoras e os homens, as senhoritas   ,
os  rapazes  e  as  crianas  dessa  enorme  famlia.  Uns
estavam roucos, e devia ser ainda efeito da chuva. Talvez
vez todos quisessem sair, passear, ir ao cinema dos bem-te-vis,
aproveitando o dia de sol.
  Ento, resolvi ouvir as sonatas de Bach para flauta
e cravo - e a flauta cantava como um pssaro e o
cravo parecia uma grade de prata sobre a sua voz. E                                                 '
assim me  fui  entretendo  nesse  ouvir  e  interpretar,  e
o sol terminou a sua viagem, a noite envolveu-nos de
frio,  os  bem-te-vis  j  no  discutiam  mais.  Bach  reinava
sozinho e eterno, numa divina solido.

     89
     NO CREIAS NOS TEUS OLHOS   ..


Os  velhos  sbios  nos  ensinam  a  desconfiar  do  que
vemos. No basta ver para  crer:  somos  de  tal modo
sujeitos  a iluses  que,  alm  de ver,  convm-nos  verificar.
E Deus sabe se at no verificar acertamos!
 Pois  ns  estvamos  num restaurante em  So  Paulo,
quando  ainda  so  poucos  os fregueses  e  podem  ser
minuciosamente  contemplados,  e  o  meu  com anheiro
disse-me:  "Olha  o  belo  bandeirante  que  ali  est  sentado!
" Era mesmo o bandeirante queqns imaginamos,
grande e forte, capaz de subir e descer muitas montanhas
e atravessar muitos rios, sem fome, sede, sono ou
cansao. No tinha botas de sete lguas:  mas tambm
para  que,  com  tanto  nimo  e  disposio,  precisaria
delas?
 De costas para ns estava a sua companheira, toda
de seda azul vestida, com  uns longos cabelos soltos que
lhe  desciam  muito  abaixo  dos  ombros.  Achei  natural
que um bravo bandeirante trouxesse consigo uma formosa
ndia.  Essa  ndia  tinha  cabelos  longos  e  lisos,
mas louros como todo o mundo sabe que so os trigais,
e com esses reflexos preciosos que todo o mundo sabe
possuir o ouro, causa de to infinitas aflies.
 No  tenho  notcia  de  ndias  louras  no  Brasil;  mas
as mulheres sabem tantas coisas para se fazerem mais
lindas ou mais estranhas que talvez alguma entendesse
j, outrora, dessas artes que hoje sustentam em todo o
mundo a vasta e prspera corporao dos cabeleireiros.
Continuei a estud-la. A ndia loura comia com garfo
e faca,  muito  direitinho.  (Mas  as  mulheres  aprendem
tudo to depressa!) No devia estar saboreando nenhum
bracinho  de  criana,  pois  aquele  era  um  restaurante
srio, moderno, de pratos complicados. Nem seria paca
ou tatu o que a minha ndia loura comia com tanta
perfeio. Mas o prazer com que de, vez em quando,
apesar da faca e do garfo, lambia a pontinha do dedo
mnimo era uma prova indubitvel de que, com aquela
formosa cabeleira loura, tinha vindo mesmo da selva,
onde  os  passarinhos  e  borboletas  deviam  estar  morrendo
de saudades suas.
To ndia era a moa vestida de seda azul que, de
vez em quando, tirava os ps  de dentro dos  sapatos,
embora com muito jeito e civilidade; e o calor que lhe
devia estar causando aquele vestido era to grande que
s vezes  se abanava com o guardanapo.  Um pequeno
lapso  na  etiqueta;  mas  uma  confirmao  a  mais de
sua origem. E quando os seus louros cabelos, embora
to lisos e longos, me procuravam dissuadir dessa origem,
eu  recordava  todos  aqueles  franceses  que  andaram
aqui  pela  costa,  e  que  talvez  j  tivessem  dado
perucas louras aos ndios, em troca de sagis, ou fizessem,
com o pau-brasil, intercmbio de tinturas de cabelo.
Os franceses sempre foram famosos no assunto;  e
at hoje, nos mais variados lugares, quando um cabelereiro
de senhoras quer fazer publicidade de sua competncia,
batiza logo o  seu  salo  com um nome que
lembre a doce Frana.
 A moa tinha muitos berloques pelo pescoo e pelos
braos;  o  que estava perfeitamente  de  acordo  com  a
origem que eu lhe atribua. Pois no foram tambm os
franceses os primeiros a trazerem miangas e vidrilhos
para as jovens que to artisticamente se enfeitavam ao
longo destas praias,  sombra destas rvores, entre serpentes e flores?
  O bandeirante falava-lhe com a ternura de um pioneiro,
de um descobridor, de um andarilho em frias:
depois  de  tanto  escalar montanhas,  atravessar vales  e
rios, pensar  em onas  e  cascavis,    muito  agradvel
sentar diante de uma limpa e farta mesa, onde brilham
vidros,  louas,  metais,  e  saborear  coisas  complicadas,
com muito queijo e muito tomate, tendo ao lado a ndia
carinhosa,  que  meigamente  deixou  a  sua  taba,  a  sua
mandioca, e veio, por amor, fazer o sacrifcio de enfiar
um  vestido  (mesmo  de  seda  pura  e  azul  celeste)  e
acertar os seus ps, livres e  geis, em  sapatos  de salto
alto. Mas o amor faz prodgios, realiza impossveis. E
por um bandeirante assim! .
 Na verdade, as minhas consideraes eram um pouco
anacrnicas:  no  duvido  que  ainda  haja  muitos  bandeirantes
atravessando estes brasis com o mesmo fervor
de outrora; mas no sei se ainda h tantas ndias com
suas tabas e redes e mandiocas, como nos velhos tempos.
Aquilo deviam ser fantasias de carioca, pensando
no quarto centenrio do Rio de  Janeiro ...
 Foi quando chegou o nosso amigo  e disse, num sorriso:
Eu j venho bater um papinho com vocs:  pioneiro,
vou ali cumprimentar aquele casal italiano . . . "

    92
    FESTA


Entre muros brancos de fortaleza, o som do piano. A
sombra do piano projetada nos muros brancos, desconforme.
Duas mos pequenas fazem toda aquela msica,
rumorosa, grandiosa:  aquele oceano sentimental.
    um mundo de cravos vermelhos presos em fitas
douradas;  de rendas, de jias enormes.
  Os  parapeitos  derramam-se  para  a  noite,  para  o
espao,  para  a via lctea.  E  as moas  nos: parapeitos
so  outras vias lcteas, so  cometas  difanos, com  seus
longos vestidos vaporosos, seus cabelos em nuvem,  a
fosforescncia da sua ornamentao.
  Em toalhas  de  renda  com laos  cor-de-rosa,  iremos
comer manjar branco, com umas colheres de prata que
a luz fosca dos grandes lampies converter em longos
peixes esguios, de cauda blasonada.
  A  noite  clida  tem  uma  frescura  subterrnea,  em
redor dessa mesa descomunal, de um tempo de fidal-
gos  gigantescos,  treinados  em  cavalgadas,  caadas,  espadas
padas - mas  tambm com  certo  requebro lnguido,
fadigas  saudosas  de  linhos  macios,  cristais  lapidados,
cestas, leques, refrescos..
  A dona da casa  uma rainha de raa misteriosa,
toda enrolada em  seda branca  das espduas   ponta
dos ps. Com diadema de rosas e diamantes, continuar
sentada em seu trono - que  uma enorme cadeira de
balano - de onde acompanhar vagamente a apaixonada
cadncia do piano e o movimento geral da festa.
  E  uns  rapazes  de  cabelos  cetinosos,  com  grandes
olhos do sculo XVI, viro servir em frgeis porcelanas
nas um caf que perfuma o palcio, a ilha, o mar. E
com  o  caf, o  acar, o tabaco, as  bebidas  ardentes
recordaro que estamos num lugar de palmeiras e canavias,
com tapetes de areia morna franjada de espumas
verdes e azuis.
  um mundo de cravos vermelhos, de luzes antigas,
de espelhos suntuosos, por onde deslizam pessoas fora
do tempo, que ao som do piano se tornam completamente irreais.
 Do lado da terra, ouve-se o abafado planger da fonte   ,
em  sua  bacia  de  pedra.  Os  insetos  zunem,  estalam   ,
ciciam: h uma teia de msicas a estender-se na sombra:
 Do lado do mar, uma solido imensa, e o luar nas guas.
 H uma angstia de perfumes, uma excitao romntica,
uma  sensao  de  ternura  e  fatalidade,  como  se
esta noite fssemos todos morrer de amor.
 Mas  talvez  seja  apenas porque  o palcio  tem  estes
muros grossos de fortaleza, e em redor  a noite, e em
redor  o mar - e o piano canta uma espcie de melancolia
que transforma a festa numa cerimnia humana
muito pungente, sem nada do cotidiano, mas s de
memrias  e  desejos  essenciais.

    94
    ESCOLA  DE  BEM-TE-VIS

Muita gente j no acredita que existam pssaros, a
no ser em gravuras ou empalhados nos museus - o
que  perfeitamente natural, dado  o novo  aspecto  da
terra, que, em lugar de rvores, produz com mais abundncia
blocos  de cimento  armado.  Mas  ainda h  pssaros
saros,  sim.  Existem  tantos,  em  redor  da  minha  casa,
que  at  agora  no  tive  (nem  creio  que  venha  a  ter)
tempo de saber seus nomes, conhecer suas cores, entender
sua  linguagem.  Porque  evidentemente  os  pssaros
falam. H muitos, muitos anos, no meu primeiro livro
de ingls se lia:  "Dizem que o sulto Mamude entendia
dia a linguagem dos pssaros . . . "
  Quando ouo um gorjeio nestas mangueiras e ciprestes,
logo  penso  no  sulto  e  nessa  linguagem  que  ele
entendia.  Fico  atenta, mas no  consigo  traduzir nada,
No entanto, bem sei que os pssaros esto conversando.
  O  papagaio  e  a  arara,  esses  aprendem  o  que  lhes
ensinam, e falam como doutores. E h o bem-te-vi, que
fala portugus de nascena, mas infelizmente s diz o
seu  prprio  nome,  decerto  sem  saber  que  assim  se
chama.
 Anos e anos a fio, os bem-te-vis do meu bairro nascem,
crescem, brigam,  falam...  - depois  deixam de
ser ouvidos: no sei se caem nas panelas dos sibaritas,
se  arranjam  emprego,  se  viajam,  se  tiram  frias,  se
fazem turismo.  No  sei.
  Mas,  enquanto  andam  por  aqui,  so  pacientemente
instrudos por seus pais ou professores, e parece que,
to  cedo  comeam  a voar,  j  vo  para  as  aulas,  ao
contrrio  de  muitas  crianas  que  antes  de  irem  para
as  aulas j  esto  voando.
  Os pais e professores desses passarinhos devem ensinar - lhes
muitas coisas:  a discernir um homem de uma
sombra, as sementes e frutas, os pssaros amigos e inimigos,
os gatos - ah! principalmente os gatos...  Mas
essa instruo parece  que    toda  prtica e silenciosa
quase  sigilosa:  uma  espcie  de  iniciao.  Quanto  a
ensino oral, parece que  mesmo s:  "Bem-te-vi! Bem-te-vi!",
que uns dizem com voz rouca, outros com voz
suave,  e  os  garotinhos  ainda  meio  hesitantes,  sem
flego para trs slabas.
 Antigamente era assim. Agora, porm, as coisas tm
mudado. Certa vez, quando pai ou professor ensinava
com a mais pura dico: "Bem-te-vi!" - o aluno, prequioso,
relapso ou turbulento, respondeu apenas:  "Tevi!"
Grande  escndalo.  Uma  pausa,  na  verde  escola
area. "Bem-te-vi! Bem-te-vi!", tornou o instrutor, com
uma animao que se ia tornando furiosa. Mas os maus
exemplos so logo seguidos. E  a classe toda achou graa
naquela falta de respeito, naquela moda nova, naquela
inveno maluca e foi um coro de "Te-vi! Te-vi! Tevi!,
que deixou o prprio eco muito desconfiado.
 Essa revoluo durou algum tempo. A passarinhada
vadia pulava de leste para oeste a zombar dos mais
velhos.  "Bem-te-vi!",  diziam  estes,  severos  e  puristas,
tentando  cham-los    razo.  "Te-vi!  Te-vi"   ,  gritavam
os  outros,  galhofeiros,  revoltosos,  endoidecidos.
 Passou-se  o  tempo  necessrio  ao  aparecimento  de
uma nova gerao. E ento foi sensacional!  Os passarinhos
mais  recentes  ouviam  aquele  fraseado  clssico
dos  avs:  "Bem-te-vi!  Bem-te-vi!" - e deviam achar
aquilo uma lngua morta: o latim e o snscrito l deles.
Depois, ouviam a abreviatura dos pais: "Te-vi! Te-vi!"
Mas  acharam muito comprido ainda.  (Que  trambolho   ,
a famlia!) E passaram a responder, pr muito favor   ,
"Vi!  Vi!"  Muito  mais  econmico.  Afinal,  pelos  ares
no voam mais anjos e sim avies a jato...
 "Bem-te-vi! ", exclamam os ancios, com sua dignidade
ofendida.  "Te-vi!",  respondem  os  filhos  revoltosos.  E
os netos, meio chochos: "Vi!  Vi!"
 Quanto  aos  bisnetos,  vamos  ver o  que acontecer.
Talvez os professores mudem de mtodo. Talvez mude
o ministro. Talvez os tempos sejam outros, e a passarinhada
volte a ser normal, ou deixe de falar, s de
pirraa, ou invente - quem sabe?, - uma expresso
genial. E tambm pode ser que no haja mais bem-te-vis.

    97
    CENTENRIO DE OKAKURA
    KAKUZO

O  ano de  1962  foi rico de centenrios.  E nesse  ano
comemorou-se o de Okakura Kakuzo, um japons que,
entre  outros  estudos  sobre  o  seu  pas,  publicou  um
delicioso  livrinho  simplesmente  chamado:  O  Livro  do
Ch. No se trata apenas de uma informao histrica
sobre a origem e as diferentes formas de uso da antiga
e preciosa bebida, mas de um verdadeiro compndio de
civilidade, e de um pequeno manual de filosofia e de
esttica,  no  que  se  refere  s  cerimnias  que  o  Japo
criou, como um delicado rito, para o requintado prazer
de degustar uma taa de ch.
  Nesta  era  de  refrigerantes  vulgares  e  apressados,
falar na solenidade da etiqueta do ch, na importncia
da sala onde  servido, na cor e na qualidade da taa,
no  conhecimento  da  folha  empregada,  na  gua  e  no
seu adequado ponto de ebulio - parece um desperdcio
de  palavras  sobre  um  motivo  insignificante.  Ai
de ns!, que vamos perdendo a capacidade de apreciar
a sutileza das coisas,  que nos vamos  tornando pouco
a pouco brbaros, por uma vasta disperso no complexo
mundo que nos cerca. Mal sabemos parar e refletir. Mal
sabemos ver. As pequenas coisas no nos revelam mais
os seus doces segredos? Ou os nossos ouvidos endureceram
para a sua misteriosa voz?
  Com Okakura Kakuzo aprendemos que o ch  uma
obra de arte e que no seu servio h uma disciplina,
uma  harmonia,  um  ritmo  que  so  manifestaes  de
beleza exterior e interior;  e que o ritual japons  que
lhe foi  dedicado  representava  o  culto  da  pureza  e  do
#requinte  entre  o  dono  da  casa  e  os  seus  convidados.
Ambiente de luz discreta;  a msica da gua a ferver
num  recipiente  especialmente  preparado  para  poetizar
o som da fervura;  roupas de cores suaves completam
o sentido da arquitetura do Pavilho do Ch, cujo teto
de colmo sugere a fugacidade das, coisas, como a sua
fragilidade  e  leveza  esto  representadas  pelos  delicados
pilares e as traves de bambu.
  Essas condies  de evanescncia exprimem a que o
Japo fez do ch, desde que, de antiga medicina chinesa,
se converteu em bebida repleta de smbolo, "o
culto do Imperfeito":  por ser "um esforo para realizar
qualquer coisa  possivel nesta coisa impossivel que
sabemos ser a vida".
  Atravs  do  seu  livrinho,  Okakura  Kakuzo nos  oferece
rece a imagem de um Oriente gentil, atento a sentir a
"grandeza  das  pequenas  coisas":  essa  valorizao  do
pormenor, que exige tranqilidade e doura, e que o
Ocidente  vai  esquecendo,  assaltado  por  impulsos  bravios
e turbulentos.
  Na confuso dos dias de hoje, as pginas de O Livro
do  Ch  so  como um ltimo  convite   harmonia  do
homem consigo mesmo e com os seus semelhantes; elas
representam um ato de bondade, pelo que nos ensinam;
embora, depois da sua leitura, possamos sentir alguma
tristeza, diante do que vemos no mundo, sabendo o que
poderamos  ver.
  Na  sua  simplicidade,  este  livrinho  vale  por  muitas
obras  de maior pretenso.  E  basta para  dar imortalidade
a um autor que teve a sorte de viver o que deveria
ser o limite de bom gosto da vida humana: apenas
meio sculo;  de modo que, ao celebrar-se o seu centenrio
de  nascimento,  j  se  est  a  ponto  de  celebrar
tambm o meio centenrio de sua morte.

    99
    CHEGADA DA PRIMAVERA


No  podemos  andar  distrados;  mas  a  trepadeira  da
casa abandonada, de dentro do seu verde silncio, comea
a  oferecer  ao  dia  radioso  suas  grandes  campnulas
roxas,  delicadamente  modeladas  e  pintadas.
Tambm  os  lrios  amarelos  e  alaranjados  desenrolam
suas  sedas franzidas, lentamente,  cuidadosos, para que
no  se  rompam em  nenhuma  prega e  encham  de  estrelas
perfeitas  todo  o  jardim.  De  mil  arbustos  diferentes
vo aparecendo inflorescncias coloridas e perfumosas,
que  at ontem jaziam  adormecidas  no  segredo
dos  caules  e  das  hastes  e  agora  desabrocham  em  pequeninas
plpebras multicores.
  Jardins,  campos,  matas  sabem  que  chega  a  primavera.
As  obscuras  razes  preparam  esta  festa  floral:
seus  negros  dedos  diligentes,  mergulhados  na  umidade
do cho, catando na terra invisvel os elementos criadores
dores,  organizando  os  seus  diagramas,  obedecendo  
sua condio, expem agora  luz do sol e aos olhos
humanos  as  sutis  invenes  vegetais  que  nos  deslumbram,
mesmo sem refletirmos no que significam e de
que maneira se realizaram.
  Cada pequena flor  um reino maravilhoso,  diante
do  qual  paramos,  confusos  de  ignorncia.  Contemplamos
mos bem estes veludos e sedas que uma imperceptvel
transpirao  brune  de  transparente  prata.  Miremos  o
desenho  destas  finssimas  veias,  dispostas  com  perfeio
matemtica.  Pensemos  nestas  sutis  determinaes
da  vida  que  engendra  seus  jogos  imaginativos  numa
sucesso de nmeros certeiros, de exato ritmo, como 
da essncia de todas as coisas autnticas. A flor est
feita s de elementos indispensveis:  e parece apenas
um  sonho,  uma  fantasia,  um  extravagante  ornamento.
 msica, por  suas  leis  de harmonia;   poema, pela
inspirao de sua aparente estrutura. Mas em sua profundidade,
fundidade, em seus compromissos de origem  verdade,
cincia, sabedoria. Por um longo caminho vem at ns
dos abismos do Universo.  a imagem da Vida inexplicvel,
a representao do Nascimento.
 Assim chega a primavera. Abelhas e borboletas pe
netram  esses  recessos  de  plen,  pousam  nessas  coroas
de  ouro,  nesses  lustres   minsculos,  nesses  pingentes
frgeis.
 Uma cigarra que ia comear a cantar, deteve-se: no,
cigarra, ainda  um pouco prematuro o teu volumoso
canto. A hora  dos leves passarinhos, da diligente abelha,
da  inquieta  borboleta  silenciosa.  Cantars  no  ardente
vero:  que  apenas a primavera, de perfumosa
brisa.
              101



    101
    QUERIDA MUSICA


O Brasil revoltado levantou-se e os ares se encheram de
msicas militares. Fez-se no meu  corao uma grande
alegria:  abriu-se  um  claro  espao  nos  olhos  que  um
dia foram meus e a vida recomeou num compasso de
esperanas, que eram to ntidas e luminosas antes de
se  desgastarem  no  fio  contnuo,  corrosivo,  de  longos
acontecimentos.
  Ah!  Sim,  aquelas  esperanas  eram  a  prpria  felicidade
(sem esse nome, sem nome algum), quando ainda
se sabia to pouco da vda, do mundo e das idias, e a
existncia era uma espcie de sonho que se ia descobrindo,
com  a  aquisio  de  novas  perspectivas,  cada
dia, como de sucessivas varandas vo  sendo  avistadas
as distncias da serra at o horizonte, e do horizonte
adivinhadas at o infinito.
  Nessa hora maravilhosa dos descobrimentos intervm
Pedrina, musicalmente.  Em certos dias,  noitinha, as
bandas tomam assento nos coretos..Os instrumentos reluzem
e parecem enormes, enormes e de formas prodigiosas,
aos olhos inocentes das crianas. So objetos de
ouro, fantsticos: enrolados como cornucpias, uns; direitos
como espadas, outros; os msicos sabem o lugar
de cada som e, com dedos geis e bochechas que incham
e  desincham,  comeam  a  tocar  para  o  auditrio  que
passeia pela praa, que se detm sob as rvores, diante
do coreto,  beira das caladas...
  A sbia Pedrina conhece coretos, bandas, repertrios
e msicos. Tudo Ihe  to familiar como se tivesse vivido
sempre cercada por  aqueles  instrumentos,  conhecendo
o valor de cada um para a execuo  daquelas
marchas. Creio que para ela, para o seu plcido rosto,
sorriam, s vezes, os msicos de cara lustrosa, brancos,
pretos, mulatos, que tambm, na imaginao das crianas
no faziam nada mais em toda a vida seno tocar
as suas msicas e, uma vez ou outra, nos intervalos,
enxugar o suor, devagar, pela testa e pelo pescoo.
  As crianas  aprendiam aquelas msicas, que os meninos
assobiavam depois, ao longo das ruas, e as meninas
tentavam reproduzir inabilmente, soprando sobre
um pedao de papel de seda esticado num pente. Felizes
tempos!  Aqueles ritmos marcavam o andar, estavam
incorporados  ao  nosso  pulso,  comunicavam entusiasmo,
aprumo, alegria - e a vida parecia uma grande
festa, sob as vagas luzes da praa, quando todos sorriam
uns para os outros, sem motivo algum, apenas como a
indicao de uma  solidariedade humana e natural.
  Pedrina ensinava de ouvido as voltinhas que davam
as melodias, enroscando-se como cips, subindo e descendo,
em  graves  e  agudos;  e  frua  profundamente
aquele emaranhado de sons  de que se destacava uma
frase constante, altaneira e gloriosa, como convite para
extraordinrias  realizaes.
  As  crianas  iam para  casa  antes  que  as bandas  se
retirassem dos coretos. E, por serem crianas e sonhadoras,
imaginavam que a noite inteira os msicos ficavam
ali, com seus instrumentos dourados,  suas fardas
vistosas,  de largo cinturo  e que naquela pracinha
todos continuavam a passear e a sorrir, e que seria eternamente
assim.
  Mas no foi assim eternamente. Dos coretos, das festas
da igreja, das alvoradas aos generais, foram os msicos
desaparecendo. As modas foram sendo outras. As crianas
tambm.  As  crianas  antigas cresceram,  estudaram
muito,  perderam  aquela  ingenuidade  que  as  deixava
deslumbradas diante das msicas dos coretos  E Pedrina
diluiu-se entre as estrelas, com suas melodias cobertas
de sorrisos.
 Eis que, de repente, o Brasil se alvoroa e os ares se
enchem daquela msica de outrora e de sempre, com
suas volutas graves e agudas, sua cadncia nos vai conduzindo
por um mundo admirvel, onde tudo  perfeito,
onde as criaturas todas adquirem aquela bondade mansa,
aquela ternura de pocas mais amenas, quando todos
acreditvamos uns nos outros, e nos sentamos unidos,
amigos, irmos - e o futuro no era uma sombra indecisa,
mas um sol radioso  espera de nossa passagem.
  Querida msica a falar sem palavras, a deixar que,
com palavras  nossas,  a interpretemos.  Querida  msica
saudosa e incansvel, a chamar-nos para lugares felizes,
tempos felizes, a ressuscitar os que antigamente sopravam
de suas cornucpias de ouro, derramando alegrias,
e os que sorriam, extasiados, acreditando naquela proclamada
felicidade,  de  corao  tranqilo, num mundo
de puro amor. Querida msica! Por dentro dela aparecem
velhos e crianas, namorados, conhecidos, amigos,
a pequena luz da noite, e o sonho de ir caminhando,
nesse ritmo, para longe, para muito alto, sem adeuses,
pois  amos  todos  juntos  e  nem  podamos  pensar  em
separaes!

    104
    CANES DE TAGORE


Uma noite, na India, ramos quatro pessoas numa praia
absolutamente deserta, iluminada apenas pela claridade
do cu. famos andando em direo ao mar, sem sabermos
bem dos limites da areia e das guas. O som das
ondas e o pequeno arabesco branco da espuma conduziam
nossos lentos passos: e era como se fssemos pouco
a pouco saindo deste mundo.
Foi quando Maria, minha amiga recente, que aparecia
na noite envolta em seu sri branco e azul como
uma pequena santa;  Maria - minha amiga crist que
devia casar uma semana depois, sem que eu a pudesse
ver no dia do seu casamento - perguntou-me por que
no cantvamos um pouco: a noite era bela, a solido
profunda, e ns estvamos felizes naquele instante, como
se desde sempre nos tivssemos conhecido e tivssemos
sido amigos desde sempre.

(Neste lugar s de areia,
j no terra, ainda no mar,
poderamos cantar.)

A India  um pas de ritmos lentos e versos longos.
Suas extenses convidam a uma fala potica vagarosa;
mesmo quando as palavras so rpidas, a frase  prolongada
e  sustentada;  as imagens  acorrem,  deslumbradas;
como os grandes rios, como as rvores compactas,
a poesia indiana e  a sua msica tm uma  densidade
interminvel. Como o prprio giro da vida, no parece
haver,  para  elas,  terminao,  concluso,  fim - mas
sempre e sempre continuao, encadeamento, num movimento
circular sem interrupo.
  Embora  sentindo  tudo isso,  animei-me  a  cantar pequenas
canes populares, coisas despretensiosas do nosso
folclore, simples amostras do nosso ritmo e da nossa
melodia.
  Depois, Maria comeou a cantar. Cantava em bengali,
com aquela emoo que faz parte da msica oriental:
sua voz tnue, vaporosa, incorporava-se ao mar, s esttrelas.
E ali sentados na areia, longe de casas, de ruas,
de  todas  as  presenas,  amos  sendo  levados  pela  sua
voz ao longo da noite, ao longo do cu, ao longo do
mar.
  Eu  tinha traduzido  as  minhas  simples  canes.  Ela
traduziu-nos as suas. As suas eram de Tagore. Falavam
do  amor humano  e  divino,  e  guardavam  sempre  nas
palavras  aquela  dignidade  religiosa  que  caracteriza  a
obra do poeta. Ele escreveu a letra e a msica de tantas
canes,  que  parece  impossvel  a  riqueza  criadora  do
seu esprito. E essas canes circulam pela fndia toda,
de tal maneira o Poeta estava identificado com a sua
terra.  Talvez  muita  gente  nem  saiba  de  quem    a
cano que est cantando, aqui e ali, na imensido da
India. Mas todos encontram nas suas palavras a expresso
da sua vida.
  Recordei tudo isto agora porque, entre as celebraes
do centenrio de Tagore, ocorrido h dois anos, figura
uma  edio  de  cem  das  suas  cantigas,  acompanhadas
da  traduo  inglesa  e em notao  ocidental.  "Bendita
 a noite; bela, a natureza..." diz uma delas. E ouo
muito longe a voz de Maria
          na praia do fim do mundo
          que no guardar de ns
          sombra nem voz.

    106
    TDIO DE COMPRAR


Eu gostava daquelas casas comerciais que tinham orgulho
da sua tradio. "Fundada em  1850..." Faziam-se
as  contas:  "H  quase  um  sculo,  hein?"  E  sentia-se
certa  venerao  por  aquelas  prateleiras,  balces,  objetos.
Os prprios donos e os seus empregados pareciam
vir da mesma data  da fundao, pelas  suas  maneiras
to pacientes e corteses, pelo seu gosto de explicar aos
fregueses as qualidades e vantagens da mercadoria com
que lidavam, misturando ao seu interesse de comerciantes
um carinho de artista e de namorado.  J existiu
gente assim!
  J existiu gente assim! - e sua histria sem brilho
nem estardalhao no d para uma epopia, mas serve
para alimentar a secreta poesia das crianas que tiveram
ocasio de ver esses adultos, discretos e afveis, que ensinavam
a admirar suas louas, seus perfumes, seus tecidos,
que estabeleciam, entre a sua pessoa e a do comprador,
uma  comunicao  amistosa,  e  at  por  vezes
esttica e erudita, diante de um livro, de uma gravura,
de uma jia.
  Essa  gente  tinha  um  ar  extremamente  modesto
como ainda tem, nos lugares do mundo onde pode ser
encontrada.  No  tinham  pretenses  de  vestir  nem  de
se  aformosear.  No  eram  eles  que  estavam  em  jogo,
mas  os  produtos  da  sua casa.  Apagavam-se,  para que
esses artigos brilhassem;  e devia ser grande amargura,
na sua vida, no encontrarem com que seduzir o comprador exigente.
  Hoje, onde se encontram, por aqui, as casas tradicionais?
Onde est o chapeleiro que tire com um gancho,
l do alto, l de cima, a caixa onde vai aparecer o mais
belo chapu do mundo? Onde est o livreiro que possa
dar um pequeno curso de literatura para recomendar ao
cliente o autor que Ihe convm? Onde est o vendedor
de cristais extasiado com a transparncia de seus copos,
com a esbelta linha de suas compoteiras e fruteiras?
 Agora as lojas duram o tempo de uma pequena aventura.
At as ruas se tornam desconhecidas por essa incansvel
mudana das casas comerciais. Que se encontra,
nas lojas? Nunca o que se procura. As vitrines so chamarizes
de coisas inexistentes. O que ali se exibe j est
vendido,  no  h  outro  igual  nem parecido,  talvez  se
receba na semana que vem, mas no  certo... Os jovens
vendedores  esto  preocupadssimos  com  o  seu
clube, e desejam ardentemente que no aparea nenhum
fregus importuno que interrompa a sua conversa com
o companheiro. As jovens vendedoras esto preocupadssimas
com seus cabelos, com suas unhas, com seus
amores, e nunca entendem a linguagem de quem fala.
"A senhorita no ter isto mesmo em azul?" "Devo
ter..." E cantarolando vai buscar displicente uma coisa
que alm de ser outra  amarela.
 Que tdio, comprar!  Que aborrecimento!

    108
    DA GULA BEM TEMPERADA


As pessoas  que,  por  qualquer motivo,  se  encontrarem
em severo regime alimentar, devem procurar ler velhos
livros de culinria para se distrarem com as apoquentaes
das  complicadas  receitas  de  outros  tempos.  A
lista  dos  ingredientes  j  nos  deixa pensativos,  comparada
s restries de hoje, e s peculiares restries de
cada um. Fica-se, depois, sem saber de onde sairiam os
artistas capazes da execuo de pratos to difceis. E,
finalmente, ocorre-nos a pergunta: como podiam os convivas
desses banquetes sobreviver a to tremendas provas?
 certo que neste livro que vou folheando j encotro
esta observao (no direi potica, mas rimada):
"Bolos  podres  e  d'ovos  massapes,  /  Perdoa-se  at
trinta indigestes."
  Este  o Cozinheiro Imperial, no muito antigo, pois
apareceu  em  1840,  e muto  apreciado,  pois  em  1890
alcanava a dcima primeira edio, o que, para o seu
tempo, era bem significativo. E o que ento se entendia
por um banquete, com tantas sopas e perdigotos e pombos
e patos, vitelas e cabritos, empadas e perus, lombos,
salpices e coelhos, perdizes e tutanos, deve deixar estarrecidos
e humilhados os glutes de hoje, sem falar
nos  manjares,  tortinhas, bolinhos,  pastis, melindres  e
biscoitos com que terminavam essas festivas reunies em
redor das imponentes mesas.
  O autor (que se escondeu sob trs iniciais), alm da
arte da cozinha - talvez at mais difcil... -, tinha
suas inclinaes para a arte literria; de modo que, com
alternativas de inspirao, entremeava suas receitas de
conselhos ou observaes em verso, que deviam divertir
imensamente os nossos bons avs, ainda isentos destas
grandes tenses que ora devastam o mundo. Assim, depois
de ensinar a preparar um doce de flor de laranja,
o  autor recomenda que o  deixem esfriar  e  o  sirvam
"Na primeira ocasio / Que aparea um goloto"! Seu
vocabulrio seria muito apreciado pelos realistas de hoje:
"As Argolinhas  d'amndoas,  /  Dos  gros  as  Empadinhas,
/ Os gostosos Esquecidos, / So s tripas mararavilhas.
" Mas s vezes o autor se faz muito galante, e
diz, ao falar de uns bolinhos chamados "raivas":  "So
raivas, sim, porm que nos do gosto,  /  Quando por
mos d'anis  seu composto."  (Pode  no  ser  muito
claro, mas  compreensvel. E os poetas, sobretudo os
(culinrios,  devem  ser  adivinhados  e  subentendidos...)
Gosta  igualmente  de  trocadilhos,  quase  no  estilo  dos
concretistas,  pois,  ao  falar  do  doce  "fartes",  diz  isto:
"Tanlos comas que te fartes, / E sem ser cousa de espantos,
 / De fartes farta a barriga, /  Festeja a festa
dos santos."
 Mas essas delicadezas rimadas (salvo erro no folhear
o livro) o autor as associava s sobremesas, que talvez
lhe  parecessem  a  parte  mais  potica  dos  banquetes.
Havia,  porm,  invenes  diversas,  to  longas  de  executar
que se imaginaria um mundo especial, s de cozinheiros
limpando,  aparando,  temperando,  refogando,
assando, fritando, cozinhando, dentro de enormes labaredas
ou sobre adormecidas brasas todas as espcies de
alimentos que se encontram, com maior ou menor facilidade,
ao alcance dos homens. Mas uma das receitas que
mais me impressionaram foi o "Guisado particularssimo",
que comea numa azeitona e acaba num pavo.
Recheia-se a azeitona com alcaparras e anchova, e com
ela se recheia um passarinho. Com ele se recheia uma
cotovia, com a cotovia um tordo e com este uma codorniz.
Assim se vai continuando, a codorniz num pardal,
o pardal num perdigo, depois uma galinhola, uma franga,
um  pato,  um  faiso,  um  ganso,  e,  por  fim,  um
pavo. Os vazios so recheados com cogumelos, tudo
 cozido numa caarola com muitos  temperos,  e leva
essa mistura,  ao  fogo, nada menos  de vinte  e  quatro
horas. O maravilhoso seria que, posto o prato na mesa,
ou na bandeja do copeiro, comeassem as pobres aves
a ressuscitar, uma aps  outra,  e  voassem e  cantassem
segundo a sua condio. Mas a receita no fala nisso.
O prato era mesmo para comer. E no sei como seria
trinchado. Tem-se a impresso de que o autor estaria
familiarizado com essas engenhosas esculturas  de marfim
que se fazem no Oriente, e que saem uma de dentro
das outras, como, nas Mil e Uma Noites, e em outras
colees orientais, as histrias tambm vo sendo
geradas umas  das outras,  numa interminvel  sucesso.
  O autor ensinava tambm a fazer refrescos e sorvetes
e  com uma dessas receitas que termina o livro, fechando-o
com dois  versinhos gentis:  "Meigo e doce,  aqui
dou meu fim, / Chorai, golosos, que gostais de mim!"
  Ns,  os  no  golosos,  sorriremos,  despedindo-nos  do
"meigo e doce" livro. Que pensaria o autor, se visse os
netos  dos  seus  velhos  leitores  comendo  sanduches  e
cachorros-quentes?

    111
    OS SALTIMBANCOS


"Desde que os saltimbancos entraram na nossa aldeia"
disse-me a triste mulher, "no nos entendemos mais. As
crianas  foram  as  primeiras  seduzidas:  no  querem
mais saber de escolas nem de livros, puseram-se a rodar
em torno daqueles carros, todas querem agora subir
por cima de cadeiras e mesas, trepar em mastros,
fazer mgicas com as mos e andar na companhia de
ursos  e macacos.
 "Os rapazes e as moas, que trabalhavam com ateno
e  se  divertiam  com  muita  gentileza,  no  querem
saber  de  uma  coisa  nem  de  otra:  acham  melhor  a
aventura,  querem  subir por  trampolins,  dizem  que  se
ganh  muito  mais  dinheiro  com  essas  facilidades,  e
acham que a vida no tem sentido nenhum, e que a
felicidade  ganhar e gastar dinheiro apenas. Nem h
mais namorados, o casamento - dizem eles -  um
costume fora  da moda;  o lar   uma trabalheira  sem
fim.  Todos aderiram aos  saltimbancos,  querem dormir
em  tendas,  debaixo  de  toldos,  em  cima  de  qualquer
pedra ou de um saco de palha: qualquer coisa que no
se  precise  limpar nem cuidar.  Querem dormir todos
juntos,  em  promiscuidade  (acham  que    fraternidade),
sentem-se  muito  bem  na  imundcie  e  j  nem
catam os piolhos, porque isso   uma  grande  maada.
 "Os homens maduros, que deviam ter mais juzo, coam
a  orelha,  perturbados.  Eles  no  querem  que  os
mais moos tomem a dianteira, nem esto dispostos a
trabalhar pelos que agora querem ser palhaos. No 
que eu concorde:  mas l do seu ponto de vista, acho
#que tm razo. Porque os filhos, que se fizeram assim
marotos, quando lhes aperta a fome ou a canseira, aparecem
pela casa, e, como se fossem eles os seus verdadeiros
donos,  pem-se  a  fazer  contas  assim:  "  pai   ,
aquele  seu  relgio  dava  uns  bons  cobres...  aquela
mala,  aquela  prateleira,  aquela  cmoda..."  Reduzem
tudo  a  dinheiro,  como  num  leilo.  E  diante  daquele
inventrio,  os  mais  velhos  ficam  com  a  pulga  atrs
da  orelha,  vendo  que,  ainda  vivos,  j  esto  assistindo
s partilhas que se costumam fazer depois da morte.
Pois ento  melhor fazer de morto, e no trabalhar
mais.
    "Agora os velhos, sabendo que vo morrer daqui
a pouco, crem mais divertido contemplar o espetculo,
embora um ou outro lamente que os seus filhos e netos
achassem melhor ser saltimbancos do que ter um ofcio
mais til e mais honrado. Mas os filhos e os netos
vo  embromando  os  velhos:  `No  pense  assim,  vovozinho;
agora,  os  tempos  so  outros;  ganha-se  muito
mais  equilibrando  um prato  no nariz que martelando
o metal para fazer o prato!' O av fica meio triste,
porque  a nossa aldeia fazia os mais belos pratos  do
mundo. E pergunta: "Tu tambm fazes dessas pelotiquices?"
O neto responde: "Eu no: eu falo para o povo."
"E que dizes?" "Conto mentiras. Quanto mais impossveis
as mentiras, mais o povo gosta. Riem-se como loucos,
batem com os ps, uivam... Gostam muito, mesmo. Se
me  pudessem  pr  as  mos  em  cima,  destroavam-me
com beijos e abraos!".
  "As vezes, algum avozinho diz:" "Como est diferente
a aldeia!  ramos to srios, to bons!  Como foi que
mudamos tanto?" Depois  que se lembra: foram os saltimbancos!
Os  saltimbancos  comearam  fazendo  algumas
graas.  Depois,  tomaram  conta  da  aldeia.  Agora
que j  ningum  quer  trabalhar,  como  iro  viver?  De
pilhagem?  preciso enxotar os saltimbancos, dizem os
velhotes.
 "Mas os rapazes e as crianas esto fazendo barricadas
para os saltimbancos no deixarem a aldeia"
disse-me a triste mulher, sentada  porta da sua triste
casa.

    114
    JARDINS


No posso esquecer os jardins da India:  o do palcio
do governo, o da casa de Nehru, o do Hyderabad Palace,
onde moravam os visitantes oficiais. Desenhos de
canteiros entrelaados de pequenos canais, jorros d'gua,
flores  nunca  vistas  no  Ocidente,  trepadeiras  perfumosas
por cima dos muros, lagos com ltus: um primoroso
mundo de cores de que so plidos retratos os mais
deslumbrantes tapetes.  E os jardins pblicos, to freqentados
pelas  famlias,  com  as  crianas  extasiadas
diante  de  flores  to minuciosamente  inventadas,  e  de
pssaros  mansos,  que  no  receiam  nenhuma  agres-
so, e no abandonam os seus lugares quando algum
aparece.
  No posso esquecer tambm as flores extraordinrias
da Holanda, de cores imprevistas, de inesperado tamanho,
e que esto sempre s janelas, sob o ngulo das
cortinas cruzadas, como esto at nas reparties pblicas
e em certas vitrines, compondo quadros  surpreendentes:
quem pode esperar que um aougueiro exponha
uma pea de carne colocando-a, com grande sensibilidade
artstica, ao lado de um vaso de flores revoltas,
que logo nos fazem pensar em Van Gogh?
  Na Holanda, como no Oriente, h quem saiba verdadeiramente
amar as flores. Em algumas cidades, as paredes
que margeiam os canais tm espaos para flores:
por  l  ficaram  muitas  vezes  meus  olhos,  encantados
com essa delicadeza, esse amor, esse respeito. Algum
ousar jamais tocar nas pequenas flores dos canais da
Holanda?
  Muita gente prefere, nos Estados Unidos, as grandes
cidades, com suas construes gigantescas, o cimento e
o ao sustentando a imponncia de arranha-cus e pontes,
na orgulhosa demonstrao do que o homem  capaz
de construir. Mas, nas cidades menores, h milhares
de  jardins  deliciosos,  com  as  mais  variadas  flores  e
ainda as experincias de flores novas de que as pessoas
se ocupam com o maior carinho.
  Os jardins do Rio vo tristemente desaparecendo. As
casas que os possuam vo sendo substitudas por outras
construes e cada palmo de terreno anda to valorizado
que  difcil encontrar quem o defenda para
domiclio de uma planta. Assim, quem amar flores venha
contemplar nas vitrines das lojas essas frgeis maravilhas
que brilham to poucos dias mas. nos causam alegrias
imortais.  E  no  moram  apenas  nos  olhos  tais  alegrias,
mas  na  memria  profunda,  de  onde  s  vezes
assomam, com a cor, o perfume, a graa que lhes pertenceram.
A sensao de beleza, o sentimento de perfeio
que residem na harmoniosa arquitetura das flores
so lies para a vida humana. Pudssemos ser tambm
assim, to exatos como as flores em suas ntalas. to
silenciosos  na  realizao  de  um  destino  impecvel,  e
to prontos para morrer no momento justo! Pudssemos
ns dispor dessa capacidade de comunicao tranqila,
desse dom de mensagem sobrenatural que as flores possuem
e que nos arrebatam deste mundo  superficial  e
nos transferem para lugares mais distantes, mais altos,
de onde avistamos tantas paisagens humanas e divinas!
  Tudo  isso  me  ocorre  porque  estou  diante  de  uma
flor. De uma simples flor, fiel  sua genealogia,  sua
linguagem, ao seu prazo de vida. O momento da sua
durao tem muitas profundidades: tneis que me levam
para  muitos  lugares,  muitas  pessoas,  em  tempos  diferentes.
Enquanto admiro a flor solitria, e justamente
a posso  admirar melhor pela  sua  slido,  vem-me  
lembrana a histria do japons que cultivava crisntemos.
(Isso  foi  num  jardim  do  passado,  um  jardim
muito longe, cuja realidade j se converteu em smbolo.)
Estava o jardim cheio de crisntemos, de tal maneira
cheio de crisntemos, que um homem da corte,
ao v-lo, cai em deslumbramento, e avisa o jardineiro
de que vai trazer o prprio  Imperador para admirar
as suas flores.
  Vem, pois,  o  Imperador admirar os  crisntemos  de
um jardim. Lamento no poder descrever a sua chegada,
com o seu squito, com todo o belo cerimonial que
deve cercar um Imperador que, ao invs de pensar em
batalhas, guerras, sangue, majestosamente se dirige para
esse jardim de cujas flores  teve notcia.  Imaginem os
senhores tudo isso, e a curiosidade dos que o rodeiam,
e o antecipado prazer desse instante de beleza que cada
um deseja e adivinha.
 Mas o jardineiro pensou que aquela profuso de flores
era excessiva, e impediria a viso exata da beleza
de cada uma. E tranqilamente foi cortando as menos
perfeitas,  e  deixou  uma  nica,  a  mais  bela,  a  mais
digna de ser admirada pelo seu Imperador.
 Assim  estou  (guardadas  todas  as  distncias),  diante
da minha flor solitria, que resume, na sua simples presena,
muitos ramos, muitos jardins, muitos campos floridos.
E contemplo-a com muito amor, porque amanh
certamente j teremos outro rosto; e ela no sabe, mas
eu sei o que , sobre qualquer rosto, a passagem de
cada dia.

    117
    O TEMPO E OS RELGIOS


Creia-se ou no, todo o mundo sente que o tempo passa.
No precisamos olhar para o espelho nem para nenhum
relgio:  o tempo est em nosso corao, e ouve-se;  o
tempo  est  em  nosso  pensamento,  e  lembra-se.  "Vou
matando o tempo, enquanto o tempo no me mata"
respondia-me na India um grande homem meu amigo,
cada vez que Ihe perguntava como ia passando. E aquele
menino Amal, da deliciosa pea de Tagore, imaginava
que o guarda  que fazia as horas, quando batia no
gongo: que quando o gongo soava a hora aparecia.
  Em todo caso, esses so os tempos grandes. O tempo
pequeno    o  dos  nossos  relgios.  Esses  altos  relgios
que em todo o mundo batem as horas, inteiras e partidas
em metades e quartos, so uma voz de alerta, um aviso
inquietante mesmo para as simples coisas de cada dia:
o  horrio  de  trabalho,  dos  transportes,  dos  mltiplos
compromissos humanos.  Para os estudantes  que preparam
exames, para os doentes que no sabem mais de
quanto  tempo  ainda  dispem,  a  msica  dessas  torres
deve ser uma angistia ainda maior. A prpria voz das
esperanas e  dos adeuses.
  Agora pode-se ouvir o tempo  anunciado  at minuto
a minuto, o que  muito cmodo para acertar relgios.
O inconveniente  saber-se quantos anncios comerciais
podem caber num minuto, quantas palavras podem ser
pronunciadas em to curto tempo, e enfim o automatismo
de que ficaria possudo o homem-relgio se tivesse
de ficar toda a vida nessa funo.
 Felizmente, nem todos que pensam no tempo se lembram
do relgio, e, por estranho que parea, nem todos
que pensam no relgio cuidam do tempo.
 O moo perguntou-me:  "A senhora esteve em Braslia?"
Apenas  porque  o  vidro  do  meu  relgio  estava
nublado como um cu de chuva. Mas no, era poeira do
Rio. Enquanto esperava pela limpeza, observei os vrios
problemas de outros relgios.
  "Isto  uma pea muito fina, de estimao" - dizia
um senhor cuidadoso. "Acontece gue eu tenho este relgio"
(e exibia o que levava no bolso), "que tambm
 uma pea muito fina, igualmente de  estimao.  Por
isso, no uso o outro. Mas trato muito bem dele. Dou-lhe
corda todos os dias, como se o usasse. De trs em
trs  meses,  fao  uma  verificao."  O  moo  deve  ter
ficado comovido com essa histria. Porque  um caso
de amor, e um caso em que, por amor, o homem se
converte em relgio do relgio.
  Havia  casos  banais:  mocinhas  que  perderam  a  pxola
do relgio; outras que trocam a pulseira porque a
moda  outra - nesses casos o tempo no tem nada
com o relgio nem as donas sabem muito bem se o relgio
serve  para  marcar  o  tempo.  Dentro  do  mesmo
grupo estava o casal de caboclos descontente com o relgio
da sala de jantar. Casal progressista, que descrevia
a moblia nova e se alongava nas razes pelas  quais
aquele  relgio  escuro  parecia  feioso  com  os  mveis
claros que acabava de adquirir. A esses s interessava,
na verdade,  a caixa do relgio.  (Pensei numa empregada
de outrora, que se guiava pelo cu, e um dia, chegando
tarde  ao  servio,  pediu-me  muitas  desculpas:
"Hoje, a estrela me enganou...")
 Duas velhinhas levaxam para consertar o relgio tradicional:
"Tem mais de cem anos" - dizia uma. "Ora   ,
muito mais!" - acrescentava a outra. E explicavam ao
moo:  "Imagine o senhor que nossos avs ainda eram
vivos!" E uma esclarecia: "Na fazenda!  Ns vnhamos
fazenda de caf!"
 Depois, havia a senhora inconsolvel, que ganhou de
presente o seu bonito relbgio de ouro. To bonito, todo
enfeitado. Andou dois dias --- e parou. Ali estava na
palma da sua mo, como um passarinho morto. E ela
quase em lgrimas, esperando, confiando no moo
com aqueles ares de mdico, assim de uniforme branco,
assim  de olhos penetrantes -, pedindo-lhe  a  ressurreio
do relogiozinho...
  Finalmente, houve o jovem marujo nacional, todo engomado,
com a sua brilhantina e o seu dente de ouro,
aguardando que acabassem as queixas  do desportista,
muito zangado,  porque  o  seu  relgio   prova  d'gua
entrou pela piscina - e pronto! -, no funcionou mais.
Dava  socos  na  tampa,  levava  a  mquina  ao  ouvido.
"Veja!  escute!  no anda!  no presta.. " O moo explicou
tudo, etc., e ento o marujo com toda a delicadeza,
toda a graa e exatido de uma natureza sensvel,
disse baixinho:  "Este meu relgio est ntrasando meio
minuto em vinte e quatro horas."
  Ora, esse sabia o que era o tempo, levava o tempo no
seu relgio. Devia saber das estrelas que s vezes enganam,
do mundo que engana sempre, e da vida que no
engana jamais.

    120
    ARAGEM DO ORIENTE


Estes dias de cancula trazem-me  lembrana os meses
passados na  fndia, com o termmetro ainda mais
alto que o nosso e nenhuma promessa de chuva antes
da estao prpria. Em alguns lugares, a paisagem tornara-se
de  um  cinzento  esbranquiado - ossos,  cal,
cinza. O peso do sol era o peso do cu. Diziam-me:
"Quando chover, fica tudo verde."
  Mas o indiano tem o prazer do ar livre. Os belos
jardins pblicos esto sempre povoados de famlias que
espairecem, passeiam, contemplam as rvores, admiram
as flores, maravilham-se com os jorros d'gua, os lagos,
a sombra, as cores. . . Ao ar livre trabalha muita gente:
barbeiros, costureiros, latoeiros... Ao ar livre fabricasse
e vende-se, brinca-se, estuda-se, medita-se.
  As casas  foram pensadas para um clima  assim. Os
aposentos muito altos so rasgados por amplas janelas,
grandes portas, e por cima delas, quase junto ao teto,
ainda  se  vem  aberturas  que  facilitam  a  ventilao.
Portas  e  janelas  so  para  estarem  abertas,  no  vero,
protegidas s vezes por leves cortinas, ou por esteiras
que  costume molhar para favorecer  a frescura  do
ambiente.  H  palhas  perfumosas,  que,  molhadas,  recentem.
Fazem-se tambm  quiosques  de palha tranada,
em alguns lugares e nas casas modernas existem,
naturalmente,  grandes  ventiladores  suspensos  do  teto.
O resto so varandas, cortinas que se levantam  menor
brisa, e repuxos: ar e gua, que com o rumor de seus
jogos consolam e refrescam.
  Por outro lado, a vida indiana  simples e plcida. A
comida, leve, quase sempre reduzida a legumes e arroz,
um pouco de peixe ou de ave. Muitas frutas: as mesmas
frutas brasileiras que nos d.o a impresso de no termos
sado  da  terra:  caju,  manga,  cocos,  tamarindo,
goiaba... E, finalmente, leite, coalhadas, queijinhos moles, creme.
  Como o sol, a certas horas,  insuportvel, h trabalhos
que comeam muito cedo, no campo; e nas horas
mais quentes do dia um grande sossego de sesta envolve
a  natureza  e  as  criaturas,  pxincipalmente  nos  lugares
pequenos, onde  a vida  menos intensa.
  A vestimenta tpica  dos  indianos, homens  e mulheres,
alm  de  sua grande beleza,    a mais  inteligente
que se possa usar tambm no vero. O sri  um longo
pano (que pode ir de simples tecido de algodo  seda,
e  gaze mais primorosamente ornamentada)  com que
a mulher indiana faz, rapidamente, uma elegante saia,
sem costura nem qualquer espcie de prendedores, ajustando-o
ao  corpo,  pregueando-o,  fixando-o  ao  cs  da
angua, deixando uma ponta solta, como charpe, que
pode cobrir a cabea ou envolver ombros e busto, por
cima da blusa.
  O  vesturio  tradicional  dos  homens    aquele  que
Ghandi tornou conhecido no Ocidente:  um sistema de
panos  brancos  e  flutuantes,  formando  cales  amplos
e manta para as costas. Nem todos os homens se vestem
assim, nem em todas as circunstncias, mas os que
sabem  trazer  esse  tipo  de  indumentria  imprimem  
paisagem  indiana  uma  nota  de  inesquecvel  autenticidade.
Sandlias  recortadas  de variados modos  completam
esse guarda-roupa. E s de olhar para as vestes de
qualquer  pessoa,  para  esses  tecidos  to  sensveis  que
se franzem  menor brisa, pode-se ver se h calmaria ou
se algum vento se esboa.
  Como  os  indianos  so normalmente  abstmios, mesmo
em ocasies de festa as bebidas, de suco de frutas,
so  verdadeiramente  refrescantes.  E  as mais  belas  recepes
so, sem  dvida, ao  ar livre, nos jardins, entre
as rvores, s vezes com tendas graciosas armadas, para
facilitarem o servio. Quando o jardim  o do palcio
presidencial,  todo  recortado  de  canteiros  entremeados
dgua, com repuxos inmeros, e todo bordado de flores
como um tapete, e quando a festa  uma data nacional,
no h salo que se possa igualar a esse ambiente
de flores, guas irisadas, bebidas perfumosas e
coloridas, e o fulgor das roupas orientais, de tons intensos e lmpidos.
   noite, dorme-se nos terraos, nos jardins, nas varandas,
na rua. Uns dormem  pelo  cho,  em  esteiras,
outros nessas camas de vento (na verdade, de vento.. .)
sem colcho, apenas com um tranado de cadaros em
lugar do estrado. Os estrangeiros pensam que se dorme
na rua s por pobreza, mas no  bem verdade. H
quem transporte sua cama para o lado de fora da casa
a fim de aproveitar a fresca da noite para o repouso.
E pergunto-me se haver muitos lugares, hoje, no mundo,
em que um mortal possa dormir tranqilo ao  ar
livre, sem que outro mortal lhe venha tirar pelo menos
lenol ou o travesseiro.

    123
    FLORES DA  CAULINHA


Caulinha, Caulinha, recorda o tempo das flores, quando
flores eram tambm os teus olhos, ainda mal recebendo
as vises do mundo. Tempo da capa de fusto,
com seu capuz, tudo  aveludado por  dentro,  do  colo
morno  da  bab  Pedrina,  da  subida  da  ladeira,  rente
ao muro. O grande luar que tornava a noite muito mais
bela que o dia, com o enorme silncio sobre as casas
fechadas. A brancura pelos telhados, pelas paredes, pelas
caladas. Uma grande brancura que a janela deitava
no assoalho e querias apanhar cozz as duas mos, supondo
poderes levantar como um guardanapo.
  Ah! Caulinha, como a noite  bela para a infncia,
com grandes campnulas brancas soando perfume por
cima dos muros,  com os jasmineiros  abrindo estrelas
na terra, estrelas sem brilho, diferentes daquelas altas,
na noite deslumbrante!  E adormecer com uma flor na
mo, sob a alvura do cortinado, com os mosquitos tocando
seus violinos imperceptveis.
  Mais tarde, as flores da laranjeira perfumando as canes
de roda; o aroma que vem das plantas como a sua
respirao noturna;  o ar  delicado preparando  sonhos.
Caulinha, como a infncia pode ser bela!
  E as flores efmeras das trepadeiras!  as que desejaramos
conservar  e  logo  fenecem...  Cachos  olorosos,
e a beleza dos brincos-de-rainha com seu pingente amarelo
carregado  de  plen...  A  sombra  das  goiabeiras,
precria sombra, mas com a flor estrelada que as abelhas
procuram com avidez. Tudo to longe, Caulinha,
no tempo, mas tudo to absolutamente perto na memria
do, corao!
  E as flores das chcaras! O chacareiro a avisar: "Olhe
a lama nos ps, v pelo outro lado! ", e depois do cheiro
alegre  das  couves  e  alfaces,  daquela  alegria  da  terra
molhada, num recanto discreto, os vasos de cravos com
suas antenas recurvas, com suas beiras de seda recortadas,
com  seu perfume ardente.  Que  mundo  maravilhoso,
rente ao cho, longe do movimento geral. . . E os
relgios  amarelos  dos girassis,  enormes,  enormes,  levantados
da terra, marcando o tempo sem ponteiros!
  As  cravinas  para  serem  descobertas  uma  por  uma,
cada  qual com  sua cor, seu  desenho, seu recorte, to
delicadamente inventadas, e sem ningum lhes dar maior
importncia.  Achavam-nas,  talvez,  pobres,  vestidas  de
chita de minsculos padres - e tu, Caulinha, ficavas
perdida, a amar uma por uma, sentindo a sua delicadeza
humilde, obscura,  discreta e, no entanto,  maravilhosa
aos teus olhos novos, que apenas comeavam a
descobrir esse mundo vegetal!
  E as perptuas tristes, e as sempre-vivas em sua palha
dourada coroando o suntuoso centro de veludo. Que
fizeram  de  tudo  isso?  Desapareceram  os  jardins.  As
chcaras  tiveram  de  ir  para  longe.  Quem  usa  rama-
lhetes no peito? Ningum se lembra das flores pequeninas...
famos  descobrir  as  violetas,  Caulinha,  as
mornas violetas carregadas de aroma, sob as folhas redondas...
famos procurar os miostis, com seus olhinhos
azuis refletindo nos negros canteiros a altura deliciosa
do cu. . . Cada amor-perfeito era uma noite roxa
com janelas de cores por onde descobrias o que elas
mostravam ou o que ias inventando...
  No sabamos os nomes das rosas... Por sua forma,
por sua cor, por suas ptalas preferamos esta ou aquela.
Aquela rosada e quase esfrica, fcil de despetalar, por
que  deste  o  nome  de  Eponina,  Caulinha?  Parecia-se
com alguma pessoa desse nome!  Tinhas medo de que
no chegasse  escola ou  igreja. Querias a vermelha
escura, que se abria quase rasa, mas parecia firme, durvel;
pedias  folhinhas  verdes  para  cerc-la,  quando
no  armavas teu pequenino  buqu  de violetas, tmido
mas fcil de usar, e entregavas  professora, que o colocava
ao peito ou  cintura. Por amor  professora, Caulinha?
por amor s flores? To feliz te sentias!  e
recordo-te para  ter  agora tambm um momento  feliz!
  E ias com tuas rosas para a igreja, cuidadosamente,
para que no se desfolhassem... Acreditas apenas nas
grandes  dlias  esfricas,  firmes,  pomposas.  Ah!  tantas
flores nos altares, que as tuas apenas ficavam num recanto:
no davam para ornamentar...
  Saudade daquelas flores!  Os tempos so outros, Caulinha!
Tudo    grande,  ornamental,  vistoso - perdeu-se
aquela delicadeza de amar. Os jardins morreram.
As  trepadeiras  foram  arrancadas.  Ningum  se  deleita
com as rvores floridas, com o aroma das noites, com
a nervura, a cor, a forma de uma ptala. Mas eu penso
em ti, Caulinha, continuo em ti. Levo comigo essa alegria
total que viveste, tocando, observando, respirando
flores. Quero-as em redor de mim, vivas, quase humanas,
plantadas  ou  colhidas.  No  motivos  ornamentais
(h tantos outros! ) : uma companhia silenciosa que no
me v (no me ver?), mas que talvez possa saber que
desejo no as ver mortas, que as contemplo com pena
da sua brevidade e todo o meu amor. O meu e o teu,
to antigo mas to permanente, Caulinha!

    126
    O  ESTRANHO  FESTIM


A data era importante para alguns, e resolveram festej-la,
como    o mais  usual,  com grandes  excessos  de
comida e bebida. (No adianta que os homens ascendam
na sua condio social:  existe sempre, na maioria deles,
uma profunda atrao pelas coisas elementares.)
  Estudou-se com vagar o que poderia ser mais sensacional,
e, como os produtos da terra no bastassem, optou-se
pela importao de produtos exticos.
  Organizou-se  uma  reunio,  como  para  resolver  um
grave problema de Estado, e no faltou ningum, como
nesses  casos  si  acontecer.  Ao  contrrio,  alguns  dos
convocados  at  levaram  assessores,  pessoas  entendidas
em banquetes, especialistas em cardpios, acepipes, iguarias,
sem falar, naturalmente, em bebidas, que deviam
tambm ser escolhidas  com  superior inteligncia e requintado
bom gosto.
  Toda essa gente,  de lpis na mo,  como num congresso
internacional, apresentou suas idias. E as idias,
nesse setor, como se sabe, costumam ser mais abundantes.
E defendidas com fabuloso entusiasmo.
  Os  apaixonados  por esta bela  terra  brasileira  apresentavam
pontos de vista muito positivos: uns queriam
antas flechadas e moqueadas, cutias, pacas e tatus, peixes
do mar e dos rios, bolos de mandioca, mel selvagem,
doces  de  abbora  e  de  laranja-da-terra...  No
chegavam a falar em cauim, mas sugeriam bebidas de
abacaxi, guaran e caju, muito  apreciadas  e verdadeiramente
originais.
  Mas  os  internacionalistas  falavam  de  timbales,  consoms,
cremes, valorizavam  a teminologia francesa e
no s a terminologia, mas o prprio material. Dissertavam
sobre glacs, pralinas, vinhos, queijos - e as
civilizadas frutas: o morango e a cereja, a ameixa e o
pssego, regados por  marasquino  e conhaque.
  Havia concesses:  podia-se compor um banquete variado,
e com imprevistos nomes. Ao lado de Coquilles
St.-Jacques no ficava mal Cutia  Villegaignon ou Tatu
  Jean de Bols.  Ficava at muito bem!
  Fez-se  uma  lista  do  imprescindvel:  aspargos,  cogumelos,
trufas... E havia o caviar!  verdade! E assim
foram encomendadas para os quatro cantos do mundo
as coisas mais raras, ou mais saborosas, ou mais elegantes,
ostras  e  nozes,  passas  e  queijos,  azeitonas  e
arenques,  e houve at  quem se lembrasse  dos "ovos
velhos" da China, que ficam enterrados no sei quantos
anos, e depois se apresentam como uma porcelana,
um esmalte, uma pedra preciosa.
 A lista era desmedida, mas contentava a todos. Alm
disso  era  tanto  o  dinheiro  que  ningum  pensava  em
despesas;  e a perspectiva de saborear tantas coisas enchia
de  jbilo,  antecipadamente,  os  estmagos  e  os
coraes.
 Em breve, comearam a chegar caixas e caixotes, dos
quatro  cantos  do mundo.  Os  despenseiros redobravam
seus esforos para acomodar tantas coisas, muitas das
quais desconheciam, e morriam de curiosidade por abrir
logo aquelas madeiras e papeles, repletos de mistrio.
Designou-se um intendente para dirigir aquela arrumao,
pessoa at de certa cultura, com um livro de versos
publicado na mocidade, conhecedor de vrios idiomas,
um pouco pela rama,  certo, mas que dava para entender
os dizeres das encomendas.
 Na vspera da festa - como tinha sido tudo to
bem organizado - chegaram ainda sobremesas  delicadssimas,
sublimes invenes de lugares privilegiados.
  E armou-se a mesa do festim. E os convidados, cada
um na sua casa, punham as suas melhores roupas para
o grande acontecimento. Tal era a fama do banquete
que,  forando  as  formalidades,  apareceram  senhoras
e cavalheiros cujo carto de convite eram os ricos adereos
e os insinuantes sorrisos. E todos queriam ver a
mesa posta (um monumento!) - e extasiavam-se diante
das pirmides de doces e frutas, e arriscavam provar
alguma  daquelas  maravilhas  realizadas  em  distantes
conventos... E endoideciam ao ver as cerejas e os morangos
da Holanda, os queijos franceses, as passas e nozes
de Portugal, os ovos da China, e todas as demais
variedades dispostas entre cintilantes cristais e pratas.
  Assim  se  foi  despojando  a  imponente  mesa.  Antes
de  aparecerem os  assados  triunfais  cujo  aroma  comeava
a anunciar-se, j desaparecera metade  do que se
dispusera  na  mesa.  Desmoronaram-se  as  pirmides  de
frutas e doces, desmancharam-se os alfenins, desenovelaram-se
os fios de ovos, as tmaras rolaram pela toalha,
e houve damas e cavalheiros que encheram os bolsos e
as bolsas de iguarias, novidades, curiosidades, recordaes
da mais bela festa do ano. Pisava-se em ovinhos
de  amndoa,  escorregava-se  em  ameixas  esmagadas.  E
o princpio do banquete j parecia o fim. Mas bebeu-se
de  tudo,  comeu-se  sem  vontade,  s  para  no  deixar
de provar um pouco  de  cada  coisa - coisas vindas
de to longe, e que  preciso viajar, para conhecer. Os
intrusos faziam gestos extremamente delicados para justificarem
sua presena - quase um favor, para aquela
festa. Os verdadeiros convidados j no davam por
isso, pois tinham misturado todos os vinhos, querendo
experimentar cada um deles, e j se sentiam arrebatados
pelo espao, confundindo a lua com os queijos e
as estrelas com bagos de uva.
 Depois da festa todos tentaram levar consigo o que
sobrara (no era muito)  como recordao sentimental.
Mas houve desentendimentos, e os despenseiros e o intendente
acharam que tambm deviam defender a sua
parte, nestes tempos de justia social.

    129
    A COR DA INVEJA


No,  no  falarei  do  soneto  de  Rimbaud  e das  cores
atribudas s vogais. Isso todo o mundo conhece.
 Tambm no falarei da cor do gosto, que o Dr. Octaclio
Lopes  brilhantemente  investigou,  em  recente  estudo.
 H pessoas que no acreditam em sonhos coloridos:
mas existem.
  Enfim,  estamos  vivendo  tempos  verdadeiramente
pictricos, visuais, e a nossa cabea cada vez mais se
assemelha a um caleidoscpio.
  A nossa linguagem cotidiana est cheia de cores: sabemos
o  que  significa  estar  "tudo  azul".  Antigamente,
havia "ouro sobre azul", mas depois o ouro acabou: estamos
mais moderados, pelos menos na linguagem.
  Que a clera seja rubra ou purprea, no se discute,
e, em tempos muito romnticos, que o amor fosse plido,
so coisas que a fisiologia explica, e, antes mesmo
que ela explique, logo se v.
  A saudade  roxa, sem dvida nenhuma. No  a flor
que colore o sentimento:  deve ser o contrrio. "a um
cortinado  roxo  /  em  redor  do  corao",  diz  uma
cantiga.
  E a esperana deve ser verde, como  se aprende na
bandeira nacional, compndio de cores belas: verde dos
campos, das searas (ai de ns!), das ricas matas (quando
no  passam  por  elas  os  incendirios  clandestinos).
  Pois eu tenho uma querida amiga que, l de longe;
saudosa destes lugares, que se lhe afiguram o verdadeiro
Paraso, assina freqentemente:  "verde de inveja".
Hoje estou preocupada com essa cor da inveja. No
deve ser o belo verde da esperana, a cor da inveja.
Deve ser um verde heptico, bilioso, um verde turvo,
com certos indcios de podrido. Vou procurar observar.
 Mas desde logo ocorre-me que no deve haver apenas
 uma inveja, mas inmeras e todas diferentes, como
no h na verdade um nico sentimento de amor, nem
a clera  sempre da mesma qualidade. Como foi que
at hoje no prestei ateno a isso? Pois tenho ouvido
dizer que este sculo  riqussimo de invejas, desde as
que se confundem com estmulo e competio at as que
se canalizam para o mais negro dio. (Sem querer, atribuo
tambm uma cor ao dio. E ocorre-me certa manh
na  Holanda,  diante  do  mar  e  de  criancinhas  louras,
to louras que pareciam de prata, e recordo uma senhora
que me observava a oposio reinante  desde o
princpio do mundo entre a luz e a treva, Deus e o Demnio,
as raas louras e as morenas, o dia e a noite -
mas isso leva para muito longe, e hoje eu quero absolutamente
deslindar este caso da cor da inveja.)
  Que uma jovem deseje - no digo o rosto, mas - os
joelhos da outra que pode ganhar um prmio de beleza
 uma invejazinha modesta, juvenil. Se  verde,  um
verdezinho de alface. Creio que nem chega a ser pecado.
Pode  acabar com um suspiro, uma lagrimazinha.  Talvez
at, de dentro dessa lgrima, se possa ver que a
vida  tem  coisas  muito  mais  importantes  que  um  par
de joelhos.
 Mas h pessoas maduras que sabem tudo umas das
outras, e invejam-se com furor, misturando o verde com
o vermelho, o  que no d uma cor muito agradvel.
H pessoas at que inventam coisas que os outros no
tm, e passam a invejar  as coisas  inventadas.  Isso j
deve ser uma palheta louca. Mas estamos em tempos de
palhetas loucas, tambm.Invejar no , pois, desejar
 somente o melhor;  desejar o que no nos pertence. E at
 se pode invejar a
doena, quando a sade  que parece um bem invejvel.
Pode-se invejar a pobreza, a infelicidade. Que uma
menina ingnua tenha inveja da rica senhora que pagou
duzentos contos por um vestido,  uma invejazinha de
menina ingnua. Mas que a referida senhora tenha inveja
da menina que segue a cantiga:  "Com cinco ris
de alfinetes / se compe uma mulher..." - essa, j
deve  ser uma  inveja  grande,  de  cor muito  carregada,
realmente,  uma  inveja  feia  de  ver.
 No:  "verde  de  inveja"  no  me  parece  expresso
feliz. Vou prestar ateno. Convm estabelecer uma escala
de tons.  E, depois, a dos antdotos.  Se a inveja
faz mal aos outros, precisamos defender as vtimas. Se
faz mal ao portador, precisamos cur-lo. Se no faz mal
a ningum,  mera curiosidade cromtica, esta conversa.
Mas sempre  bom no esquecer que, por essas e
outras,  os  antigos  inventaram seus  amuletos.

132


    132
    ORADORES E CES DANADOS


Todas as tardes quando saamos para dar uma volta,
entre o jantar e o sono, minha av recomendava
 insistentemente  pajem Pedrina que evitasse os bbedos
 e os ces danados. Naquele tempo parece que esses dois
perigos eram muito mais constantes que hoje.
 Quanto aos ces, mesmo danados, eu supunha que
quela hora j estivessem dormindo. E se andassem pelas
ruas seria um pouco difcil reconhec-los, pois, segundo
as informaes que possuamos, eram uns tristes
animais desorientados, com a lngua pendente e a cauda
encolhida - tudo isso impossvel de descobrir de longe,
ao  lusco-fusco.  Mas  no  encontramos  jamais  nenhum.
 O passeio, esse simples passeio l para o lado das
palmeiras, foi sempre feliz. Os namorados conversavam
em caramanches no jardim, mas to prximo s grades,
que  podiam  acompanhar  o  movimento  dos  passantes,
e todos lhes diziam: "Boa noite! Boa noite!" -
o que era uma delicada distrao da poca. Os caramanches
eram cobertos de trepadeiras perfumosas, cujos
cachos, campnulas ou estrelas pendiam em guirlandas
por todos os lados. Os namorados conversavam. E ns
passvamos.
 Havia varandas com habitantes ruidosos, que se expandiam
em exclamaes entusisticas, abrindo garrafas
de cerveja, falando de guas minerais, no  do Brasil,
mas  da Frana,  arrastando  cadeiras,  acendendo  charutos.
Era muito engraado.
Havia os  sales  iluminados  onde  algum  tocava  ao
piano msicas muito variadas, que Pedrina ia classificando
de valsa,  polca, maxixe... Seguiam-se as belas
casas silenciosas, com o seu co de ronda entre as flores,
as vastas fachadas tranqilas, de janelas apagadas.
Pela sombra comeavam a aparecer pirilampos e aquela
grande solido me encantava. Devia ser bom viver como
pirilampo, brilhando aqui e ali, c embaixo, l no alto.
Devia ser bom viver como co de guarda num grande
jardim, naquela solido  que  entreabre  devagar  os  botes
de rosa, e faz cair em chuva as estrelas brancas
dos jasmins. Devia ser bom viver como as grandes casas
pensativas. Devia ser bom viver como a noite, que
vai escondendo tudo e tudo transformando em sonhos.
  De repente,  apareciam  os  bbedos,  um  aqui,  outro
ali, falando para os passantes, para a solido dos jardins,
para as  rvores, para  os muros.
  (Nesse momento, Pedrina atravessava a rua, segurando-me
com fora a mo.)
 Os bbedos eram uns pobres negros, cujas feies
nem se distinguiam; mas a pretido brilhava aqui e ali,
como um verniz, tocada pela luz tnue da rua. Os bbedos
estavam sempre entusiasmados. Na verdade, no
falavam:  discursavam.  E  seus  discursos  eram sobre  o
Imperador, a Imperatriz, a Princesa Isabel, a caneta de
ouro, misturados a anjos, coronis, Dona Sinhazinha e
muitos negros soltos nas fazendas de caf. Os bbedos
no faziam mal a ningum. As vezes, apenas, queriam
que os passantes respondessem a coisas do passado, e
os passantes no  estavam mais preocupados  com isso.
Ento continuavam a fazer a apologia da Princesa Isabel,
a chorar pelo Imperador, a falar de palcios e de
igrejas, e a agradecer a Deus tanta bondade, de mos
postas, virando para o cu a cara lustrosa e os olhos
que,  luz do lampio, pareciam vermelhos.
  Chegvamos  em  casa  conversando  tambm  sobre  a
Princesa Isabel, com menos nfase,  claro. Todos aqueles
discursos de bbedos eram interpretaes populares
de pginas da Histria. Foi assim que eu comecei a conhecer
o Imprio, o Cativeiro, a Abolio e uma poro
de nomes misturados (de modo arbitrrio) aos fatos
desse tempo. Pedrina, o que sabia de positivo  que a
Princesa  Isabel  dera  uma medalha  de  ouro   minha
me, quando era  menina, por causa dos seus bordados,
que eram a imagem da perfeio.

    135
    FIGURAS DE MARKEN


A princpio, as figuras de Marken que uma vez ou outra
tra encontrvamos pelas ruas de Amsterd nos pareciam
fantsticas, vindas de um outro mundo, de uma outra
era, vindas de nenhum mundo, de era nenhuma inventadas
pela imaginao dos sonhos, arbitrria. Entre os
fleugmticos  senhores  e  os  senhores  bonacheires;  as
velhinhas de pele franzida e olhos vivos;  a mocidade
rsea, loura, a deslizar em suas bicicletas, as figuras de
Marken passavam srias e espectrais. As mulheres, principalmente,
chamavam a ateno dos estrangeiros: altas,
magras,  angulosas,  de  cabelos  esbranquiados,  speros,
longos,  cortados  em franja na  testa e cados  para  as
costas e pelos ombros, lisos e secos ou guardando as
ondas  feitas  por  tranas  desmanchadas.  Calavam  os
grandes socos holandeses, de madeira amarelada e saias
escuras .e grossas at os tornozelos. Mangas compridas,
de pano listado, tornavam seus braos maiores. O gorro
que traziam  cabea completava a grandeza do traje.
Entre canais  e torres, seus movimentos tinham ritmos
graves: os passos carregando os socos, as mangas
listadas a articularem os braos - e os rostos, os plidos
rostos  amargos,  severos, entre o gorro branco  e
os bordados corpetes alongavam em redor olhos claros,
vagos,  como  recentemente  acordados  e procurando  reconhecer
cada objeto, cada lugar.
   Ento, os outros diziam: "So de Marken, vm de
l da ilha...  bonito, l. So assim feios porque pertencem
a uma comunidade que na se mistura... Vivem
isolados,  l  entre.  si...  Mas    muito  bonito,
Marken."
  Ora, quem j viu Volendam, esse recanto turstico da
Holanda  com  suas  casotas  de  pescadores  pintadas  de
muitas e vibrantes cores; quem j viu por essa aldeia
to  bem-arranjada  os  inmeros  objetos  de  arte  mais
ou menos popular que esperam os visitantes vidos de
"lembranas"; quem j entrou na pequena loja de fotografia
para sair em carto-postal para os amigos, vestido
com as roupas locais, os homens de cachimbo na
boca, as mulheres de chaleira de cobre na mo, como
boas donas-de-casa ocupadas com a sua cozinha;  quem
j se cansou de comer, no mesmo almoo  beira d'gua,
enguias preparadas de todas as, maneiras, no se lem-
bra  de  Marken,  no  acredita  que  Marken  lhe  possa
causar  impresso  mais  saudosa que  a  desse  agradvel
stio, que  como um grande brinquedo colorido e animado,
nessa terra holandesa to cheia de outros encantos
anglicos:  flores, flores, flores,  carrilhes,  realejos
grandes  e belos  como  altares,  e,  de longe  em longe,
moinhos de vento, despedindo-se...
 Mas uma tarde de domingo, num barco alegre, com
um  bravo  tocador  de  sanfona  a  animar  a  excurso,
chega-se a Marken. E  outra coisa: no aquele sorriso
turstico  de  Volendam.  Um lugar  spero:  homens  e
mulheres, meninos e meninas com suas roupas festivas.
Socos enfeitados de desenhos coloridos, corpetes de profusos
bordados policromos, chitas floridas, panos  quadriculados,
aventais,  camisas  de  listas  variadssimas,
gorros  enfeitados,  gorros  de  renda; louros  cabelos  ao
vento. . . - e as casotas bicudas, as pontes de madeira,
as  cancelas,  tudo  limpo,  ntido,  alegre,  feliz,  decerto,
mas de uma alegria, de uma felicidade um pouco distante,
discreta, pensativa.
  Muitas  sutilezas:  meninos  e  meninas  vestem-se  do
mesmo modo at os cinco ou seis anos; mas reconhecem-se
porque o gorro dos meninos  diferente, porque
eles usam uns botes de prata na gola, porque, nas
roupas, tm uma tira branca vertical... E so lindas
crianas, todas igualmente de cabelos compridos, finos,
dourados, leves com seda desfiada.
 E vem um bando de moas de mos dadas, e devem
contar histrias de domingo e de mocidade: e seu sorriso
 tmido, pronto a guardar-se, a desaparecer.
 Pelas  cercas, pelas pontes, perto  dos  barquinhos,  
margem da gua, as moas e crianas com seus corpetes
tes  de mil cores, suas mangas listadas e seus cabelos
louros enchem as paisagens  de Marken como pinturas
extremamente  ornamentais  tendo  por  fundo  pequenos
muros de tijolo, casas de angulosos telhados, com janelas
brancas  e  cortininhas  de  franjas  por  detrs  dos
vidros.
 Mais  tarde,  quando  se pensa em Marken, naqueles
rostos, naquelas cores,  como um sonho com um jogo
de cartas: uma tarde, entre o cu e gua, as figuras
armando e desarmando festas: dama, valete, rei, dama,
valete, rei...

    138
    CURSO COMPLETO


A mocinha era to graciosa, to tmida, to meiga que
parecia uma flor do campo: uma sempre-viva, um botozinho
de ouro. Contou-me suas melancolias de adolescente,
porque vivia na provncia,  tinha muita vocao
para estudos superiores,  s poderia realiz-los no
Rio de Janeiro, esta "rainha das cidades e emprio do
mundo". Deixou sua casa distante, comeou seus estudos,
conheceu muita gente, abriu seus caminhos, a todos
encantou com a sua meiguice e a sua timidez e,
como o tempo passa to depressa, dali a pouco me contou
que j possua no sei quantos diplomas, ia conquistar
outros tantos, tudo era maravilhoso, a seus olhos; certamente
conseguiria uma viagem ao estrangeiro; a vida
 doce, a humanidade  boa, o cu  sempre azul e os
pssaros cantam todos para ns.
  De  repente,  a mocinha  aparece-me.  Continuava  graciosa,
meiga, tmida, sussurrante, embora tivesse aprendido
a falar vrias lnguas, e entendesse de mil coisas
difceis que mais da metade da populao  do mundo
vai morrer sem ter jamais ouvido mencionar. Sabia tudo
isso com a terminologia prpria, mas tambm o traduzia
para a lngua vulgar com tal encanto e perspiccia
que antes do fim do ano j se tinha tornado professora.
 Depois, a moa, repleta de talento e de conhecimento,
sentiu talvez que o peso de saber  muito grande
para ser transportado por uma criatura sozinha, anuncio-me
com sutil delicadeza que em breve se casaria.
Nessas ocasies logo se pergunta com quem. Ela no
sabia. No tinha encontrado ainda o noivo. Mas ia encontra-lo
amanh, depois de amanh, quem sabe? na
Praia de Copacabana, na Rua do Ouvidor,  porta de
alguma livraria, num teatro... O noivo devia andar por a.
 Transcorre o tempo novamente - mas no com excessivos
dias - e a mocinha procura-me para anunciar
que j encontrara o noivo, e aquele ano mesmo;  sem
falta, estaria casada. Era to eficiente, essa mocinha! E
continuava graciosa, meiga, mesmo com aquele ar tmido
de florzinha do campo, sempre-viva ou botozinho
de ouro.
 E assim foi. A mocinha escolheu a mais linda capela;
o mais vistoso sacerdote; o vestido de mais elegante simplicidade,
inspirado  em  modas  antigas  e  que  outrora
tornaram mais sonhadoras as princesas;  e a cerimnia
ia ser tambm daqui a pouco tempo e todos os dias
iam chegando s suas mos lindos presentes.
  Por fim, a mocinha pediu-me permisso para mostrar
seu lbum com as fotografias do casamento. Era uma
obra de arte:  ali estava o seu ramo do flores, displi
centemente abandonado sobre um mvel, como a significar
que  assim  ficava  para  trs  a primeira parte  da
vida, e agora se iniciava a segunda, sob felizes signos.
 Voltei a pgina, e mal pude reconhecer a simples mocinha
tmida: era uma bela figura, com um vestido de
seda rija, que, justamente pela rigidez, lhe acentuava as
formas  juvenis,  a  ponto  de  desabrocharem.  Aparecia-lhe
a ponta do sapatinho, muito alto e muito elegante;
caa-lhe pelos ombros  uma pequena catarata  de tule   ;
suas unhas tinham sido pintadas de prata e um trao
de prata Ihe delineava tambm a plpebra superior, como
um fino arroio marginando os curvos, infinitamente
sutis bambus dos clios.
 Estivera to bonita a mocinha, naquele dia, que o fotgrafo
se encantara  em multiplicar a  sua imagem:  e
ela sorria; volvia os olhos com muito ristrio; dava um
passo e detinha-se; tornava-se lnguida como as rosas;
depois  fazia-se  inflexvel  como  uma  espada:  enfim,  o
ato do casamento era uma festa para os olhos, fixada
ali no cetinoso papel para todo o sempre.
  Esta mocinha  to eficiente que daqui a pouco ter
lindos netos. E j os vejo debruados sobre essa beleza
terrena, eles que, certamente, se casaro nas cintilantes
capelas da Lua.
141


    141
    POR FALARMOS DE CH. . .


Por falarmos de ch, lembrei-me de dois poemas chineses,
muito antigos, do tempo  daquela famosa dinastia
T'ang, sob a qual floresceram tantos poetas, e acima
da qual brilharam astros como Li-Po e Tu-Fu.
  Um  dos  poemas    de  Lo-Tung,  grande  bebedor  de
ch, que enumerava as sensaes experimentadas  medida
que  absorvia  consecutivas taas:
  A primeira taa umedece-me os lbios e a garganta;
  a  segunda,  interrompe-me  a  solido;
  a  terceira,  penetra-me  as  entranhas,  onde  revolve
                    [milhares de ideografias estranhas;
  a  quarta,  produz  uma  leve  transpirao  que  leva,
            [atravs dos meus poros, o que existe de
                               [mau na minha vida;
  com a quinta, sinto-me purificado;
  a sexta, transporta-me ao Reino dos Imortais;
  a stima. . . Ah! a stima. . . j no posso beber mais!
  Sinto apenas o sopro do vento frio encher as mangas
                                [da minha roupa...
  Onde est o Paraso?
  Deixai-me subir nesta suave brisa e que ela me leve
                                          [para l!

  O outro poema, de Uang-Tsi,  em forma de mensagem:
delicada mensagem de um homem que manda a
um amigo algumas folhas de ch para agradecer-lhe um
poema de outro poeta. Diz assim:
  Para agradecer-vos por me terdes feito conhecer esta
poesia  de  Tsu-Kia-Liang,  envio-vos  algumas  folhas
de ch. So da rvore do mosteiro situado na montanha U-i.
 o mais ilustre ch do Imprio, como vs sois o seu
mais ilustre letrado. Tomais um vaso azul de Ni-hing.
Enchei-o de gua de neve colhida, ao nascer do Sol,
na vertente oriental  da montanha Su-chan.  Colocai-o
num fogo de gravetos de roble, que devem ter sido
apanhados sobre um musgo muito antigo e deixai-o
sobre esse fogo at que a gua comece a rir.
Derramai-a, ento, numa taa de Huen-tcha, onde deveis
ter colocado algumas folhas desse ch, cobri a
taa com um pedao de seda branca tecida em Huachan
e  esperai  que  se  espalhe  pela  vossa  cmara
um perfume comparvel ao de um jardim de Fun-lo.
Levai a taa aos lbios e fechai os olhos. Estareis no
Paraso.
Lidos os dois poemas, verifica-se no ser difcil chegar
ao  Paraso. Basta saber preparar e saber beber uma taa
de ch. Notai, porm,  senhores, quantos requisitos  exteriores
e  interiores  so  necessrios  a  esse  ato  aparentemente
fcil e simples!  Mesmo sem provar desse ch
de to  remotos  sculos,  se ouvirmos  bem os poemas,
se os ouvirmos extremamente bem, chegaremos ao Paraso.
(Mas  ainda  haver  quem  sonhe  com lugar  to sutil?)

    143
    A PROPOSITO DE VILA-LOBOS


Dizia-me um amigo que, em sua terra (que no era a
nossa. . . ), os artistas viviam muito mal, mas tinham
enterros muito bonitos. No sei como ter sido o seu:
no creio que tenha tido sequer essa compensao, se
 que pode ser uma consolao atravessar a vida com
as agruras que a condio de artista fatalmente implica,
para acabar em cortejo triunfal pela cidade, como
espetculo exemplar, estmulo e consolo de outras infinitas
geraes de artistas.
 Creio que o artista  o mais infeliz habitante da terra,
embora com toda essa infelicidade desperte em redor
de si montanhas de dios gratuitos e matas impenetrveis
de inveja. Por que se odeia, por que se inveja uma
pobre criatura geralmente indefesa, sem sindicato, sem
montepio,  sem abono  (essas mercs  de que o homem
comum desfruta, alm de outras muitas)? O artista produz
o que pode produzir a criatura humana consumida
em realizar-se de maneira sublime.  ( claro que estou
falando do artista verdadeiro!) Em geral no lhe importa
nada o que vai acontecer depois: se Ihe compram a
obra, se a entendem, se a maltratam, se os outros se
apropriam dela, ou se at lhe negam os direitos de autoria.
Enfim, o artista vai no seu destino mais ou menos
como  destitudo de atributos mortais,  desgraado mas
glorioso, muito mais perto dos deuses que levitam, do
que dos inimigos que rastejam. De um modo geral, no
chega a viver sua vida: vive apenas o que produz  -  o
que, vamos e venhamos, no se poderia considerar destino
muito sedutor para os que amam o mundo e seus
deleites.
 Mas tem sido sempre assim - com uma ou outra
exceo, como  de praxe na vida, e como convm dizer
numa crnica, a fim de amenizar o assunto, de no Ihe
dar tom pessimista e tambm no acusar a humanidade
toda de crueldade mental.
  Lembro-me, alis, de uma coisa simptica:  nos ltimos
anos da vida de Sibelius o curso dos veculos foi
desviado de sua rua, para que nenhum rudo incmodo
perturbasse o velho compositor em suas ltimas produes.
Mas isso  to belo e foi to longe que nem parece
notcia, mas apenas sonho.
 No conheci Vila-Lobos de perto, mas imagino que
houvesse em sua vida o cortejo de fatalidades inerentes
 sua condio de artista. Soube que seu enterro foi uma
consagrao pblica; mas no me parece que isso baste
nem mesmo tenha muito que ver com a importncia de
sua obra.
 O que me parece muito srio  que, depois de mortos,
quando j deixaram de ser amveis ou irritveis, simpticos,
ou antipticos, e apenas so o que realizaram
menos em si do que fora de si, na paisagem do esprito,
os artistas se afirmam totalmente, purificados e indestrutveis.
A morte no tem nada com os artistas. Eles
no so essas pessoas que vemos. So como seres sobre-
humanos, passando por ns com essas roupas e sapatos
que se usam, e at fumando charutos, como Vila-
Lobos. Isso pode ser enterrado, com ou sem pompa.
Mas o seu trabalho? Como pode morrer o que  imortal?

    145
    CONSIDERAES ACERCA
    DA GOIABA


Muitas pessoas sabem o que seja goiabada;  mas talvez
nem todas  elas j tenham visto uma goiaba. Alis, a
goiaba j fez a confuso de um velho cronista do Brasil,
que a descreveu pegada ao tronccy da goiabeira. Decerto,
entre seus olhos e seus ouvidos produziu-se uma
compreensvel  atrapalhao, fazendo  falar de goiaba e
pensar  em  jabuticaba...  (A  rima,  ss  vezes,    traioeira...)
  Os  indgenas,  que  sempre  deram  nomes  certos  s
coisas, parece que a chamavam a-covab  para dizerem
que era um ajuntamento de caroos. Na verdade, ela 
pouco mais do que isso. E em certo idioma da fndia,
quando se quer dizer goiaba diz-se prrz, que  assim
que ela se chama.  (Agora, quando se quer dizer  pra
no se deve dizer goiaba. .. Isso j seria engraado demais!)
 Penso em tudo isto porque estou vendo,  porta de
uma confeitaria, uma goiaba que custa sessenta cruzeiros.
Sessenta cruzeiros: quer dizer, quase um litro de
leite, umas cinqenta gramas de manteiga, meio quilo
de po . . .  (Bem, no me atrevo a continuar, porque
os preos sobem a cada instante, e podem j no estar
atualizados . . . ) Em todo caso, a goiaba custa sessenta
cruzeiros.
  As goiabas esto ali arrumadinhas na caixa. De aparncia
modesta, mas de escandaloso perfume. As vezes
como o das anglicas, o perfume da goiaba causa at
  Segundo o padro monetrio da poca, mudado depois.
um grande mal-estar. Mas  quando esto muitas juntas;
pois,  separadamente,  desprendem  um  cheiro  delicioso.
Como as pessoas que, sozinhas" so delicadas e
encantadoras e, num grupo, no se sabe como, se tornam
vulgares e at estpidas.
 O que eu lamento  que os passantes olhem para as
goiabas, para o preo, e no se detenham:  as goiabas
no Ihes dizem nada a no ser que so uma fruta de
cheiro excessivo e de custo muito alto.
  Isso me entristece, pois a goiabeira  uma rvore meio
torta, de folhas todas riscadinhas, e cujo tronco se descasca
como se fosse papel. Por baixo, a madeira  lisa
e bonita que nem marfim. Antes da goiaba nascer, aparece
uma flor to alva, to gloriosa, coroada de ouro e
seda branca! uma flor que lembra a Estrela da Manh.
H um movimento de vespas, de abelhas, em redor dessas
flores. Depois, a goiaba  um pequenino boto verde;
depois,  um fruto oval e amarelo, cetinoso e perfumoso.
Quando se parte, ela abre um sorriso de dentinhos
cor-de-rosa. To grande  o seu perfume, to tenra
a  sua  polpa,  que,  muitas  vezes,  antes  mesmo  das
crianas, so os passarinhos que a provam. E nesse dia
cantam muito  melhor.
  Eis o que , mais ou menos, uma goiaba. De modo
que, embora no as vendam, mas para mostrar quanto
as estimam, os senhores mercadores deviam pedir por
elas no sessenta cruzeiros - preo vil - mas seiscentos
e at mais.

    147
    TRS LIVRINHOS ANTIGOS


Eis-me diante de trs pequenos livros do sculo passado,
que me deleitam, como se no fossem livros, mas espelhos
refletindo o viver, o sentir, o pensar dos nossos
avs.
 O primeiro  um Cozinheiro Moderno, "onde se ensina
pelo mtodo mais fcil e mais breve o modo de
se prepararem vrios manjares, tanto de carne, como de
peixe  mariscos, legumes, ovos, laticnios , etc. So quatrocentas
e tantas pginas compactas, por onde desfilam
orelhas e olhos de vitela, coelhos enrolados, perus
em globo, coxinhas de galinhas em botinas, frangos em
forma de peras; muitos caldos curativos, uns para purificarem
a massa do sangue, outros para tosses secas, para
dores de cabea - ao lado de sopas mais alegres, como
uma "sopa saudvel", uma "sopa de primavera com
ervilhas" e de uma "sopa de leite de amndoas", que essa
j  doce e servia-se "guarnecida de biscoitos de la
Reina, ou de amndoa". Em matria de molhos  (isto
passando por alto muitos captulos), h de tudo:   es
panhola e  inglesa,  holandesa e  alem,  moscovita
e  provenal. P alguns tm seus patronos declarados: o
do  Conde  de Saxnia e o  do Duque de Nevers;  e
outros, vagos patronos:  o da Princesa, o do Almirante
- e o dos pobres, com azeite e sem azeite. . . H pastelinhos,
 salsichas,  empadas,  e,  no  captulo  da doaria,
onde os bolos se chamam "gatus", h os pudins,
os sonhos, os crocantes, e as "cremas", que so da Delfina,
da Abadessa, aveludadas, virgens, batidas, meringadas,
queimadas...
O segundo livro  de sonhos, Arte de Adevinhar o
Futuro, "ou explicao completa, clara e fcil dos sonhos
e  aparies  noturnas".  Creio  que  muitos  desses
sonhos  deixaram  de  constar  do repertrio  onrico,  no
sculo atual. Mas, precisamente h um sculo, sonhava-se
com  abadessas,  arlequins,  boticrio,  usurrio,  desmaio
de senhora, desmaio de homem, ratoeira, sangues-
suga, tendas de guerra, vinagre que se bebe, vivandeiras-
e, para terminar, estes trs exemplos de sonhos
maravilhosos: zfiro, zero e zodaco... Tudo isso tinha
seu  significado,  claro, e  este livrinho, traduzido  do
francs e que custava, no seu tempo, cento e vinte ris,
devia andar em todas as casas, entretendo as famlias,
pois j na capa avisava  ser "obra interessante  e divertida". . .
Quanto ao terceiro livrinho,  um Novo Almanaque
de  Lembranas  Luso-Brasileiro,  repositrio  de  curiosidades,
poesias,  charadas,  conselhos  e  informaes  gerais,
que nos fala de bruxas, feiticeiras, lobisomens  e
almas de outro mundo, do cavalo branco de Lafayette,
dos brios e sbrios, dos arcos de triunfo, dos hotentotes,
dos fsseis e das geadas - enfim, uma pequena
enciclopdia, capaz de fornecer muitos motivos de conversao
para as visitas amveis de outrora, quando as
pessoas tinham tempo de conversar, quando ainda podia
dia haver visitas, quando a amabilidade fazia parte da
boa  educao.  (No  tumulto  editorial  de  hoje,  folheio
esses trs livrinhos...)

    149
    O ANIVERSRIO
    DE GANDHI


Num dado momento, a India projetou-se no Ocidente
com um esplendor fora do comum: dois homens a tornavam
assim radiosa e atraam para ela o respeito e a
admirao dos povos - Rabindranath Tagore e o Mahatma
Gandhi. Isso foi no tempo em que se preparava
a sua independncia, para a qual, de maneira diversa
porm igualmente notvel, contriburam esses dois grandes
espritos.  Tagore e  Gandhi parecem, na verdade   ,
resumir, entre 1920 e 1940, todas as virtudes passadas
de seu povo, e represent-lo da maneira mais adequada
para o incio de uma vida nova, dignificada em liberdade
e sabedoria.
 As grandes e merecidas comemoraes do centenrio
de Tagore, este ano*, no obscurecem a data natalcia
de Gandhi, quase centenrio tambm, pois nasceu a 2
de outubro de l869. Ao contrrio: sob essa luz altsssima
que  ilumina  a  figura  do  Poeta,  alcana  relevo
maior a figura do Santo, esse curioso, moderno Santo
das multides, que viveu e morreu pela independncia
de seu povo e pode ser considerado o Pai da Ptria.
 Por suas origens, por seu ambiente, por sua firmao,
por seu destino de artista, caberia a Tagore essa
importante misso de fascinar o mundo: traduzidos nos
mais diversos idiomas, seus versos animam leitores desconhecidos,
servem de alimento espiritual a pessoas que
nem o conheceram e, por mais que estejam vivendo de
* 1961.
suas palavras, muitas vezes nem sabem muita coisa a
a respeito de sua vida, de sua pessoa, de seus desgnios
artisticos.
   Gandhi  quase seu oposto em tudo: e tem-se a impresso
de que a Providncia reuniu essas duas criaturas
to diferentes para, ao  mesmo tempo, mostrar a
ndia no equilibrio de  sua  diversidade,  to  poderosa
em sonho como em ao, to capaz de alar-se em lirismo
rismo ao convvio de Deus como de procurar por Deus
no mais humilde caminho dos homens.
Esse humilde caminho dos homens pertenceu a Gandhi.
Ele se disps a experimentar em si mesmo as injustias
de que eram vtimas seus irmos infelizes:as
dos que pertenciam a outras castas, as dos que sofriam
humilhaes de poderosos, as dos gue no sabiam como
lutar, com a sua fraqueza contra a esmagadora fora
dos homens armados.
Vimos, ento, esse homem de vasta inteligncia, de
imensa perspiccia, de uma vontade frrea, e de uma
pureza pessoal comparvel  das crianas e  dos anjos,
deixar seus trajes ocidentais, vestir-se como os ascetas
falar as multides, ensinar justia, aceitar prises,
praticar jejuns, protestar  contra  os  grandes,  conduzir
sua gente por um caminho certo mas difcil, s capitulando
na morte  depois  de ter cumprido seu  longo
programa de libertao nacional.
 Outros chefes podem realizar programa idntico   : mas
o caso de Gandhi - e  isso que o torna imortal -
 o da revolta conduzida dentro de rigorosos compromissos
de moralidade e verdade;  e, por incrvel  que
parea, sua revoluo, tendo  o prazo  curto  das  revolues,
operou-se com um esprito de educao do povo
e bem sabemos que a educao  um plano de prazo longo.
Como conseguiu o Mahatma esse milagre? Sendo um
milagre, ele mesmo.  Pois  a grande verdade,  em qualquer
acontecimento,  que os fatos valem pelos homens
que os dirigem, mais ainda do que pela idia que possam
encerrar. E essa ausncia de chefes extraordinrios,
de chefes alheios a resultados pessoais, a transaes e
at a vaidades de poder  que torna melanclicas muitas
faanhas histricas.
 No caso de Gandhi, vemos um homem despojar-se de
tudo, reduzir ao mnimo suas necessidades  (que resta,
de seus bens, no "Memorial" que lhe levantaram? -
umas sandlias, um bordo, uns culos, um relgio...)
- viver na modstia do seu retiro ou caminhar longas
distncias  para  organizar  o  povo,  para  harmonizar  os
intelectuais e os rsticos, para coordenar todas as foras
no das armas, mas do esprito, no sentido de formar
uma barreira humana (ou sobre-humana) contra o
poderio,  a  escravido,  a  injustia,  impedindo  a  ao
violenta dos oprimidos, e tentando esclarecer os inimigos
sobre os seus prprios erros. Exercia, desse modo,
uma dupla atividade de educador e mestre e guia: ensinando
a uns a vencerem pela sua capacidade de sofrimento,
e  a  outros  a  se  livrarem  do  peso  de  suas
culpas.
  Para  Rabindranath  Tagore,  Deus    uma  expresso
de amor,  uma intuio potica,  um encontro pstumo,
transcendente e definitivo; para o Mahatma, Deus
 a Verdade, a Verdade  Deus, como num postulado
cientfico.
   abraado a essa certeza, fundido nessa f que Gandhi
empreende sua ao de condutor de um povo martirizado.
Habituara-se, desde menino, a essa nitidez de
propsitos;  suas memrias revelam-nos essa inquietao
do adolescente e do jovem para dirigir seu comportamento
dentro da lei moral inerente  condio humana,
seja qual for a raa, dentro de qualquer ambiente, sob
qualquer filosofia ou religio. Esse sentimento da universalidade
da  "lei" torna  o  advogado  M.  K.  Gandhi
um jurista diferente: ele , antes e acima de tudo, um
servidor da Verdade, um distribuidor de Justia. E to
linear se torna sua atuao, diante de cada caso, que
no se pode deixar de pensar na configurao dos diamantes,
com seu brilho,  sua dureza e suas  arestas.
  Num  pas  de  grande  riqueza  imaginativa,  onde  os
deuses facilmente se podem multiplicar, o Mahatma no
pretendeu subir jamais alm da sua condio de homem
e  de  cidado;  ao  contrrio,  vemo-lo  constantemente
procurando descer ao que nessa condio pode existir
de mais humilde, precrio, desditoso, para aprender todas
as misrias, e dar-lhes adequada soluo.  Vemo-lo
utilizar transportes de nfima classe, caminhar a p com
os peregrinos,  interessar-se por  assuntos domsticos  de
limpeza, higiene, alimentao, sem que esse constante
pousar em nveis to obscuros perturbe o mpeto e a
extenso de seus vos. Ele  uma constante demonstrao
de que se pode ser feliz na mais completa humildade
de existncia, desde a construo de um povo,
ao aperfeioamento do homem,  realizao da paz e
da sabedoria numa slida base de confiana, numa total
fidelidade  consigo  mesmo,  com  outrem,  e  com  essa
Verdade que  Deus.
  H em Gandhi uma claridade fixa, que cativa as pessoas
de boa vontade, porque ela  uma promessa, uma
esperana de que cada um de ns pode ser assim -
de que a natureza humana pode ser sem perversidade,
sem desvios, sem lances de mentira e traio. Que esses
defeitos podem ser redimidos, que o homem pode cultivar
em si apenas o que h de generoso e nobre em
sua natureza, e que pode chegar  mais alta dignidade
sem destruir nenhuma vida, sem oprimir nem desprezar
ningum.
 Relembremos tudo isso, nesta data do Mahatma,  a
"Grande Alma", e no nos  esqueamos  de que existiu
no mundo um homem assim.

    153
    LIES DE BOTMCA


Todos achvamos o compndio de botnica excelente:
em francs,  encadernado  em percalina  amarela,  agradvel
de  tomar nas  mos,  bom  de  folhear,  bem  impresso,
com desenhos  claros - essas coisas que nem
sempre os editores levam em conta e podem, no entanto,
ter influncia na vida de um estudante e at na sua
vocao. O professor ajudava a esclarecer o texto:  depois,
procurava-se a letra a, a letra b, a letra c, todo o
alfabeto, que indicavam o que se estava estudando nas
plantas, quer inteiras, quer em seus pormenores, e nos
cortes longitudinais que mostravam seus  segredos interiores.
Era muito agradvel: vivia-se em jardins, pomares,
campos imaginrios. Salvo algum exemplo especial,
no se tratava de nenhuma planta, nenhuma flor, de
fruto algum. Tudo estava reduzido  idia, nem mesmo
  imagem  dos  objetos.  Mas  era - pelo menos  para
alguns - um exerccio fcil e feliz. Assim Deus tinha
disposto  as  suas  criaes  vegetais!  E  spalas,  razes,
pistilo, cada coisa no seu lugar cumpria uma determida
funo;  e  quando  havia  aberraes,  era  outra
histria. . .
 Naquele tempo no se analisava nada disso com muita
profundeza,  mas  com o  assombro  e  a  curiosidade
das descobertas. Apenas, entre as folhas dos livros e os
seus desenhos, assomava coma um fantasma bom a figura
de tio Zeferino.
 No sei de onde ele vinha, mas vinha com o anoitecer,
como trazido pelo lusco-fusco da tarde. Trazia ramos
de flores e embrulhos de frutas. Vinha orgulhoso,
sorridente, pois tudo aquilo nascia em chcara sua, sob
os cuidados seus. Descansava os embrulhos e ramos na
mesa rstica, falava do tempo, do sol e da chuva e ainda
trazia em redor das unhas a terra dos seus canteiros.
sua chegada coincidia com a hora em que as crianas
boazinhas devem ir dormir:  de modo que sua figura
e suas falas ficavam, metade neste mundo, metade no
outro. No dos sonhos. Mas era ele que entendia e explicava
rosas e eglantinas, dlias e crisntemos, e fazia
apreciar o perfume escondido da violeta em contraposio
  violncia  do jasmim-do-cabo.  Era  um homem
singular. Falava de flores simples e dobradas e com um
canivete que exibia s vezes, parece que resolvia seus
problemas, tornando doces as laranjas amargas e creio
que  aumentando  o  tamanho  ou  o  nmero  de  outras
frutas. Tudo com aquele canivete! Todos ficvamos 
boquiabertos de admirao.
 Mas tio Zeferino no se gabava muito daquelas colaboraes
com Deus.  Pedia umas fruteiras  brancas  e
redondas, que de perfil pareciam cogumelos, e ia dispondo
as frutas. Da laranja e da goiaba no precisava
falar, pois quem no as conhecia? Mas havia a carambola,
a nspera, a rom, o jambo:  essas eram grandes
novidades, que no se encontravam em qualquer lugar.
  Tio  Zeferino  devia  conhecer  todas  as  plantas  do
mundo - pensvamos. Queramos associar a sua figura
 dos anes de loua que, naquele tempo, habitavam
alguns  jardins.  Mas  tio  Zeferino  no  tinha  nada  de
ano:  era um homem robusto, de meia-idade, cabelos
um pouco grisalhos, e uns grandes olhos verdes, como
duas folhas. Uns olhos bons, que riam para as crianas,
para as coisas todas deste mundo que ele, afinal, com
as suas grossas mos, ajudava a criar. Assim, contava a
histria das flores e dos frutos, desde o tempo em que
eram apenas sementes, e como era a terra e o adubo e a
gua e o sol, e como tudo se fazia cor, perfume, gosto,
sumo...  Falava com amor.  Pois se ele conhecia cada
limo desde quando era uma pequenina flor, e depois
se tornara um botozinho verde `assinzinho', e se arredondara
e crescera, e agora estava ali, na mesa rstica,
ou numa cestinha onde os tinham recolhido, e perfumava
a casa toda, e estava pronto (isso nos causava d)
para ser cortado em rodelas ou espremido em limonadas.
Mas tio Zeferino comandava esses nascimentos e
sacrifcios  com uma  superior  tranqilidade.  Depois  de
uns, vm outros, tudo  assim, a vida continua, a vida
vai sendo sempre: Deus no pra, vai criando, vai renovando...
Tudo isso  que  tio Zeferino  dizia no era
tirado dos livros, mas da sua cabea, do seu corao,
da sua experincia de trabalho. Eram to vivas as suas
palavras que ningum deixava de acreditar. Segurando
uma dlia ou uma tangerina, ele parecia um orador e
(Deus me perdoe) um orador sacro.

    156
    JUVENAL


Avisto agora o bom preto Juvenal, magro, alto, sorridente,
com um belo dente de ouro no canto do sorriso.
Quando ele aparecia  porta da sala de aula, desabrochava
de alegria o nosso corao. Pois, quem no gosta
de ter um lpis de ponta muito bem aparada, pequeno
cone,  muito  liso,  de  cedro  cheiroso,  com um
bom estilete de plombagina, cuja incrvel finura se experimentava
na ponta do dedo? E Juvenal trazia uma
poro de lpis,  dispostos  como varetas  de leque, e
punha-se a distribu-los pelas crianas como quem oferecesse flores...
Juvenal batia a sineta,  hora do recreio: todos pensavam
nele, que assim marcava a hora da merenda,
hora to grata, quando se passa do curso do Rio So
Francisco ou da Serra da Mantiqueira para o po com
queijo e goiabada.
As meninas tinham tal gratido por Juvenal que, ao
cantarem o Hino  Bandeira, naquele trecho que diz:
"Recebe o afeto que se encerra / em nosso peito juvenil...",
olhavam para ele, imvel, no canto do ptio,
e brincavam: "em nosso peito, Juvenal..." O bom
preto fazia brilhar o dente de ouro no canto do sorriso,
e a voz das meninas se apagava, com a sua carinhosa
brincadeira, no grande coro escolar.
Todas as lembranas agradveis da ula se acumulavam
naquela simples figura de servente. Era uma espcie
de mgico:  entrava com rolos  de mapas, que desenrolava
cuidadosamente  na  parede.  Os  mapas  eram
novos, brilhantes, cheiravam fortemente a verniz, a resina,
como as figuras dos brinquedos, as ilustraes de
certos livros de histrias, os cromos que acompanhavam
as lindas caixas de passas do Natal. O bom, preto ia
buscar nos  seus esconderijos os esqueletos e os poliedros,
o globo terrestre, o policromo bolrio (que as pessoas
entendidas chamavam de "baco"), e aqueles maravilhos,
enormes cartes desdobrveis onde figuravam,
presos por uma linha, amostras de minerais, tubos com
sementes  vrias,  e,  simplesmente  impressos  em  cores
vivas, os diversos cortes longitudinais da pessoa humana,
com  seus  segredos  interiores,  digestivos,  respiratrios,
circulatrios.  Juvenal  conhecia  tudo  aquilo.  E
transportava  tanta  cincia  com  ar  muito  srio,  compenetrado
da sua responsabilidade ao lidar com aquele
material. Os tempos eram outros. Havia uma noo de
respeito e dignidade que atingia as criaturas mais humildes.
Quando  Juvenal  retirava  a  bandeira  do  seu
lugar para entregar  criana  que  devia segur-la, fazia-o
com  a  maior  delicadeza,  pois  sabia  que  estava
tocando no "smbolo da ptria":  e  as palavras  tinham
sentido certo, e os homens de bem, como aquele bom
preto, sabiam  manter o  devido  decoro  diante das coisas
venerveis. Nessa ocasio nem aparecia o seu dente de
ouro:  Juvenal era um cidado exemplar.
 Depois, sim, quando as crianas lhe encomendavam
merendas  caprichosas,  ele  tinha  autorizao  de  comprar
na  confeitaria prxima:  "Um po  doce  redondo,
com creme por cima;  se no tiver redondo, pode ser
mesmo  comprido,  sim? - mas  com bastante  acar
cristalizado!" (Juvenal tomava nota.) "Juvenal, Juvenal,
um  peixinho  de  chocolate!  com  recheio  de  hortel!"
"Duas  empadas,  Juvenal,  duas empadas  de camaro!"
"Eu quero pastel de carne. Bem estufado!  Assim" -
e a menina inchava de ar as bochechas. Juvenal tomava
nota e sorria. "Ningum mais quer merenda?", perugntava,
pronto a dobrar a sua nota de compras. Vinha
do fundo da sala uma voz tmida: "Eu queria um sonho...
Quanto custa um sonho,  Juvenal? Um tosto?
Duzentos ris?" Talvez fosse mais... Os sonhos eram
to grandes, to cheirosos, tanto acar por cima, com
tanto creme por dentro... "Quatrocentos ris?" Juvenal
ia trazer o sonho.  Depois, acertaria as contas.
 E, ao voltar, o dente de ouro cintilava no alto daqueles
embrulhos de doces perfumosos e ainda quentes.
"De quem so as empadas? E o peixinho de chocolate?
E o sonho?. .." Distribua as encomendas, acertava
as contas, dava o troco...
  Desse modo, o bom preto conquistava todos aqueles
inocentes coraes. E  havia sincera ternura na pequena
irreverncia com que as meninas murmuravam  socapa:
"Recebe o afeto que se encerra em nosso peito   ,
Juvenal!" Eram s as pequeninas que faziam isso. Ningum
as ouvia, no grande coro escolar. E no punham
malcia nenhuma no trocadilho. Era um desejo simples
e honesto de agradecer ao bom preto a gentileza com
que as tratava. Eram crianas como devem ser os anjos:
muito puras e muito sensveis.

    159
    MARINE DRIVE


O livro abriu-se nessa fotografia de Bombaim: Marine
Drive.  Quem conheceu a Praia de Botafogo, no Rio   ,
antes  das  atuais  reformas,  poderia  pensar  que  esta
curva era a da praia carioca, e este enrocamento, e esta
amurada em que, no entanto, se vem sentadas mulheres
indianas, de  sri,  cabelos  enrolados  na  nuca, cercadas
de crianas e desfrutando com elas da fresquido
matinal  do mar.
 A luz do sol estende largas manchas brancas nas pedras,
no parapeito, nas roupas das mulheres, no rosto
das crianas, e na linha contnua dos edifcios, at o
fim da curva, que parece um desenho  de harpa.  Se
fosse uma fotografia colorida, esta luz estaria impregnada
de uma cintilao de coral e de ouro e a espuma
que  estas  guas  vm  entregar  s  pedras  estaria  cheia
de chispas irisadas de diamantes.
 Marine Drive. Aquele mormao pelo cu, pelas paredes,
pelo cho. Dentro de casa, os ventiladores rodando
quase inutilmente. Aquele torpor que talvez inutilize
para a atividade fsica, mas abre campos largos para
a  imaginao. O informante malicioso que diz:  "Em
Bombaim,  apenas  trs  estaes:  warm,  warmer  and
warmest." Sim, faz muito calor. At o grande relgio
parece  que  anda mais  devagar.  No h um sopro  de
brisa. E as guas do mar no consolam a vista, pois
bem se v que devem estar muito clidas, cheias de
fascas, de reflexos, de vibraes de fogo.
 No entanto,  noite, Marine Drive transforma-se. Passeia-se
num carro descoberto, com um cocheiro sonolento
e na verdade  como se no se estivesse passeando,
mas apenas sonhando que se passeava. De um
lado e de outro, tudo deserto. O carrinho vai rodando
e, de ponta a ponta, tudo deserto, tambm. Deserto e
claro: o cho, as fachadas dos edifcios, a amurada que
alonga a sua curva emoldurando o mar. Agora, no
mais a cor do coral e do ouro das manhs de sol, mas
a brancura do luar polvilhando de prata o caminho, as
casas e o arabesco das ondas inquietas.
 Com esse rodar do carrinho por dentro da silenciosa
brancura; com esse ritmo do cavalinho a trabalhar to
tarde, na noite; com o vulto do cocheiro imvel; com
os amigos calados, deixando-se ir, o passeio noturno j
transcende os limites de Marine Drive: como no drama
de Kalids, vamos subindo do cho, vamos ascendendo
pelos ares, vamos perdendo a nossa identidade terrena
e adquirindo uma natureza mais sutil. Somos os viajantes
de  uma  noite  sobrenatural,  branca  e  transparente:
vamos em direo s estrelas, e das casas todas
fechadas ningum assiste  nossa evaso.
 Essas casas so, na verdade, edifcios de vrios andares,
de arquitetura sbria, alinhados, que a claridade
do luar transforma numa alta e longa muralha branca.
Embora fechados, ainda se nota, ern alguns, leves
pontos de iluminao. E desses incertos lugares vem aos
nossos ouvidos um som de msica oriental, muito plangente,
que  paira  suspensa  na  noite  como  o  perfume
nos jardins.
 Oh! o indeterminvel passeio por Marine Drive! Bombaim,
cidade tumultuosa, de multides apressadas, oferece-nos
este momento nico de solido e silncio, esta
avenida de sonho atravessada por um simples carrinho
onde  quatro  pessoas  extasiadas  se  deixam  conduzir
tranqilamente,  sem  obrigao  de  chegar  a  lugar
nenhum.
  Mas um outro som se levanta, agora muito mais prximo:
o de uma frauta rstica, de msica indecisa, inventada
lentamente, nota a nota; nma delicada experincia.
De onde vem essa msica, to doce de ouvir
porque se sente que est sendo criada com amor, por
uma necessidade veemente de expresso, sofrimento que
poderia ser grito, mas que se transforma em suspiro e
cadncia e melodia...
 A msica vem do lado do mar: vem das pedras do
enrocamento. Ali,  beira d'gua, onde a espma tambm
reduz a um sussrro a larga voz das ondas, o msico
invisvel est modelando os sons de uma obscura
frauta para contar  noite, ao cu,  solido os segredos
da sua vida. At muito longe nos acompanha a vaga
melodia que poderia ser a linguagem de qualquer um
de ns.  Cabem dentro  dela nossas lembranas,  nossas
perguntas; nossas saudades. E o carrinho vai rodando
cada vez mais leve, como por cima da msica.

    162
    O GURUDEV


Como a Gandhi se imps o ttulo de Mahatma, a "Grande
Alma", por sua dedicao  Verdade e  salvao de
seu povo, a Rabindranath Tagore se chamou o Gurudev,
o "Professor" - no no sentido mais ou menos aleatrio
de mero transmissor de conhecimentos, mas com o
significado profundo de um formador de almas, de um
Poeta atuante, capaz de abrir para os discpulos - ou
simples leitores - caminhos largos e claros de pensamento,
de sentimento, de compreenso da vida, de entendimento
das  naes, com o instrumento  da Beleza,
que tambm no  mais que o esplendor da Verdade.
Foi por issa mesmo que, embora profundamente  diferentes,
num dado momento Gandhi e Tagore coincidiram,
como  diversos  mas  igualmente  admirveis  representantes
da India, aos olhos de seu pas e diante do
mundo. E foi assim que, atuando cada um no seu setor,
contriburam  ambos  para  transformar  a  sorte de  seu
povo.
  Rabindranath  Tagore    conhecido  no  estrangeiro
principalmente como Poeta. O prmio Nobel de 1913 e
as numerosas tradues de sua obra em vrios idiomas
ocidentais concorreram para faz-lo admirado por toda
parte. Pouco tempo depois, Gandhi observaria que "o
poeta da India" estava a ponto de se tornar "o poeta
do mundo".  E  na verdade,  se recordarmos os  poetas
da Europa que se comoveram com sua pessoa e com
seus poemas, sentimos que ele foi o grande intrprete
de sua terra, naquele momento, e do que ela possui
de mais alto e puro, em fora delicada, poder espiritual,
serenidade  e  inspirao.
 Mas Tagore no foi apenas esse imenso Poeta que
se nos tornou familiar mediante tradues - pois apenas
uma parte de sua obra foi escrita diretamente em
ingls, ou por ele traduzida do bengali. Foi dramaturgo,
romancista e contista, para falarmos apenas da sua
atividade literria. Em todos os gneros, sua sensibilidade
potica permanece a mesma; no entanto, h pginas
suas de leve malcia, com certa sutil penetrao
satrica,  especialmente  as  de memrias,  quando  se refere
a seus tempos de estudo e primeiras experincias.
Em muitos casos,  um precursor, segundo a crtica de
seu pas, quanto aos gneros, e um grande estilista em
seu idioma.
 Seu teatro no  fcil de definir: o gosto ocidental
reclamar, no texto, os conflitos a que est acostumado.
O texto tagoreano  muito depurado, quase puramente
lrico,  sem  a  movimentao  dos  dilogos  ocidentais.
Como se em lugar de conflitos houvesse apenas aspira
es,  inquietaes, e cada personagem  se  desenvolves
se numa atitude isolada - como coreograficamente,
num mundo de outras dimenses, de outros dramas -
diante de um acontecimento, um mistrio, uma revelao
que ardentemente se espera, se contempla ou
recebe. Essa obra teatral, literariamente, pode ser conciderada
como uma srie de poemas dramticos, muitas;
vezes  enriquecidos  com  msica,  dana,  canto,  coros
tambm de Tagore.
  Assim como a pintura e a poesia, a msica da India
 cheia de sutileza, com modos peculiares de expresso
obediente  a cnones  tradicionais  que  a tornam pouco
acessvel a um  auditrio no familiarizado com a esttica
indiana e o sentido das ragas.  No entanto,
canes de Tagore so to difundidas, em sua terra, que
certa  noite,  num  grupo  de  pessoas  do  Oriente  e do
Ocidente que cantavam canes populares, a moa indiana
que cantou tambm uma saudosa melodia estava
cantando uma cano do grande Poeta. Suas palavras
e sua msica circulavam assim como a voz do prprio
povo, quase com a glria do anonimato.
  Poemas,  contos,  canes,  romances,  teatro,  msica,
tudo converge para um fim superior, na obra de Tagore.
 uma obra altamente educativa, sem nenhuma
aparncia  ou  inteno  didtica.  Ele  no  acreditava,
alis, em mtodos de educao que no fossem inspirados
em grandes sentimentos. Os pedagogos deixavam-no
apreensivo. Queria educadores capazes de amar seu
ofcio e seus discpulos, de amar a vida em sua totalidade.
E, sem desconhecer os sofrimentos deste mundo,
gostava de mostrar caminhos de alegria, esses caminhos
por  onde  os  coraes  felizes  e  agradecidos  vo  sem
medo ao encontro do seu Amor. Caminhos do fim do
mundo, onde todos se reconhecero.

    165
    HORA JAPONESA


Desembaraados  dos  sapatos - como    de uso,   no
Oriente, para se penetrar em recinto sagrado - transpe-se
o limiar da sala onde se vai servir o jantar.
  Oh!  como  sbio o Oriente!  Os ps fatigados por
estas duras caminhadas de pedras e asfaltos, sentem um
delicado prazer ao pisarem na branda esteira, que forra
o  pavimento:  esteira  tornada  ainda mais  branda pelo
artifcio de algum suave plstico que, colocado por baixo,
lhe empresta uma espessura de tnue colcho. Os
ps  se  sentem  repousados  e  agradecidos:  e  logo  esse
bem-estar se comunica a todo o corpo e  prpria alma.
Assim comea, de maneira to humilde, a felicidade da
hora japonesa.
 A sala  simples, e essa simplicidade nos oferece um
ambiente de ditosa calma. Apenas um kakemono ornamenta
a parede com seus caracteres, falando de uma
flor que se abre sobre os quatro mares - poema que
cada  letrado  presente  interpreta  a  seu  modo.  (Esses
poemas  do  Extremo  Oriente  podem  ser  interpretados
de muitos modos - parece-me - mas esto incorporados
 vida humana: no so para serem lidos, apenas,
mas  vividos.  Creio que, no Oriente,   mesmo difcil
separar, entre as pessoas verdadeiramente cultas, a vida
e a poesia.)
  Cada  convidado  encontra  numa  pequena  cestinha,
em forma de canoa, um guardanapo, to bem enrolado
que forma um compacto cilindro de pano. Desenrola-se
esse  guardanapo  que  foi  assim  espremido  depois  de
mergulhado em gua quente, e obtm-se uma agradvel
compressa para limpar as mos, antes do jantar. As
mos ficam to frescas, to novas como se as fssemos
usar pela primeira vez.
E  ento  aparecem  as  lindas  moas  japonesas,  com
seus  discretos  e  elegantes  quimonos,  e,  entre  genuflexes,
distribuem  pelos  convivas  pequenas  bandejas
acharoadas,  com umas  tigelas  to lindas  e  arrumadas
com tal encanto que no se sabe se aqui se deve comer
com os olhos, apenas, ou tambm com a boca, de maneira
vulgar. Pois o alimento, que se apresenta em pequenas
pores,  vem  disposto  artisticamente,  alm  de
ser artisticamente preparado. As pequenas fatias de peixe
cru tm um aspecto cristalino, mineral, assim alvas,
translcidas, com leves insinuaes rseas;. ou alaranjadas.
H umas sardinhas que parecem pequenas noivas,
envoltas numa vestimenta branca, num orvalho de diamante.
E umas trs rodelinhas, como de porcelana, que
se acomodam ao lado, so tambm pedacinhos de outro
peixe, que nunca tnhamos conhecido sob esse aspecto.
Essas minsculas iguarias so para se colher com as varetas
de madeira apresentadas na bandeja, e saboreiam-se
depois  de mergulh-las  no molho de  soja de uma
tigelinha  menor.
Uns bebem sak, que  uma bebida extrada do arroz;
outros se deliciam com o karpes, extrado do leite
- branco,  adocicado,  perfumoso -,  e  que,  segundo
os japoneses, tem o gosto do primeiro amor, pois  sua
doura acrescenta um ressaibo levemente acidulado. Uma
romntica bebida, que no contm lcool, que no embriaga,
mas refrigera e consola o corao.
As moas que andam em volta da mesa, como pssaros
prximos  e  coloridos,  levam  e  trazem,  por  entre
suaves sorrisos, novas tigelas, em suas pequenas bandejas
individuais. Parece que todos os peixes do mar desfilam,
em  apresentao  delicada,  nesse  espetculo
potico que  a culinria japonesa. E vem o rubicundo
camaro cozido, com sua armadura de coral; e h fatias,
rodelas, tiras - barbatanas? cartilagens? - de outros
produtos  marinhos  que  s  os  entendidos  sabem  logo
distinguir, com um simples olhar.
 A certa altura, as lindas moas trazem sopa de ovo e,
mais adiante, pratos com frutas, onde os bagos de uva,
esverdeados  e  transparentes,  brilham  com  seu  ar  de
pedra preciosa ao lado da rubra melancia de polpa cintilante
e do caqui descascado e dividido em quatro partes,
pois, segundo soube mais tarde,  nesse ponto de
amadurecimento,  ainda  no  convertido  naquele  deleitoso
creme  que  os  ocidentais  apreciam,  que  o  caqui
 verdadeiramente elegante e digno de ser oferecido aos
convivas.
  No falo da loua, da ornamentao da comida -
uma folha de salso, aqui;  um talo de gengibre avermelhado,
acol;  pedacinhos de cenoura cavada recheados
com molhos imprevistos... -, no falo do ch
que se vai bebendo em chvenas sucessivas, fugindo 
realidade, voando pelo sonho... No falo do rosto das
moas,  com um suave polimento de marfim, onde os
olhos so de nix negro. Nem falo das suas vozes, que
quando cantavam - pois  tambm cantavam!  - era
como se sassem de seus breves lbios muitas flores e
borboletas. Falavam de cerejeiras, falavam de neve. Era
muito doce, mas tambm talvez um pouquinho acidulado
como aquela bebida branca que tem o gosto do pri-
meiro amor...

    168
    OUTRO NATAL


Cerca de seiscentos anos antes de Cristo, na fndia distante,
uma rainha depois de vrios sonhos significativos,
interpretados  por  inmeros  sbios, teve um filho que
recebeu o nome de Siddhartha. Muitas coisas miraculosas
aconteceram ento. E de uma das montanhas do
Himalaia  desceu um  homem  santo  que tomou o  menino
nos braos e profetizou que ele seria um Buddha,
isto , um Iluminado. Disse mais: se ele ficasse no seu
reino, seria um grande monarca; mas, se partisse pelo
mundo, seria um grande Mestre da humanidade.
  O  rei fez  tudo  para  cercar  a  prncipe  de  coisas  e
pessoas amveis, e satisfazer-lhe todos os desejos. O prncipe
cresceu,  estudou,  casou-se,  participou  de  muitas
festas, e o rei desejava que a sua sorte fosse a de um
monarca feliz, entre vassalos felizes.
  Mas uma vez, passeando na sua carruagem, o prncipe
encontrou no seu caminho um velho, que a idade
empobrecera e enfraquecera, e que lhe estendeu a mo,
pedindo uma esmola. E Siddhartha aprendeu que todos
os homens, com o tempo, podiam chegar quela triste
situao. Grande foi a sua tristeza, qua o rei tentou
atenuar com festas e distraes. Mas o prncipe encontrou,
a seguir, um homem doente, que gemia, cado na
estrada; e mais tarde viu mulheres que choravam acompanhando
um enterro. Mas um dia encontrou tambm
um homem de cabea raspada, vestido de roupas simples,
que pedia um pouco de comida numa tigela.  E
soube que aquele homem abandonara o mundo, dera
aos outros o que possura, e vivia apenas de esmolas.
Esse ltimo encontro foi decisivo para a sua vida. "Farei
como este homem. Abandonarei o que  meu. Irei
pelo mundo afora. Terei paz de esprito. E ensinarei a
humanidade a vencer as desgraas da vida."
  Sofreu muito para deixar o palcio, pois acabava de
nascer o seu primeiro filho. Nem se despediu da princesa,
para no a despertar. Partiu com um criado fiel;
e diz a lenda que ningum ouviu os passos do seu cavalo
porque os deuses haviam juncado o cho de flores,
para  ensurdec-los.  Siddhartha  encontrou  o  Demnio,
ao sair da cidade. O Demnio aconselhou-o a no partir:
dentro de sete dias, dar-lhe-ia todos os reinos deste
mundo, para que ele os governasse. Mas o prncipe respondeu-lhe
que no  queria  bens  terrenos;  queria apenas
ser um Buddha, um Iluminado, para poder tornar
felizes todos os homens. E o prncipe procurou entender
o mundo, conhecer a Verdade, a causa do sofrimento
e a maneira de acabar com o sofrimento. E comeou
a ensinar a alguns discpulos maneiras corretas
de viver:  saber crer, ter altos objetivos, falar com benevolncia,
ter  uma  conduta  perfeita,  uma  profisso
honesta, ser perseverante na bondade, usar dignamente
da inteligncia, saber meditar.
  J era, ento, um Iluminado. Praticou e ensinou largamente
o bem, no apenas entre os homens, mas tambm
para com os animais. Sua doutrina foi a da no-
violncia.  E  seu  prestgio  dilatou-se  pela  terra  e  da
lndia passou para o Extremo  Oriente,  e hoje,  at no
Ocidente, seu nome  venerado com amor e respeito.
 Em Ajanta, na India,  mar em de um curso d'gua
de que vi apenas o leito, alinham-se as vrias capelas
de um antiqssimo mosteiro budista. Tudo cortado na
pedra e recoberto de pinturas que se tornaram clebres,
Essas grutas, hoje vazias,  so  apenas um dos  grandes
monumentos de arte da fndia. Mas a doutrina do Buddha
impregnou o corao das criaturas, e naquele lado
do  mundo nem os  passarinhos  fogem com medo  dos
homens.
  Agora h pouco, assisti em So Paulo, num templo
budista,    comemorao  do  nascimento  do  prncipe
Siddhartha.  Uma  cerimnia  simples,  com  recitao  e
canto  em japons, uma breve palestra em portugus,
alguns slides sobre a histria do Buddha. Numa espcie
de pequeno  andor, enfeitado de flores e colocado
no  meio  da  sala,  havia  uma  pequena  imagem  do
Buddha. De cada lado, um recipiente com ch. Os fiis,
a certa altura da cerimnia, faziam uma reverncia ao
jovem prncipe, representado no na postura consagrada
de  Iluminado, mas  de p,  e vertiam sobre  a sua
imagem uma colher de ch, como aluso ao seu primeiro
banho. A atmosfera, simples e cordial, recendia aos
incensos  que, no  Oriente,  so usados  em quase todas
as  cerimnias.
 E, entre estes dias tumultuosos, pesados de ambies
e   violncias,  comovia-me  assistir  quela  celebrao  de
aniversrio de um prncipe que h cerca de dois mil e
quinhentos anos abandonou todas as suas riquezas para
ensinar aos homens o caminho da felicidade, que  o
da sabedoria. To longe, no espao e no tempo, ali se
festejava o seu nascimento. Ali se renovava a esperana
de  um  constante  aperfeioamento  do  homem  em
seus pensamentos, sentimentos e atos. De uma disciplina
espiritual. De uma vontade efetiva de ser melhor. A fumaa
do incenso  perfumava  esses  sonhos, e levava-os
para  o  cu.

    171
    CONVERSAS ANTIGAS
    DE FIM DE ANO


- Teria sido Juvenal que cortou todos esses ramos de
mangueira?
  - No:  eu  creio  que  Desidrio  ajudou.  Ele  sozinho
no podia fazer todo o servio.
 - Desidrio  horrvel, no ? Tem um nome to
feio, to feio... E ele parece um homem fantasiado de
urso, no  parece?
 - No acho, no. Desidrio no  bonito. Mas eu
gosto do nome dele. E tudo que ele faz  bom. Viva o
Desidrio!
 - Que menina insuportvel. Isso  hora de dar vivas
a algum?
 - No.  A  ningum.  S  ao  Desidrio,  que ajudou
Juvenal a cortar os ramos de mangueira!

 (O ptio da escola est juncado de folhas. Sente-se
um cheiro delicioso como se agora se habitasse dentro
das rvores: um cheiro de seiva mida, viva, quente. O
palco tambm est juncado de folhagem e passam festes
de folhas de um lado para outro, na parte de cima,   ;
entremeados a fitas verdes e amarelas.)
 - Julinha! Zuleica! Mas que vestidos bonitos vocs
tm! Como brilham! Que fazenda  essa?
 - A fazenda no sei como se chama: deve ser nanzuque
ou mol-mol. Minha me  que sabe.
 - Mas,  por baixo,  temos  sombras  de  cetim.
 - Ah! e as rendas. . .
 - As rendas so estrangeiras.
 - To bonitas!
 - O seu vestido  o mesmo da ltima festa, no ?
 -  o mesmo. No ano que vem terei um novo. No
me importo com isso. Estava ficando curto, minha av
abaixou duas pregas. Mas a minha faixa  nova. Tambm
 estrangeira. Eu gosto muito da franja, no 
linda?
 - Julinha! - Zuleica! Vamos dar uma corrida at
o porto!
 - Eu no posso. Meu vestido  muito fino.
 - Eu tambm no. Meu sapato  novo e est um
pouco apertado.  ruim sapato apertado, no ?
 - E, faz bolhas no calcanhar.
 - Est uma beleza, a escola. Tudo coberto de folhagem
de mangueira. At d um pouco dor de cabea.
A senhora no vai logo  festa?
 - No, os meus filhos esto em escola particular.
 - E aprendem muito?
 - Aprendem alguma coisa:  e os seus?
 - Oh! os meus esto adiantadssimos. Nem gostam
de livros; mas sabem tanto que meu marido fica admirado.
A maiorzinha at vai cantar hoje uma cantiga em
japons!
 - Em japons!
 - Sim, senhora. Tem quimono, tamanquinhos, flor
na cabea, um leque enorme e canta Chon kina chon. . .
 - Chon kina chon? Que  que isso quer dizer?
 - Ah! no sei, mas  uma beleza. Ela canta virando
o leque por cima deste ombro, por cima do outro. Todo
mundo bate palmas!
 - Julinha! Zuleica! No podemos ficar juntas! Que
pena! Cada um tem de ir para a sua fila! Por que voc
est triste, Julinha?
 - Minha me vai ficar zangada:  puxaram-me pelo
vestido, e olhe a renda como ficou!
  -  mesmo! E Zuleica? Tambm rasgou o vestido?
  - No: eu no posso pisar com estes sapatos! No
posso  andar!  No gosto de sapatos  novos!
 - Oh! mas j vai comear a festa. Vocs viram que
poro de prmios ns vamos ganhar?
 -  Ah! eu no vou ganhar nenhum.
 - Eu  tambm no.
 - Como  que .vocs sabem?
 - Pelas notas.
 - Voc no ouviu a professora dizer que ns tnhamos
estudado muito  pouco?
 - Ah!  no  ouvi.

 - J comearam a tocar o hino? As crianas j vo
cantar?
 - Creio que ainda no.  algum que est experimentado
o  piano.  Parece  que  aqui  na  escola  h  uma
menina que  um gnio, como pianista.
 - Ento vamos prestar ateno. Pode ser ela.
 - A senhora viu aquela meninazinha amarela que
recebeu uma poro de prmios? No tem pai nem me.
Estuda  tanto,  sabe  tanto,  que    a  melhor  aluna  da
escola.
 - Qual ? Aquela ali?
 - Aquela mesma. O vestidinho dela j no  novo:
mas est muito bem engomado.
 - Esses babados de bordado ingls so muito vistosos.
 - E viu que faixa bonita ela traz  cintura? Deve
ser francesa. A faixa  nova.: No h outra igual em
toda a escola.
 - Parece  que  eIa nem  se importa  com isso!  No
est vendo? Sentou-se num galho de mangueira que estava
tava no cho, e est roendo um biscoito, como quem
nem sente o gosto; e com a outra mo vai folheando
um  dos livros  que  recebeu.  Olhe  quantos lhe  deram:
um,  dois,  trs,  quatro...
- So bonitos, no so, esses livros vermelhos de
beira dourada?
                              175

FIM do LIVRO

